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Received — 5 October 2026 ⏭ Agência Pública

Recordar é votar: 7 dos 13 investigados pela CPI da Covid saem eleitos das urnas

5 October 2026 at 13:45

Cinco anos depois do Senado pedir o indiciamento de personagens da vida pública por crimes durante a pandemia, a maioria dos investigados pela CPI da Covid que concorreu neste domingo, 4 de outubro, passou pelo crivo do eleitor. Dos 81 nomes com pedido de indiciamento no relatório final da CPI, 13 eram candidatos este ano, como mostramos na Agência Pública. Ao final do primeiro turno, sete foram eleitos, cinco perderam e um segue na disputa.

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, e os dois voltam às urnas em 25 de outubro. A CPI pediu o indiciamento de Flávio por incitação ao crime, por estimular aglomerações, o não uso de máscara e a recusa à vacina; à época, ele chamou a acusação de “vingança”.

Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, vai ao segundo turno como primeiro colocado após os votos apurados

No Senado, três cadeiras

No Distrito Federal, Bia Kicis (PL) ficou com a segunda vaga, com 27,44%, atrás de Michelle Bolsonaro. No Rio, Carlos Jordy (PL) foi eleito com 24,56%, atrás do colega de partido Carlos Portinho. Em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro (PL) conquistou a segunda cadeira, com pouco mais de 25%, atrás de Carol de Toni. Carlos construiu toda a carreira no Rio, onde foi vereador por sete mandatos, e entrou na disputa catarinense por indicação do pai. Nenhum dos três tinha função executiva na pandemia e a CPI os investigou por campanhas nas redes sociais contra máscaras, o distanciamento social e as vacinas.

Já os ex-gestores que miravam o Senado perderam. No Amazonas, as vagas ficaram com Eduardo Braga (MDB) e Plínio Valério (PSDB); na Paraíba, com João Azevêdo (PSB) e Veneziano (MDB). Ficaram de fora Wilson Lima, governador durante o colapso do oxigênio em Manaus, e Marcelo Queiroga (PL), ex-ministro da Saúde, que terminou em quarto lugar.

Governadora do DF e candidata ao governo, Celina Leão, acompanhada das canditadas ao Senado, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, vota no CEF 01 do Lago Norte, cidade satélite de Brasília
Governadora do DF e candidata ao governo, Celina Leão, acompanhada das canditadas ao Senado eleitas, Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, votou na escola cívico-militar CEF 01 do Lago Norte, Brasília

Na Câmara e nas Assembleias

Eduardo Pazuello (PL) foi reeleito no Rio de Janeiro com 146.148 votos, o décimo mais votado do estado. Em 2022, ele recebeu 205.324 votos e foi o segundo mais votado. Osmar Terra (PL) foi reeleito no Rio Grande do Sul com 116.647 votos, e Ricardo Barros (PP) renovou o mandato pelo Paraná com 94.050. Onyx Lorenzoni não aparece entre os 31 eleitos gaúchos, com 100% das urnas apuradas.

A médica Nise Yamaguchi também não se elegeu. O PL conquistou 19 das 70 cadeiras de São Paulo na Câmara, e o nome dela não está entre elas. Foi a terceira derrota seguida da médica. Em 2022, disputou a Câmara pelo PROS e recebeu 36.690 votos. Em 2024, tentou a Câmara Municipal de São Paulo pelo União e ficou na suplência, com 16.554 votos.

Mayra Pinheiro (PL), a “capitã cloroquina”, foi eleita deputada estadual no Ceará com 34.752 votos, na penúltima das 46 vagas. No Amazonas, a bancada do União Brasil na Assembleia ficou com cinco nomes reeleitos. Marcellus Campêlo, secretário de Saúde durante a crise do oxigênio, não está entre eles.

Sessão para a votação de propostas legislativas. Dep. General Pazuello (PL-RJ)
Eduardo Pazuello foi reeleito deputado federal pelo Rio de Janeiro com 146.148 votos

O que a CPI apontou

Pazuello reúne a lista mais extensa como emprego irregular de verbas, prevaricação, comunicação falsa de crime, crimes contra a humanidade e epidemia com resultado em morte. Este último crime também foi atribuído a Mayra Pinheiro, Nise Yamaguchi, Osmar Terra, Wilson Lima e Queiroga. Pazuello, Onyx e Mayra foram apontados, ainda, por crimes contra a humanidade, pelo foco no tratamento precoce em Manaus. Barros é suspeito de integrar uma organização criminosa no caso Covaxin. Para os senadores, as normas do governo indicavam “uma estratégia de propagação do vírus conduzida de forma sistemática”.

