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Azeite a ferver. Consumo cai 30% e Tunísia preocupa setor

30 October 2026 at 07:35

Apanhar a azeitona pode deixar de compensar. Para alguns olivicultores portugueses, sobretudo os que trabalham em explorações tradicionais, a conta começa a ser difícil de fazer: o preço de venda desce, os custos acumulam-se e a receita da colheita poderá não chegar para pagar a mão de obra e as máquinas. Num setor que atravessou dois anos de preços elevados, a descida trouxe algum alívio aos consumidores, mas criou uma dor de cabeça a quem produz.

“Estamos neste momento a produzir mais caro e a vender mais barato”, resume Francisco Pavão, vice-presidente da CAP, que alerta para o aumento dos custos e a perda de competitividade da produção nacional e europeia. O responsável não exclui que a pressão sobre os preços possa levar alguns agricultores a deixar a azeitona por colher, numa altura em que se espera uma campanha produtiva, cerca de 195 mil toneladas por hectare (ha) e “até há data ainda há muita azeitona por apanhar”, afiança.
O problema não afeta todas as explorações da mesma forma. Os olivais mais mecanizados conseguem, em princípio, resistir melhor à descida dos preços. Já os tradicionais, com menor produtividade e maior dependência de trabalho manual, estão mais expostos. “De salientar que 75% da área do país é composto por olival tradicional”, diz, acrescentando que um olival tradicional produz 300 litros de azeite por hectare, enquanto o olival em sebe produz dois mil.

Custos aumentam 50%
Francisco Pavão estima que os encargos com combustíveis, energia, fertilizantes e outros fatores de produção tenham aumentado este ano entre 40% e 50%. A indústria enfrenta também custos acrescidos com materiais como o vidro e o plástico.

Em alguns olivais tradicionais, os custos de produção poderão situar-se entre quatro e cinco euros por quilo de azeite. Em explorações de encosta e patamares, como as existentes no Douro e no Tejo, o olivicultor aponta para valores que podem rondar entre os oito e os 12 euros, comparativamente a um preço de mercado que situa entre 3,40 e 3,50 euros. Os valores variam consoante o sistema de produção e as condições de cada exploração, mas ilustram a dificuldade de rentabilizar a colheita.
Quando a receita não cobre os encargos, colher pode significar aumentar o prejuízo. “Se estivermos a gastar mais dinheiro do que aquele que recolhemos, às vezes mais vale parar ou suster a atividade durante um ano ou dois”, diz Fernando Rosário, presidente do Conselho de Administração da Cooperativa Agrícola de Beja e Brinches.

A decisão, contudo, pode ter consequências duradouras, explica ainda Rosário, isto porque o olival é uma cultura plurianual e o abandono prolongado pode comprometer a recuperação das árvores e a capacidade de produção nos anos seguintes. O risco é particularmente relevante para as explorações tradicionais,

Tunísia divide o setor
A concorrência tunisina é outro dos focos de tensão. Ao abrigo do acordo de associação entre a União Europeia e a Tunísia, existe um contingente de 57 mil toneladas de azeite que pode entrar no mercado europeu sem direitos aduaneiros. Entre novembro de 2025 e junho de 2026, o país exportou 352 mil toneladas de azeite para a Europa. Um aumento de 56,7% em comparação com período homólogo, segundo dados do Observatório Nacional Agropecuário (ONAGRI).

Francisco Pavão, considera que esta situação penaliza os produtores europeus, sujeitos a custos e exigências ambientais, laborais e fitossanitárias mais elevados. Regras que esses países não têm de cumprir, seja a nível sanitário, ou nas condições dadas aos trabalhadores“Estamos a importar produtos abaixo do custo de produção na Europa, portanto, tem um impacto negativo sobre a produção”, afirma, defendendo a criação de cláusulas de salvaguarda que permitam limitar as importações quando estas provoquem desequilíbrios no mercado.

