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Pagamentos: Portugal arrisca ter mercado servido desde fora sem gerar emprego nem receita fiscal, alerta ANIPE

29 October 2026 at 07:00

O setor dos pagamentos em Portugal corre o risco de ser um mercado completamente servido desde fora, sem acrescentar qualquer valor à nossa economia. A denúncia parte de João Câmara, secretário-geral da Associação Nacional de Instituições de Pagamento e Moeda Eletrónica (ANIPE) ao JE.

“Há cerca de 640 instituições de outros Estados-Membros registadas para operar em Portugal em regime de livre prestação de serviços, sem gerar emprego nem receita fiscal”, alerta este responsável ao JE.

Esta sexta-feira, 30 de outubro, a conferência anual da ANIPE, que vai ter lugar no Palácio Sottomayor, em Lisboa, irá debater o futuro dos pagamentos em Portugal assim como os desafios da transformação tecnológica em Portugal.

Ao longo do dia, a Conferência será palco de reflexão sobre os principais desafios e oportunidades que marcam a evolução do setor, num contexto de transformação tecnológica e regulatória. O programa inclui painéis dedicados ao investimento em Portugal e ao mercado de pagamentos, à inteligência artificial aplicada às operações, bem como ao novo pacote legislativo europeu sobre prevenção do branqueamento de capitais (AML Package).

 

A ANIPE tem defendido que Portugal reúne condições para se afirmar como um centro de inovação no sector dos pagamentos, aproveitando também a sua ligação à Europa, África e Brasil. O que falta para concretizar esse potencial? E que medidas deveriam ser prioritárias para atrair investimento, talento e novas empresas?

Portugal tem uma posição singular que poucos países europeus conseguem replicar, pertence ao mercado único e ao espaço regulatório europeu, mantendo laços linguísticos, empresariais e culturais profundos com África e a Brasil, e tem um ecossistema tecnológico e um talento reconhecidos internacionalmente. Num setor em que muitos serviços de pagamento ligam geografias, essa combinação é um ativo estratégico: Lisboa pode ser o ponto de ligação regulado entre a Europa e as economias lusófonas e o Brasil.

O que falta não é potencial, é execução e coordenação. Eu apontaria cinco prioridades: previsibilidade e celeridade no licenciamento e na supervisão, com processos prescritivos, prazos claros e interlocução estável. Para o investidor, tempo é custo e imprevisibilidade é risco; acesso efetivo a infraestruturas e serviços locais de pagamento, porque sem isto não há mercado, só licenças; um enquadramento fiscal e laboral competitivo para talento e empresas inovadoras, incluindo a retenção de quadros qualificados e a atração de profissionais estrangeiros; instrumentos de experimentação regulatória, como sandboxes e canais de diálogo precoce com as autoridades, que permitam testar produtos sem esperar anos por clareza. Os canais de diálogo como o Finlab até existem, mas no caso das Sandboxes a atual legislação sobre as ZLT – Zonas Livres Tecnológicas é um caso de estudo sobre o que não deve ser feito num país relativamente a esta matéria; promoção internacional ativa, com Portugal posicionado de forma coordenada como hub depagamentos nos corredores Europa–África–Brasil.

Sem estas condições, o risco é termos operadores e fintechs a nascer em Portugal e a mudarem-se para crescer noutras jurisdições, ou mesmo, ter um mercado completamente servido desde fora sem acrescentar qualquer valor à nossa economia. Esse risco já é real. Há cerca de 640 instituições de outros estados-membros registadas para operar em Portugal em regime de livre prestação de serviços, sem gerar emprego nem receita fiscal, e apenas 16 com sede no país.

Assegurando estas condições, podemos e devemos tentar fazer o contrário, garantindo condições mínimas para ser o lugar onde empresas de todo o mundo escolhem estabelecer a sua porta de entrada na Europa.