Segundo pesquisadores da USP, da FGV, do Butantan e da London School, ao menos 127 mil mortes poderiam ter sido evitadas apenas em 2021 sem o atraso na compra de vacinas. O país terminou a pandemia com mais de 700 mil mortos.

A PGR, então comandada por indicados de Bolsonaro, pediu o arquivamento de todas as denúncias. Em setembro de 2025, o ministro Flávio Dino, do STF, mandou abrir inquéritos contra parte dos indiciados, mas Mayra, Campêlo, Pazuello, Nise, Queiroga e Wilson Lima ficaram de fora. Nenhum foi julgado antes da eleição. Os eleitos, após serem diplomados pelo TSE, tomam posse a partir de 1° de fevereiro de 2027.

Escândalo Master pesa na urna para uns e passa batido para outros

5 October 2026 at 13:00

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Em março, 38% dos eleitores disseram à Genial/Quaest que evitariam votar em candidatos envolvidos no maior escândalo bancário da história do país, que envolve Daniel Vorcaro e o Banco Master. O fim do primeiro turno, no entanto, mostrou que a disposição do eleitor se concentrou em alguns desses nomes e passou longe de outros, sem garantia de que essa decisão decorreu do envolvimento direto ou indireto dos candidatos no escândalo. Nenhum dos citados foi condenado, e todos negaram irregularidades.

Lista de políticos ligados ao Banco Master eleitos nas eleições de 2026

Na noite deste domingo, com o Piauí ainda contando votos, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) divulgou uma carta de despedida nas redes sociais. Presidente nacional do PP e ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, ele terminou em terceiro na disputa pela reeleição ao Senado, atrás de Marcelo Castro (MDB) e de Júlio César (PSD). “O povo é soberano em suas escolhas”, escreveu.

Ciro é investigado pela Polícia Federal (PF) por suas relações com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Segundo a PF, a emenda com a qual ele propôs elevar de 250 mil para 1 milhão de reais a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) teria sido redigida pela assessoria do banco. Fotos do celular de Vorcaro, reveladas pela piauí, mostram os dois dançando numa estação de esqui nos Alpes, em janeiro de 2025.

Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira abraçados em viagem aos Alpes franceses
Daniel Vorcaro e Ciro Nogueira abraçados em viagem aos Alpes franceses

No Maranhão, Weverton Rocha (PDT), cujo nome também foi associado a Vorcaro, ficou em quarto lugar na corrida ao Senado. O inquérito que mais pesa contra ele, porém, é o das fraudes no INSS. Na Bahia, ACM Neto (União Brasil) perdeu o governo para Jerônimo Rodrigues (PT) no primeiro turno. Uma consultoria ligada a ele teria recebido R$ 5,4 milhões do Master, e Vorcaro o citou numa proposta de delação que a PF e a PGR recusaram. ACM Neto diz que seus encontros com o banqueiro foram profissionais. João Roma (PL), convocado pela CPI do Crime Organizado para explicar as mudanças no crédito consignado do Auxílio Brasil, também ficou fora do Senado.

Na mesma Bahia, Jaques Wagner (PT), investigado na Operação Compliance Zero por suspeita de ter recebido vantagens negociadas com um ex-sócio de Vorcaro, foi reeleito senador com 3,88 milhões de votos. Ele nega ter atuado em favor do banco.

Também saiu ileso o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Neste domingo, a mesma piauí publicou fotos dele em eventos bancados pelo Master em Londres. Motta pediu ao banco um empréstimo para uma empresa da cunhada e diz que a operação foi regular, e Motta foi reeleito com quase 124 mil votos na Paraíba.

Hugo Motta, Fábio Faria, Daniel Vorcaro e Rodrigo Cunha Mello Salomão em festa
Hugo Motta, Fábio Faria, Daniel Vorcaro e Rodrigo Cunha Mello Salomão em festa

No Rio de Janeiro, Antonio Rueda, presidente do União Brasil, cujo escritório teria recebido R$ 6,4 milhões do Master, foi eleito deputado federal com 155.836 votos. Advogado pernambucano de 51 anos, ele disputou um cargo eletivo pela primeira vez, depois de décadas nos bastidores, e fez campanha pela Baixada Fluminense. O Ministério Público Eleitoral chegou a pedir a impugnação do registro, sob o argumento de que a candidatura teria se beneficiado de uma estrutura política ligada a milícias na região. O TRE-RJ liberou a candidatura em 22 de setembro. Rueda nega irregularidades.

