Dimensão da votação nos partidos árabes incendeia cena política em Israel
A dimensão da votação nos dois partidos israelitas árabes (Ra’am e Lista Conjunta), que em conjunto alcançaram 19 lugares (mais nove que os que detinham anteriormente), está a deixar a cena política do país num caos ainda mais acentuado que o que já vivia antes das eleições, que decorreram esta terça-feira, 27 de outubro. Completamente apanhados de surpresa – nenhuma sondagem indicava essa possibilidade – os partidos hebraicos estão a tentar encontrar uma resposta.
Por duas vias: o Likud, do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, acusa autoridades estrangeiras (nomeadamente oriundas do Qatar, onde o xiismo tem uma força determinante) de terem interferido de forma fraudulenta na votação; o conjunto de partidos que se lhe opõem (liderados pelo general Gadi Eisenkot), divide-se entre os que são sensíveis ao argumento da fraude e os que preferem aceitar que, em Israel, a comunidade árabe está lá desde sempre e algum dia a sua dimensão (que será de 20% do total) terá de ser reconhecida.
O próprio Gadi Eisenkof está numa posição muito delicada: tem mantido uma postura cautelosa, ou mais propriamente silenciosa, uma vez, ao longo da campanha eleitoral, nunca admitiu qualquer entendimento com os partidos árabes; mas, depois de contados os votos, chegou à evidência de que precisa do seu concurso (no governo ou mais provavelmente num entendimento parlamentar) para defenestrar Benjamin Netanyahu.
A reação árabe
O presidente do partido Balad (que, juntamente com o Hadash e o Ta’al, forma a Lista Conjunta, que conseguiu 12 lugares no novo Knesset), Sami Abou Shehadeh, acusa Netanyahu e seus aliados de prepararem o terreno para rejeitarem os resultados das eleições por via de alegações infundadas. “Netanyahu e seus parceiros são pessoas perigosas que estão a construir uma narrativa para justificar a recusa em aceitar os resultados de uma das eleições mais decisivas que este país viu em décadas”, disse, citado pela imprensa israelita.
Do seu lado, o presidente Isaac Herzog disse ter conversado com o chefe do Comité Central de Eleições, Noam Sohlberg, e com o chefe do Shin Bet (a ‘secreta’ interna), David Zini, sobre o pedido do primeiro para investigar as alegações de interferência estrangeira na votação. Para Herzog (que é oriundo do mesmo partido que Netanyahu), a questão deve ser “investigada minuciosamente” e pediu que se evite “manchar” a imagem da comunidade árabe como um todo.
Entretanto, o presidente continua firmemente determinado a promover uma grande coligação ao centro – que pudesse envolver os dois grupos antagónicos: os ‘subsidiários de Netanyahu e os de Eisenkot. O que, na prática, envolveria todo o novo Knesset com a exceção dos partidos árabes.
Negócios entre ‘inimigos’
Aparentemente, o caminho desse entendimento já começou. Segundo a imprensa israelita, o Likud estaria disponível para oferecer a Eisenkot um acordo de rotação: Netanyahu governaria a primeira metade do mandato e Eisenkot a segunda (como aconteceu entre Naftali Bennett e Yair Lapid em 2021-22, com muito fracos resultados). Ao mesmo tempo, atribuiria ao grupo de Eisenkot alguns ministérios importantes (mas ainda não especificados).
Para os analistas, é muito improvável que o general admita sentar-se à mesa das negociações com o ainda primeiro-ministro – coisa que, aliás, disse durante a campanha que não faria. Mas, nessa altura, a pressão da dimensão dos partidos árabes não existia. De qualquer modo, é ainda mais improvável que, no caso dessa aliança ‘contra-natura’ acabar por surgir, ela pudesse ser minimamente estável.
Ora, Israel precisa de estabilidade para vencer os desafios que tem pela frente, onde as questões de segurança ganharam realce desde 7 de outubro de 2023. Um governo que esteja sempre a tentar remediar conflitos internos é tudo menos instável.
O que quer dizer, para alguns analistas, que o país corre o sério risco de ter de repetir eleições – coisa que Herzog está determinado em evitar. Mas esse pode ser o maior de todos os riscos: é que os árabes aperceberam-se finalmente que o seu peso em Israel pode ser determinante para o futuro do Estado hebraico, e que esse peso tem evidência prática com a participação nas eleições. Ou seja: há um novo incentivo para uma diminuição ainda mais drástica da abstenção entre os árabes – que é tradicionalmente muito alta, salvo no caso da última terça-feira.
Quem tem muito em que pensar é o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir: as suas iniciativas inconcebivelmente racistas levadas a cabo nos últimos anos serviram como combustível para acender a vontade dos árabes israelitas de comparecerem em força nas eleições.