Fernando Rosário também considera pouco sensato reforçar as importações quando existe dificuldade em escoar a produção europeia. A entrada de azeite tunisino pode, na sua perspetiva, ocupar espaço comercial que seria destinado ao produto comunitário. Mas a Tunísia não reúne consenso enquanto explicação principal para a descida dos preços. Mariana Matos, secretária-geral da Casa do Azeite, diz que o mercado está sobretudo condicionado por dois fatores: o consumo ainda não recuperou totalmente da quebra provocada pelos preços elevados e a expetativa de uma boa campanha aumenta a disponibilidade de produto.

A responsável recorda que, durante o período em que o azeite se aproximou dos dez euros por litro, o consumo caiu mais de 30%. A recuperação tem sido lenta, pelo que a procura continua aquém dos níveis anteriores à escalada dos preços.
Na sua leitura, atribuir a pressão atual essencialmente às importações tunisinas é ignorar o efeito conjugado da procura ainda enfraquecida e das perspetivas de maior produção.

A evolução da campanha espanhola será determinante para o mercado português. Espanha é o maior produtor mundial e qualquer alteração na sua produção tem impacto na oferta disponível e nos preços internacionais. As projeções europeias citadas nas entrevistas apontam para uma produção espanhola de cerca de 1,6 milhões de toneladas. Para Portugal, as estimativas avançadas situam-se entre 185 mil e 195 mil toneladas, podendo aproximar-se das 200 mil.

Se estas previsões se confirmarem, a combinação de uma oferta elevada com um consumo ainda por recuperar poderá prolongar a pressão sobre os preços. Pelo contrário, uma produção espanhola inferior à esperada poderá alterar o equilíbrio do mercado. No entanto, há quem afiance que o calor poderá ter afetado a azeitona espanhola, logo a produção poderá ser inferior às estimativas, e se assim for deixa mercado para o azeite nacional poder vender mais lá fora.

Porém, o problema não desaparece. Só empurra mais um ano. Por esse motivo, Francisco Pavão defende que Portugal tem de investir urgentemente em literacia alimentar. “Precisamos de voltar a criar uma cultura do azeite. Investir num programa escolar. O azeite é a única gordura que faz parte da dieta mediterranica”, defende, convicto. Já Fernando Rosário, termina, salientando que a agricultura tem de ser vista como uma atividade económica e não apenas como uma atividade familiar. Afinal, segundo dados do INE as exportações do azeite nacional em 2024 foram cerca de 1574 milhões de euros, com um saldo comercial positivo de 975 milhões de euros.

Black Friday: metade dos consumidores vai recorrer à IA, mas confiança nas marcas continua a pesar

29 October 2026 at 13:52

A Inteligência Artificial vai ganhar espaço nas compras da Black Friday, mas ainda não tem carta-branca junto dos consumidores. Mais de metade (51,1%) tenciona recorrer a estas ferramentas para encontrar oportunidades, comparar preços ou avaliar promoções, embora apenas 9,6% esteja disposto a comprar diretamente com base numa recomendação da tecnologia.

Os dados são de um inquérito do Portal da Queixa, realizado junto de 652 consumidores, que mostra que a confiança continua a ser determinante na decisão de compra. Segundo o estudo, 68,1% dos inquiridos preferem confirmar a informação noutras fontes ou pesquisar a reputação da marca ou da loja antes de avançar.

A reputação é, aliás, mais importante do que o preço na avaliação das recomendações feitas pela IA: é um fator decisivo para 54,1% dos potenciais utilizadores destas ferramentas, enquanto 45,6% destacam a comparação de preços. Além disso, 65,8% procurariam mais informação ou optariam por uma loja com melhor reputação, mesmo que isso significasse pagar mais.

Os receios em torno das promoções ajudam a explicar esta cautela. Os falsos descontos, criados através do aumento artificial dos preços antes da campanha, são a principal preocupação de 38,8% dos consumidores. Seguem-se as lojas e os sites fraudulentos, referidos por 29,4%.

Entre os consumidores que pretendem utilizar Inteligência Artificial, 49,8% querem comparar preços e 41,4% esperam usar a tecnologia para verificar se as promoções representam uma poupança real.