Dois nomes nem chegaram à urna. Ibaneis Rocha (MDB) foi o único político que Vorcaro citou nominalmente em depoimento ao STF. Deixou o governo do Distrito Federal para disputar o Senado e desistiu em julho. “Vou cuidar da minha vida”, disse à Folha. No Rio, Cláudio Castro (PL) abandonou a disputa em maio, depois de buscas da PF ligadas a aplicações do Rioprevidência no banco. A essa altura, o TSE já o havia declarado inelegível em outro processo. Davi Alcolumbre, que a piauí cita entre os frequentadores das festas de Vorcaro, não disputava nada e perdeu mesmo assim, porque seus aliados foram derrotados no Amapá. 

Em São Paulo, o deputado Mario Frias (PL), produtor-executivo de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro bancado em grande parte por Vorcaro, foi eleito por São Paulo com 91 mil votos. Em setembro, ele foi alvo de buscas da PF numa investigação sobre cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares que teriam sido desviadas para o filme.

Em Minas Gerais, Nikolas Ferreira (PL) foi reeleito deputado federal com mais de 2,6 milhões de votos e tornou-se o deputado mais votado da história do país. Em março, quando a CPI do INSS encontrou seu número entre os contatos do celular de Vorcaro, ele disse que nunca havia se encontrado com o banqueiro e que não se lembrava de ter conversado com ele. Admitiu apenas ter viajado num avião de Vorcaro, sem saber, segundo ele, quem era o dono.

Em setembro, o ICL Notícias revelou áudios enviados por Nikolas ao banqueiro em março de 2025. Neles, o deputado pede a Vorcaro que ajude seu advogado e ex-assessor, Thiago Rodrigues de Faria, a liberar um ativo de mineração que estava parado. Em outra mensagem, desculpa-se por ter criticado, nas redes, um evento em Londres, financiado pelo Master. Nikolas confirmou os áudios. Disse que recebeu o contato do pastor André Valadão em 2023, que conhecia o banqueiro apenas como “Dani” e que nunca recebeu dinheiro dele.

No Distrito Federal, 12 dos 15 deputados distritais que aprovaram, em 2025, a compra do Master pelo BRB foram eleitos neste domingo, segundo o site Amado Mundo: 11 foram reconduzidos à Câmara Legislativa e um, Thiago Manzoni (PL), chegou à Câmara dos Deputados com 90.418 votos.

Rio de Janeiro (RJ), 04/10/2026 – O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel.
O candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) vota na Escola Municipal Barão Homem de Mello, em Vila Isabel

Flávio mentiu 43 vezes sobre relação com Vorcaro 

Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno à frente de Lula, com 47,27% dos votos válidos contra 44,88%. Segundo as investigações, Vorcaro teria pagado cerca de 14 milhões dos 24 milhões de dólares solicitados por Flávio, numa relação que passa pelo financiamento de Dark Horse, filme sobre o pai dele. Flávio nega ter oferecido contrapartida.

A versão do candidato, porém, mudou ao longo da campanha. O levantamento do Aos Fatos, publicado em 24 de setembro, mapeou ao menos 43 declarações enganosas de Flávio sobre o caso, organizadas em cinco estratégias. Em março, quando seu número apareceu entre os contatos do celular de Vorcaro entregues à CPI do INSS, disse que não conhecia o banqueiro. Em maio, quando o Intercept Brasil revelou as mensagens entre os dois, primeiro negou que existissem e, horas depois, admitiu as conversas, mas sem reconhecer irregularidade. Mais recentemente, passou a atacar Alexandre de Moraes, do STF, por ter voado num jatinho ligado a Vorcaro, até que documentos da PF mostrassem que ele próprio viajou na mesma aeronave. Nas mensagens, Flávio chamava o banqueiro de “irmão” e dizia: “estarei contigo sempre”.

Received — 2 October 2026 ⏭ Agência Pública

Morta por PMs, juíza Patrícia Acioli “humilhava policiais”, disse Flávio Bolsonaro em 2011

1 October 2026 at 23:00

Nesta quinta-feira, 1º de outubro, voltou a circular um comentário do candidato à presidência e então deputado estadual Flávio Bolsonaro sobre o assassinato da juíza Patrícia Acioli, morta com 21 tiros na porta de casa, em Niterói (RJ), em 12 de agosto de 2021. Na data, poucas horas depois da juíza ser morta, Flávio publicou no Twitter, hoje X, uma resposta à rádio CBN Rio, dizendo que a própria magistrada tinha contribuído para ter “mts inimigos” [sic].

“Que Deus tenha essa juíza, mas a forma absurda e gratuita com q ela humilhava Policiais nas sessões contribuiu p ter mts inimigos” [sic], escreveu às 8h39. A Justiça depois condenou 11 policiais militares pelo crime.