A ANIPE nasceu da identificação de barreiras regulatórias, tecnológicas e concorrenciais ao desenvolvimento do mercado português de pagamentos. Cinco anos depois, o que mudou efetivamente? Portugal é hoje um mercado mais aberto e atrativo para novos operadores e investidores ou continuam a existir obstáculos à concorrência?

Mudou muito, mas a mudança mais importante foi de natureza política: hoje, a concorrência no mercado dos pagamentos é um tema com voz própria. Quando a ANIPE nasceu, as instituições de pagamento e de moeda eletrónica eram vistas como um setor menor, e os seus problemas, como questões técnicas de nicho. Cinco anos depois começamos a reconhecer que um mercado de pagamentos competitivo é uma infraestrutura crítica de competitividade para toda a economia.

Dito isto, seria desonesto afirmar que os obstáculos desapareceram, sendo o mais persistente a questão do acesso aos sistemas de pagamento e às infraestruturas de que as instituições de pagamento dependem para existir.

Enquanto um operador licenciado puder ver o seu acesso real ao sistema de pagamentos e determinados serviços barrado, sem uma fundamentação clara e sem recurso eficaz, a concorrência assenta numa dependência dos próprios concorrentes.

A este desafio somam-se a duração e a imprevisibilidade dos processos de licenciamento a abordagem mais ortodoxa do nosso regulador à regulamentação europeia, que acaba por aumentar a fragmentação regulatória e criar um desfavor concorrencial face a outros estados-membros.

Os números ilustram bem este desafio, já que desde a transposição da 2ª Diretiva de Pagamentos em 2018 apenas duas novas instituições de pagamento e de moeda eletrónica com sede em Portugal obtiveram. Há processos de licenciamento que se arrastaram por mais de quatro anos e o setor está sujeito a mais de uma centena de instrumentos regulatórios, europeus, nacionais e do próprio supervisor, que cria um labirinto jurídico muito difícil de navegar e que gera uma enorme insegurança jurídica.

Portugal tem ativos reais, tais como uma excelente base de talento, uma infraestrutura de pagamentos de referência e um mercado com elevada adoção digital. Mas atrair investimento exige mais do que bons ativos, exige previsibilidade.

Os investidores comparam setores e jurisdições pela clareza das regras, pela rapidez das decisões e pela certeza de que um operador licenciado poderá efetivamente operar. É nesse terreno que Portugal ainda tem trabalho a fazer, e é aí que a ANIPE concentra o seu esforço.

Portugal precisa de alinhar a sua abordagem regulatória à média europeia, não temos nem podemos ser mais permissivos que os demais, mas também não podemos restringir tudo por uma questão de conforto e desresponsabilização.

Um dos temas centrais da conferência será a chamada Agentic AI, que poderá permitir a agentes de inteligência artificial realizar compras e pagamentos em nome de consumidores e empresas. Estamos perante uma transformação profunda da forma como pagamos e compramos? Quais são as principais oportunidades e, sobretudo, os riscos de segurança, responsabilidade e proteção dos consumidores?

Sim, estamos perante uma transformação profunda, e convém ser rigoroso sobre em que consiste. Até hoje, a evolução dos pagamentos foi uma evolução de canais, passando do balcão ao ecrã e do cartão ao telemóvel. Com a agentic AI, o que pode mudar é o decisor. Em vez de o
consumidor iniciar cada pagamento, delega num sistema autónomo a tarefa de escolher, comprar, renegociar, pagar ou otimizar, dentro de limites que define. Pela primeira vez, o iniciador do pagamento pode não ser uma pessoa a olhar para um ecrã.

E já não é apenas uma promessa de um futuro longínquo, em 2026 tivemos o primeiro pagamento europeu executado de ponta a ponta por um agente de IA, num piloto do Santander com a Mastercard, e a Visa anunciou compras feitas por agentes com mais de 30 emissores europeus.

Ainda assim, estamos nas primeiras fases desta evolução e a maioria dos casos são pilotos controlados. As oportunidades são significativas: automação de tarefas financeiras tediosas, otimização de custos para famílias e empresas, tesouraria inteligente para PME, novos modelos de comércio e de micro pagamentos entre máquinas.