Apesar da crescente utilização de ferramentas digitais, o preço final continua a ser o principal critério de compra, apontado por 48,6% dos inquiridos. A confiança e a reputação da marca ou da loja surgem em segundo lugar, com 21,3%.

No que diz respeito às categorias de produtos, a tecnologia lidera as intenções de compra, com 39,1%, seguida da moda, com 35,1%. Entre os consumidores que já definiram um orçamento para a Black Friday, a despesa média prevista ronda os 255 euros.

Para Pedro Lourenço, fundador do Portal da Queixa by Consumers Trust, os resultados mostram que a IA está a mudar a forma como os consumidores pesquisam e comparam oportunidades, mas não substitui a confiança nas marcas.

Numa campanha marcada pela pressão promocional, a transparência, a credibilidade e o histórico de relacionamento com os consumidores continuam, assim, a ter um peso relevante. A tecnologia pode ajudar a encontrar uma boa oferta, mas a decisão final continua a depender da capacidade de distinguir uma verdadeira oportunidade de um desconto que só parece vantajoso.

Peso dos impostos sobre carros e combustíveis caiu para menos de metade em 20 anos

28 October 2026 at 00:01

Durante muitos anos, os automóveis e os combustíveis constituíram uma das bases mais sólidas da arrecadação fiscal em Portugal. Sempre que um consumidor comprava um carro ou abastecia um depósito, uma parte significativa desse valor acabava por entrar nos cofres do Estado através do Imposto sobre Veículos (ISV) e do Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP).

Mas essa realidade está a mudar. Segundo o estudo Portugal Fiscal, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o peso conjunto da tributação automóvel e dos combustíveis caiu drasticamente nas últimas duas décadas. Em 2004, o antigo Imposto Automóvel (IA) e o ISP representavam 14% de toda a receita fiscal portuguesa. Em 2025, o peso conjunto do atual ISV e do ISP tinha descido para apenas 6,3%.

Na prática, a importância destas receitas para o Estado foi reduzida para menos de metade. Os autores identificam uma explicação clara para esta transformação: a progressiva eletrificação do parque automóvel e a redução da dependência dos combustíveis fósseis.

 

Quase metade das novas matrículas já são veículos eletrificados

Os dados apresentados no estudo mostram que a transição energética está a acelerar. Em 2025 foram matriculados em Portugal cerca de 396 mil veículos ligeiros de passageiros ou mistos. Destes, 21% eram totalmente elétricos e 26% híbridos. Isto significa que quase metade das novas matrículas corresponde já a veículos eletrificados. Trata-se de uma mudança estrutural para um sistema fiscal que durante décadas dependeu fortemente do consumo de combustíveis.

Ao contrário dos veículos convencionais, os automóveis elétricos não consomem gasolina nem gasóleo e, por isso, não geram receita através do ISP. À medida que a sua presença aumenta nas estradas portuguesas, a base tributária associada aos combustíveis tende inevitavelmente a encolher.

O ISP continua a render milhares de milhões, mas poderá enfrentar pressão crescente

Apesar desta transformação, o ISP continua a ser um dos impostos mais relevantes do sistema fiscal português. Em 2025 gerou mais de 3,7 mil milhões de euros e representou cerca de 62% de toda a receita obtida através dos Impostos Especiais de Consumo. Nenhum outro imposto especial tem um peso semelhante.

Por isso, a redução gradual do consumo de combustíveis coloca uma questão estratégica para as finanças públicas. Quanto maior for o sucesso da transição energética, menor tenderá a ser a receita proveniente do ISP. O paradoxo é evidente: uma política ambiental bem-sucedida enfraquece simultaneamente uma das fontes tradicionais de financiamento do Estado.

O peso do ISP não é igual para todos

O estudo mostra também que a carga fiscal associada aos combustíveis não afeta todos os agregados da mesma forma. A despesa com ISP, medida em percentagem do rendimento disponível, atinge o valor mais elevado entre os agregados de rendimentos intermédios.

Nas famílias mais pobres, o peso é relativamente menor, uma realidade que os autores associam à maior utilização dos transportes públicos e a uma menor dependência do automóvel privado. Este resultado contraria parcialmente a perceção comum de que os impostos sobre combustíveis recaem sobretudo sobre os agregados de menores rendimentos. Segundo o estudo, são as famílias de rendimento intermédio, mais dependentes da utilização diária do automóvel, que suportam a carga relativa mais elevada.