O post continua no ar no X. Hoje também é o dia em que a Associação dos Magistrados do Estado do Rio de Janeiro (AMAERJ) entrega, no centro do Rio, o prêmio de direitos humanos que leva o nome da juíza. Também hoje à noite, na mesma cidade, Flávio, senador e candidato do PL à Presidência da República, participa do último debate na TV Globo antes do primeiro turno.

A relação de Flávio com policiais acusados de integrar milícias já foi alvo de questionamentos. Quando era deputado estadual, ele propôs homenagens na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a agentes que depois foram investigados ou presos por envolvimento com grupos milicianos. Um deles foi o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime e morto em 2020.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa de Flávio Bolsonaro e perguntou se ele mantém o que escreveu em 2011, se se arrepende ou pretende apagar a publicação e em que fatos se baseou para dizer que a juíza “humilhava” policiais nas sessões. Também perguntou se, sabendo que o crime foi planejado e executado por policiais militares, ele considera que Patrícia Acioli contribuiu para a própria morte, e como avalia hoje o legado dela no combate às milícias. Por fim, a reportagem pediu que ele comentasse as homenagens que propôs na Alerj, quando era deputado estadual, a policiais depois investigados ou presos por ligação com milícias, como Adriano da Nóbrega. Até a publicação deste texto, não houve resposta. O espaço segue aberto à manifestação.

Quem foi Patrícia Acioli

Patrícia Acioli era a juíza titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, e recebia ameaças de morte com frequência. Ela ficou conhecida por julgar policiais militares ligados a milícias e a grupos de extermínio, e mandou para a prisão mais de 60 agentes de segurança.

Ela foi executada na noite de 11 para 12 de agosto de 2011, quando chegava em casa, no bairro de Piratininga, em Niterói. Horas antes, tinha decretado a prisão preventiva de PMs do 7º Batalhão (São Gonçalo) investigados pela morte do jovem Diego da Conceição, em um caso registrado como “auto de resistência”. As investigações concluíram que o crime foi planejado no batalhão para impedir as prisões.

Onze policiais militares foram condenados pelo assassinato, e as penas somadas passam de 250 anos. O mandante, segundo a Justiça, foi o tenente-coronel Cláudio Luiz Silva de Oliveira, que comandava o 7º BPM. Em 2014, ele foi condenado a 36 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado e pela formação de quadrilha armada.

O caso virou um marco na discussão sobre a infiltração de milícias nas forças de segurança do Rio e sobre a segurança de magistrados que julgam o crime organizado. Foi a primeira vez que um juiz em exercício foi assassinado no estado.

O prêmio Patrícia Acioli

A cerimônia do 15º Prêmio AMAERJ de Direitos Humanos – Patrícia Acioli acontece nesta quinta-feira, Fórum Central do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). A AMAERJ criou a premiação em 2012, um ano após o crime, para “homenagear a memória da juíza” e “dar continuidade à luta da magistrada em prol da dignidade humana”.

Ao longo de 15 edições, o prêmio se tornou uma das principais vitrines do jornalismo e da produção acadêmica sobre direitos humanos no estado. Ele reconhece reportagens sobre violência policial, sistema prisional, racismo e acesso à Justiça, temas próximos aos que custaram a vida da juíza.

Received — 1 October 2026 ⏭ Agência Pública

iFood passa R$ 3 milhões para pesquisa científica após acordo para encerrar inquéritos

30 September 2026 at 20:52

Em 16 de abril de 2021, um homem de colete preto circulava entre os entregadores do iFood que faziam greve em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo. Tinha um adesivo no boné, outro no face shield, além de uma faixa de três metros de comprimento e pacotes de adesivos para distribuir. Todos diziam a mesma coisa: “vacina pros entregadores de aplicativo já”.

Parecia mais um motoboy, mas segundo a Agência Pública revelou, era um funcionário de uma agência de monitoramento digital a serviço de uma campanha contratada pelo iFood. A ideia da empresa era levantar a pauta das vacinas para esvaziar a reivindicação da greve. Funcionou: naquele dia, parte da imprensa noticiou que os entregadores pediam vacinas.

A cena abre “A máquina oculta de propaganda do iFood”, reportagem de Clarissa Levy para a Pública, de abril de 2022. Com base em mais de 30 documentos e em relatos de quem trabalhou no projeto, a apuração descreveu como as agências Benjamim Comunicação e Social QI (SQi) teriam operado, entre 2020 e 2021, uma propaganda “lado B” contra os “Breques dos Apps”.

