Helena Rêgo: “A literacia financeira continua a ser um desafio significativo”
A diretora da Academia CASA da APS, Helena Rêgo, diz em entrevista, que ainda há um longo caminho a percorrer na literacia financeira em Portugal e na avaliação de risco. Ferramentas cuja falta condiciona tudo o resto.
Portugal continua a enfrentar dificuldades na criação de hábitos de poupança. É um problema cultural, de falta de literacia ou de rendimento?
Todas essas dimensões contam, mas temos de começar por reconhecer que a capacidade de poupar depende do rendimento disponível. Para uma família que utiliza praticamente todo o rendimento em habitação, alimentação e outras despesas essenciais, a margem é muito reduzida.
Por sua vez, a educação financeira pode ajudar a organizar prioridades, compreender compromissos e preparar decisões. Deve começar cedo e acompanhar as diferentes fases da vida.
A liberdade de amanhã constrói-se com a capacidade de compreender a realidade de hoje, o que nem sempre é fácil, e de antecipar riscos, fazer escolhas hoje que nos permitam poder continuar a fazer essas escolhas ao longo da vida.
Tal como os Estados precisam de intelligence para antecipar ameaças e preservar a soberania, também as pessoas precisam de compreender os riscos, interpretar sinais e preparar alternativas para proteger a sua liberdade futura.
Com a minha atual experiência na APS compreendi melhor o valor de proteger aquilo que construímos e vejo os seguros como instrumentos que nos podem ajudar a preservar a nossa liberdade de escolha e não apenas como produtos financeiros. Era importante simplificar a linguagem, ajudar a construir uma cultura de prevenção que nos prepare para as dificuldades da vida antes de nos vermos confrontados com elas, e tornar as decisões de poupança mais acessíveis e próximas da realidade de cada pessoa. Começar a poupar o mais cedo possível! A poupança dá-nos margem de escolha.
Como avalia o nível de literacia financeira dos portugueses?
A literacia financeira dos portugueses continua a ser um desafio significativo. De acordo com o inquérito OCDE/INFE de 2023, promovido em Portugal pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros — Banco de Portugal, ASF e CMVM —, Portugal ficou em 13º lugar entre 39 países, com 63 pontos em 100. O indicador reúne conhecimentos, atitudes e comportamentos financeiros. Portugal ficou em 21º lugar na componente das lacunas de conhecimento, com cerca de 48% a atingirem o objetivo dos conhecimentos básicos, face a 58% na OCDE.
O problema não é exclusivamente português. De acordo com dados da Comissão Europeia de 2023, apenas 18% dos cidadãos da UE apresentavam níveis elevados de literacia financeira. Ainda assim, estes indicadores mostram que temos um caminho importante a percorrer.
Os dados nacionais noutros estudos revelam também diferenças significativas entre grupos da população, com níveis de literacia financeira mais baixos entre os jovens, os idosos e as pessoas com menor escolaridade.
O desafio passa por adquirir e transformar o conhecimento financeiro em ferramentas práticas para o dia a dia. É importante conhecer os conceitos, mas é preciso sobretudo saber comparar produtos, avaliar riscos, compreender as consequências das nossas decisões e planear.
Os riscos financeiros podem surgir de acontecimentos de saúde, climáticos, tecnológicos ou geopolíticos. Temos de ver o conceito desta forma alargada.
Os portugueses sabem avaliar os riscos financeiros a que estão expostos?
De um modo geral, ainda temos dificuldade em avaliar os riscos financeiros a que estamos expostos. E essa dificuldade não significa necessariamente que desconheçamos os riscos, mas que nem sempre conseguimos traduzir essa perceção nas suas verdadeiras consequências.
O grande desafio está em passar da consciência do risco à capacidade de avaliar o seu impacto e agir preventivamente. Começa por incentivar cada pessoa a fazer perguntas muito simples:
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O que nos pode acontecer? É identificar os riscos reais da nossa situação pessoal e familiar, seja ao nível da saúde, de um acidente, de uma situação de incapacidade, da morte ou da própria habitação.
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Qual o impacto financeiro? Porque há uma diferença entre um imprevisto que representa um incómodo e uma situação que pode comprometer seriamente o orçamento familiar, os rendimentos ou até a estabilidade financeira de uma família.
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Tenho capacidade para suportar esse risco? Se acontecer alguma coisa, tenho poupanças suficientes para responder? Durante quanto tempo consigo suportar as minhas despesas se perder os meus rendimentos? E, se não tiver capacidade para absorver esse impacto, que soluções de proteção devo considerar?
É precisamente aqui que a literacia financeira e a proteção através dos seguros assumem um papel fundamental. Não conseguimos prever tudo o que vai acontecer, mas podemos preparar-nos financeiramente para diferentes cenários.
A APS defende que a literacia do risco deve fazer parte da literacia financeira. O que significa, concretamente?
A literacia do risco é uma dimensão estratégica, que permite antecipar e gerir os inúmeros riscos pessoais, sociais, da natureza, tecnológicos, económicos e geopolíticos que atravessam todas as esferas da vida humana. Neste contexto, a APS reconfigurou o seu Programa de Educação Financeira, iniciado em 2012, evoluindo para uma abordagem mais ampla: o Programa de Literacia do Risco.
Dentro desta missão, promove um conjunto diversificado de ações e iniciativas que visam realçar o papel do seguro na sociedade, tornando acessíveis os seus conceitos-chave e os mecanismos de proteção e mutualização a todos — crianças, jovens, adultos e seniores.
O aumento da esperança de vida coloca novos desafios à poupança. Estamos suficientemente conscientes?
Em Portugal, a esperança de vida à nascença atingiu os 82,7 anos em 2024. Vivemos mais anos, o que é uma excelente notícia, mas isso coloca-nos um desafio financeiro incontornável: como vamos financiar um tempo de reforma potencialmente mais longo?
Os estudos confirmam que não estamos suficientemente conscientes. Continuamos, de alguma forma, a olhar para a reforma como uma fase da vida em que teremos um rendimento garantido, mas estamos menos preparados para perceber quanto tempo essa fase pode durar e como a vamos financiar.
Os números devem levar-nos a refletir. A taxa de substituição das pensões públicas poderá sofrer uma redução significativa nas próximas décadas. As projeções da Comissão Europeia apontam para uma taxa de substituição de 38,5% em 2050.
Isto significa que a pensão pública não será suficiente para manter o nível de vida a que estamos habituados durante a vida ativa. Podemos continuar a trabalhar se tivermos saúde, mas o ideal seria ter soluções de poupança de longo prazo, como os PPR, ou mecanismos de adesão automática à poupança para a reforma (auto-enrolment), entre outras iniciativas que incentivem a constituição de uma reserva complementar.