Para um mercado como o nosso, de operadores ágeis e especializados, é uma janela de oportunidade para criar serviços que a banca tradicional demorará mais a oferecer.

Os riscos são igualmente reais e quatro merecem destaque. Primeiro, autenticação e consentimento. Todo o edifício da autenticação forte do cliente foi desenhado para um humano que confirma uma operação. Como provamos que um agente atua com mandato legítimo do consumidor, dentro de que limites, e como se revoga esse mandato de forma imediata? Precisamos de modelos de mandato delegado verificáveis, com limites, finalidade e prazos bem definidos. Tal como hoje conhecemos o cliente, teremos de conhecer o agente, e a Carteira Europeia de Identidade Digital pode ser parte da resposta.

Segundo, responsabilidade. Se um agente comete um erro, é manipulado ou é alvo de fraude, quem responde? O consumidor, o prestador do agente, a instituição de pagamento, o comerciante? O novo quadro de fraude do PSR não foi pensado para este cenário, e a ausência de clareza é, ela própria, um risco, para consumidores e para operadores.

Terceiro, proteção do consumidor e manipulação. Um agente pode ser induzido a pagar por via de instruções maliciosas escondidas, e pode favorecer comercialmente quem o oferece. A transparência sobre critérios de decisão e conflitos de interesse será essencial. Surgem também novas tipologias de fraude, como a usurpação da identidade de agentes ou as identidades sintéticas.

Quarto, será que pequenos Comerciantes e Instituições de Pagamento de menor dimensão vão ter acesso à arena da Inteligência Artificial? Os atuais gigantes tecnológicos de IA ainda procuram formas de monetizar eficazmente o seu modelo de negócio, pelo que os serviços poderão não dar primazia à reputação de marca de pequenas empresas ou ter condições de acesso difíceis de alcançar, sendo que as empresas mais pequenas não vão ter grandes condições para competir somente pelo preço. O fosso já existe, já que segundo o Eurostat, 55% das grandes empresas europeias usam IA, contra apenas 17% das pequenas, e tanto o ecossistema português de pagamentos como o tecido empresarial nacional é composto sobretudo de PME.

A nossa posição é que a resposta não está em proibir nem em esperar, está em aplicar de facto o princípio de neutralidade tecnológica a um novo contexto, clarificando como a regulação existente se articula, e em promover normas técnicas abertas e ambientes de teste
supervisionados. Quem constrói estes mecanismos primeiro, com confiança, ganha vantagem competitiva europeia.

Segurança Social ainda tem apoios por pagar este mês de outubro

15 October 2026 at 19:35

Conjuntamente com a sua newsletter de outubro, a Segurança Social divulgou o calendário de pagamentos em curso, incluindo as datas para subsídios, pensões e outras prestações que se encontram alinhadas.
Se é beneficiário, conheça as datas e planeie melhor o seu orçamento.

Ao tomar conhecimento do calendário de pagamentos, fica imediatamente a saber quando é que vai receber os subsídios, o que pode ajudar a planear melhor o seu orçamento familiar deste mês e antecipar o início do próximo com maior facilidade

Os pagamentos de outubro que ainda faltam

No final desta semana, amanhã, a 16 de outubro, será pago o 1º pagamento desemprego / doença / parentalidade / ação social, bem como as Prestações Familiares.
A 21 de outubro é pago o Fundo de Garantia de Alimentos Devidos a Menores.

Mais para o final do mês, a 23 de outubro, serão pagos: o Rendimento Social de Inserção, o Fundo de Garantia Salarial e o Subsídio por Suspensão da Atividade Cultural.

O calendário de pagamentos fica concluído a 28 de outubro, altura em que a Segurança Social procede ao 2º pagamento desemprego / doença / parentalidade / ação social.
Note que neste dia também será pago o Subsídio de Apoio ao Cuidador Informal.

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