Um documento de orientação resumia a regra: “NUNCA assinado como iFood para que ninguém desconfie”. Numa reunião gravada, obtida pela reportagem, publicitários da Benjamim avaliaram que a Não Breca Meu Trampo “cumpriu uma missão” ao enfraquecer Paulo Lima, o Galo, líder dos Entregadores Antifascistas. O iFood negou qualquer relação com a SQi e disse que não compactua com perfis falsos. As agências contestaram a reportagem à época.

iFood não pode interferir em greves de entregadores

Nesta semana, o caso chegou a uma nova etapa, conforme informou o Ministério Público Federal (MPF), nesta terça-feira, 29 de setembro. O iFood repassou R$ 3 milhões ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para financiar pesquisas como parte de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que a empresa, a Benjamim e a SQi assinaram em 7 de julho de 2023 com o MPF e o Ministério Público do Trabalho (MPT) para encerrar três inquéritos abertos a partir da denúncia da Pública.

Apesar de ter aceitado o acordo, o iFood não reconhece as condutas e repete isso na página que mantém sobre o TAC: afirma que “não cometeu qualquer uma das condutas investigadas” e que assinou o TAC para evitar um processo “longo e desgastante”.

O TAC se divide em três eixos: satisfação, não repetição e compensação. Os dois primeiros, segundo o MPF, foram cumpridos “em larga medida”.

A declaração pública conjunta veio primeiro. Pelo registro do próprio iFood, saiu no site da empresa em 10 de julho de 2023, na página inicial da Folha de S.Paulo no dia 16 e, entre 18 de julho e 5 de agosto, em dias alternados, no Instagram, no Facebook e no Twitter.

Depois, veio a campanha sobre o direito à informação e a liberdade de expressão dos entregadores, com três meses de peças semanais nos perfis oficiais do iFood, criadas com a Benjamim e com alcance medido pela SQi. A proposta foi entregue aos procuradores em setembro de 2023. O MPF informa que a campanha foi realizada.

No eixo de não repetição, o iFood indicou três consultorias em direitos humanos em agosto de 2023. O MPF escolheu uma em outubro, e a contratação foi concluída em dezembro. Cabe à consultoria elaborar um programa interno para identificar riscos à transparência e à liberdade de expressão nas atividades da empresa, com relatórios semestrais ao MPF por dois anos. O MPF diz que a medida é inédita em TACs e que o programa segue “sob acompanhamento”. Por seis meses, o iFood também ficou proibido de anunciar suas próprias medidas de respeito ao direito de greve.

Outras obrigações não têm prazo para serem cumpridas. Perante o MPT, o iFood se comprometeu a não bloquear, suspender ou descredenciar entregadores por participação em greves ou sindicatos, a não usar “prepostos ou instrumentos tecnológicos” para interferir em manifestações e a não premiar quem deixar de aderir a paralisações. Benjamim e SQi assumiram compromissos semelhantes. Cada obrigação descumprida gera multa de R$ 50 mil por mês, até o limite de R$ 500 mil por ano.

Dinheiro vai para pesquisas sobre trabalho de entregadores e responsabilidade de plataformas

O eixo de compensação é o que se movimenta mais lentamente. O TAC fixou em R$ 6 milhões o valor que o iFood deve investir em pesquisas sobre três temas: relações de trabalho dos entregadores, mercado publicitário e responsabilidade das plataformas. O acordo não fixou prazo para a escolha de quem administraria o dinheiro, mas determinou que, feita a escolha, a transferência ocorreria em até 15 dias úteis. O primeiro repasse chegou três anos e dois meses após a assinatura e corresponde à metade do total.

O CNPq deve lançar, ainda neste semestre, a chamada pública para selecionar pesquisadores. Os projetos se dividem em duas frentes: regulação da publicidade e do marketing digital, e responsabilidade das plataformas diante de conteúdos falsos sobre saúde pública, meio ambiente e democracia. As pesquisas devem terminar até julho de 2030, com resultados públicos.

Nossa Senhora Aparecida: boato sobre padroeira domina redes e chega ao TSE

25 September 2026 at 22:40

Um projeto de lei engavetado há 18 anos levou Nossa Senhora Aparecida ao centro da campanha presidencial e, nesta sexta-feira, 25 de setembro, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O vice-presidente do Tribunal, ministro André Mendonça, determinou que o humorista Antonio Tabet apague do X (antigo Twitter) uma publicação que acusava a família de Flávio Bolsonaro (PL) de atacar a santa. Na postagem, com a imagem da padroeira, o humorista escreveu: “A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!”

A decisão proíbe novas postagens com a mesma acusação, sob multa de R$ 30 mil. Segundo Mendonça, os documentos apresentados pela campanha de Flávio indicam que o candidato não propôs nem apoiou a iniciativa de retirar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida.

Em nota, “A defesa de Antonio Tabet repudia veementemente a decisão liminar proferida pelo Ministro André Mendonça que determinou a remoção de uma de suas publicações na plataforma X. A ordem judicial de exclusão atinge uma manifestação que em momento algum citou o nome do candidato Flávio Bolsonaro. A principal (mas não única) fragilidade jurídica da decisão reside na presunção de que uma crítica genérica teria um destinatário certo, referendando um curioso fenômeno de autoidentificação. A postagem limitou-se a afirmar, acompanhada de uma imagem da padroeira, que ‘A família miliciana odeia tanto mulher preta, que resolveu atacar Nossa Senhora Aparecida!’. O fato de o representante ter se reconhecido de forma tão imediata nessa exata descrição é revelador, mas vestir a própria carapuça não deveria fornecer o alicerce jurídico para a decretação de censura”. Leia a íntegra.

Como o tema explodiu

Existe um projeto de lei sobre o assunto, mas ele não tem relação com Flávio. É o PL 2.623/2007, do então deputado Professor Victório Galli (PP-MT), pastor evangélico, arquivado há muitos anos. O texto alterava a redação da Lei 6.802/80, do feriado de 12 de outubro, trocando “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. Galli invocava a laicidade do Estado, mas o projeto foi rejeitado na Comissão de Educação e Cultura e arquivado em agosto de 2008.

Nesta quinta-feira, 24 de setembro, no entanto, Maria Cristina Fernandes fez um comentário na GloboNews afirmando que haveria uma reação da Igreja Católica a evangélicos que estariam mobilizando o projeto, o que poderia favorecer Lula. A fala, que não mencionava Flávio, foi tirada de contexto e passou a viralizar como se ele estivesse por trás da ideia. Após a repercussão, a GloboNews fez uma retratação.

Redes e reações de lado a lado

Levantamento da Palver mostra que o assunto chegou a 735 menções a cada 100 mil mensagens nesta sexta-feira, 25. Um relatório da própria campanha, entregue ao TSE, contabilizou 2.086 publicações de 1.674 contas, com mais de 21 milhões de visualizações. No Google Trends, as buscas pela santa atingiram o nível mais alto em três meses.

Flávio Bolsonaro chamou o conteúdo de fake news, disse que é evangélico, mas respeita todas as religiões. “Isso é uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”, afirmou em um vídeo publicado na noite de ontem.

Já o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou, em suas redes sociais, ter recebido mensagens de católicos preocupados e garantiu que as tradições religiosas serão preservadas. Na última quarta-feira, 23 de setembro, o presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Jaime Spengler, reiterou que a Igreja não declara voto e criticou a mistura entre religião e política.

A controvérsia surge num momento em que bispos e arcebispos católicos têm se manifestado publicamente em defesa da soberania nacional e dos mais pobres, bandeiras que coincidem com o discurso de campanha de Lula. A cúpula da Igreja, porém, reafirma que não apoia candidatos nem partidos.

Mãe que perdeu o filho para as bets pede proibição em encontro com Lula

16 September 2026 at 20:00

Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.

A professora Vânia de Souza Borges, de Uberlândia (MG), passou dois anos batendo em portas que não se abriam. Procurou a Polícia Civil, o Ministério Público de Minas Gerais e a CPI das Bets do Senado. As três tentativas não resultaram em nada. Neste mês, Vânia sentou-se diante do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília, e fez um pedido: a proibição das casas de apostas online no país.

“Eu pedi ao Lula o fim das bets; eu disse que apenas regulamentar não basta. Pedi em meu nome e em nome das mães e famílias brasileiras que estão sofrendo com esse problema”, contou Vânia à Agência Pública. O encontro ocorreu no último domingo (12), em uma casa particular onde Lula gravava para sua campanha à reeleição.

Do luto à luta

Rafael Borges Amaral morreu em 23 de março de 2024, aos 26 anos, após oito meses em que a família acompanhou o avanço do vício em apostas. Ele trabalhava num lava-jato perto de casa, vendeu a moto, afastou-se dos parentes. À 1h48 daquela madrugada de março, no dia do aniversário das duas irmãs, transferiu R$ 30 para uma intermediadora de pagamentos usada por bets. Foi a última aposta.

A professora Vania durante encontro com o presidente Lula

A carta em que Vânia relatava a morte do filho ficou entre os milhares de documentos da CPI das Bets, cujo relatório foi rejeitado – o primeiro em dez anos no Senado –, sem o indiciamento de 16 responsáveis, entre empresas e influenciadores. 

A reportagem da Pública localizou a carta de Vânia entre os documentos da CPI e fez uma reportagem sobre o caso, veiculada em 3 de julho deste ano no especial Jogo Perigoso: O Brasil das Bets, na qual a professora comparou influenciadores a traficantes: “Elas induzem as pessoas, levam a pessoa ao erro, induzem as pessoas até que elas percam tudo”.

Após a repercussão do caso, em 7 e 8 de julho, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) protocolou dois projetos de lei inspirados no caso de Rafael. O PL 3.613/26, batizado de PL Rafael, prevê responsabilização solidária de influenciadores, afiliados e plataformas e proíbe o revshare, modelo em que o divulgador recebe comissão proporcional ao que seus seguidores perdem. A parlamentar também acionou o Ministério da Justiça. 

Em 17 de julho, a Pública revelou que o Ministério Público Federal em Uberlândia havia instaurado um procedimento investigatório criminal contra oito plataformas, entre elas a plataforma divulgada por Virgínia Fonseca e Neymar.

Convite após a reportagem da Pública

Segundo Vânia, o presidente tomou conhecimento da história e, então, veio o convite para uma conversa sobre os danos causados pelas bets. Ela contou ter sido ouvida pelo presidente, junto a outras pessoas que seriam apostadores e desenvolveram dependência – “cada um com um drama diferente, mas todos com relação às bets”, relatou. 

A professora relata que Lula perguntou ao grupo o que precisava ser feito. “Eu respondi que a única solução é cortar o mal pela raiz, proibindo-as definitivamente, e todas as pessoas do grupo concordaram” e que o presidente disse que essa também seria sua intenção. Vânia disse ainda que passou o número do processo da investigação no MPF aberta após a reportagem da Pública e que Lula teria dito que acompanharia o desfecho do caso. O depoimento da professora foi gravado e pode ser usado no horário eleitoral do candidato.

Lula e as bets

Desde o início de setembro, Lula tem intensificado o discurso contra as plataformas de apostas online. Em Brasília, no dia 1º, reuniu artistas, influenciadores, representantes de vários de seus ministérios e vozes expoentes contra as bets, a exemplo da produtora Paula Lavigne, para discutir o impacto do setor na saúde da população. Na ocasião, empresas legalizadas em atuação no país protestaram de não terem sido incluídas no debate, uma vez que atendem aos requisitos solicitados pelo próprio governo federal. 

Em entrevista ao SBT, na quinta-feira (10), o presidente Lula declarou: “Chamei todas as pessoas que se queixam da bet, chamei a sociedade e ouvi. Agora já mapeamos tudo e já sistematizamos. Agora eu vou tomar uma decisão.”

No domingo (13), durante transmissão ao vivo nas redes sociais, o presidente relatou a reunião com Vânia ocorrida no mesmo dia. O presidente se referiu ao caso como o episódio da mãe que perdeu o filho de 26 anos, além de mencionar a história de um homem que fez 1400 transferências via Pix em três meses e uma mulher que chegou ao desespero por uma dívida que não conseguia pagar. 

Em discurso no Palácio do Planalto, presidente Lula cita Vânia e a luta contra as bets

“Se depender da minha vontade, é fechar as bets”, afirmou Lula. Em seguida, ponderou: “Mas eu vou levar a sério todas as implicações que têm, porque é uma coisa incontrolável.” E resumiu: “Nós estamos passivos diante da sociedade que está se matando de dívida”.

Na segunda (14), no Palácio do Planalto, durante a sanção da lei do Move Brasil, que amplia o acesso a crédito para motoristas de aplicativo, taxistas e outros trabalhadores de transporte, o presidente voltou a abordar publicamente o assunto das bets e afirmou estar lidando com uma enfermidade coletiva que demanda atenção urgente.

Estamos tomando decisões e logo, logo, vamos anunciar a decisão que a gente vai tomar em relação a isso [Bets], porque é uma doença, não é um jogo. É a indução dos inocentes ao vício.”
Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente da República

Vânia espera que a conversa renda algo além da campanha. “Desejo sinceramente que esse encontro possa resultar em algo efetivo para a solução desse problema”, afirmou, ao voltar para casa, em Uberlândia, onde o quarto de Rafael continua do jeito que ele deixou.

O sequestro da cueca vermelha

12 September 2026 at 08:00

Acredito que a vida adulta te coloca algumas provações inusitadas, como descobrir que detergente virou bebida de maluco negacionista e que o papel higiênico não se desenrola sozinho — a não ser quando seu gato faz picadinho dele numa madrugada qualquer. 

Existem outras, claro, tão banais, como ir à lavanderia. Eu estou nessa prática há pouco tempo e percebi como esse ecossistema úmido é repleto de armadilhas sociológicas. 

A lavanderia é um lugar onde a intimidade alheia se expõe, rodopiando a mil rotações por minuto, atrás de um vidro embaçado. Foi numa dessas incursões, armado com um cesto de roupas sujas e a ingenuidade de um novato, que o destino me pregou uma peça.

Recolhi minhas roupas da secadora e dobrei tudo com a pressa de quem quer voltar ao sofá. Ao organizar as gavetas, notei uma intrusa. Uma cueca vermelha. Não um vermelho discreto. Era um vermelho vibrante, quase radioativo, um vermelho que gritava “eu não tenho medo de desbotar na lavagem”.

Eu não tenho cuecas vermelhas. Minhas gavetas são um monótono degradê de cinza, preto e azul-marinho, o uniforme padrão da melancolia masculina urbana. Aquela peça rubra era um alienígena no meu guarda-roupa. Fiquei imaginando quem seria o dono e o que aquela cueca teria vivido. 

Pensei em levar de volta. “Amanhã eu desço e deixo no balcão”, prometi. Mas o amanhã não chegou. A cueca vermelha ficou ali, no cesto de roupa suja, me encarando com toda a sua ousadia escarlate toda vez que eu me aproximava. 

Semanas se passaram e a cueca foi soterrada por outras peças. Chegou o dia de lavar roupa novamente. No piloto automático, peguei tudo no cesto, desci, lavei, sequei, subi. Quando fui guardar… lá estava ela. Eu a havia lavado de novo. Avisei a Alexa para anotar o recado e me lembrar no dia seguinte. “Devolver a cueca”.

Por um momento, eu não só a tinha sequestrado, como também a mantinha num regime bizarro de cativeiro com pensão completa. Ela tinha dono e não era eu. Senti um misto de culpa e absurdo. E, por algum motivo besta, tinha nojinho dela. 

Decidi que daria um fim naquilo. Um assassinato de algodão. Mas hesitei. Vai que o cara é apegado? A cueca já tinha ganhado status de entidade na minha casa. 

Na vez seguinte em que desci à lavanderia, a maldita estava na minha sacola, pronta para ser devolvida. Enquanto a máquina girava, sentei-me e abri um livro, tentando fingir que não carregava a roupa íntima de um estranho no bolso. Fiquei sem jeito de colocar a danada na bancada porque havia mais gente. 

Não é qualquer gente, é dessas que puxam assunto na lavanderia. Elas existem. Foi quando um rapaz deu início ao papo. Falamos do tempo, do síndico, da inflação do sabão. Amenidades. A conversa fluiu para o futebol. Ele suspirou pesado e, com a naturalidade de quem confessa um pecado, soltou:

— Pra piorar, perdi minha cueca da sorte aqui faz um mês. Sou flamenguista. Tinha uma cueca vermelha que eu só usava no dia de clássico. Sumiu na secadora. Sem ela, o Mengão perdeu o último jogo. 

Eu, são-paulino desde o berço, congelei. A mão, que instintivamente tinha ido ao bolso, parou no meio do caminho. O tecido vermelho pareceu queimar meus dedos. 

Olhei para o rapaz. Ele tinha um olhar triste, de quem acreditava que o time dependia daquela peça íntima. Pensei no meu Tricolor lutando no campeonato e nas minhas próprias mandingas de torcedor. Pensei no Flamengo. Pensei na cueca vermelha, limpinha, amaciada com lavanda, refém no meu bolso esquerdo.

Fiz o que qualquer homem ético e apaixonado por futebol faria naquela situação.

Fiquei em absoluto silêncio.

— Puxa, cara… que chato — lamentei, com a voz embargada por uma solidariedade falsa. — A máquina sempre come alguma coisa — consolei.

Ele assentiu, resignado. Recolheu suas roupas e saiu com sua sacola, levando consigo a esperança do seu time. E eu fiquei ali, com a cueca no bolso. Já sozinho, a depositei no balcão, olhando para os lados, e resolvi escrever um bilhete de improviso.

— Pertence a um flamenguista. Favor respeitar. Ele voltará.

Voltei para o apartamento satisfeito. Tirei as roupas da sacola, dobrei com cuidado e guardei. Para minha surpresa, e revolta, agora havia uma meia. Apenas o pé direito, daquelas estampadas com capivaras usando óculos escuros.

— “Não é possível”, pensei. 

Levantei a meia contra a luz para observar melhor a capivara com seus óculos de lacração tug life. Se o Flamengo perdeu o jogo por causa da cueca, o que será que estava em jogo com aquela meia de capivara? Pelo sim, pelo não, passei a calçar a meia para ver os jogos do São Paulo. Passado um tempo, a conclusão: se o universo estava tentando me dar uma vantagem, definitivamente não funcionou.

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