A grande questão para a próxima década

Para os autores, a conclusão é inevitável. O sucesso da eletrificação dos transportes está a reduzir algumas das bases tributárias que durante décadas sustentaram uma parte importante da receita pública.

O problema não é imediato. O ISP continua a gerar milhares de milhões de euros por ano e mantém-se como uma das principais fontes de receita fiscal.

Mas a tendência já é visível nos números. Em apenas duas décadas, o peso conjunto da tributação dos combustíveis e dos veículos caiu de 14% para 6,3% da receita fiscal.

A questão que se coloca agora é saber como será compensada essa perda no futuro. À medida que os veículos elétricos substituem os modelos de combustão interna e o consumo de combustíveis fósseis diminui, o Estado português terá de encontrar novas formas de financiamento para substituir uma receita que durante décadas foi considerada praticamente garantida.

Quase metade dos portugueses não paga IRS

28 October 2026 at 00:01

O Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Singulares continua a ser o imposto politicamente mais relevante do sistema fiscal português. Não é o que mais receita gera para os cofres do Estado, mas é aquele onde se cruzam os debates sobre justiça fiscal, redistribuição de riqueza, apoio às famílias e retenção de talento. No estudo Portugal Fiscal, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, os economistas e fiscalistas Sérgio Vasques, Susana Peralta e José Pedro Sousa traçam um retrato detalhado do IRS e concluem que este continua a ser o principal espelho das fragilidades económicas do país.

Em 2024 existiam 6,2 milhões de agregados sujeitos a IRS. Destes, 45% não tinham imposto liquidado, o que significa que cerca de 2,7 milhões de agregados não pagaram qualquer IRS. Para os autores, este é um dos dados mais importantes para compreender o sistema fiscal português. A razão é simples: uma parte muito significativa da população vive com rendimentos demasiado baixos para suportar uma tributação relevante.

Os dados analisados mostram que metade dos agregados fiscais portugueses declarou rendimentos anuais até 15.435 euros em 2024, o equivalente a cerca de 1.102 euros mensais considerando os 14 meses habitualmente pagos em Portugal. A fotografia torna-se ainda mais expressiva quando se observa a distribuição dos rendimentos mais elevados. Para integrar os 10% dos agregados com maiores rendimentos bastava declarar cerca de 49 mil euros por ano. Para entrar no grupo dos 1% mais ricos era necessário declarar aproximadamente 121 mil euros anuais. Já o acesso ao grupo dos 0,1% mais ricos exigia rendimentos próximos dos 490 mil euros anuais.

Os autores consideram que estes números mostram uma economia marcadamente concentrada em rendimentos baixos, alertando para o facto de uma parte significativa da população possuir uma capacidade de resposta muito limitada perante situações como desemprego, subida dos preços dos bens essenciais ou dificuldades de acesso à habitação.

Onde se concentra a receita fiscal?

Esta realidade ajuda também a explicar a enorme concentração da receita fiscal. Segundo o estudo, 83% dos agregados fiscais geram menos de um quarto da receita total de IRS. Em sentido inverso, os agregados que declaram mais de 50 mil euros anuais representam apenas 7,6% do total, mas suportam 56% de toda a receita arrecadada através do imposto.

O resultado é um sistema fortemente progressivo. Em teoria, os contribuintes com rendimentos mais elevados suportam uma parcela desproporcionadamente maior da carga fiscal. Contudo, os autores introduzem uma ressalva importante. A progressividade observada nas estatísticas poderá estar parcialmente sobrestimada porque muitos rendimentos de capital são tributados através de taxas liberatórias e não aparecem integralmente refletidos nos dados das declarações fiscais. Isso significa que a verdadeira concentração da riqueza nos escalões superiores poderá ser superior àquela que os números do IRS deixam transparecer.

A própria estrutura do imposto ajuda a explicar esta diferença. Os rendimentos do trabalho e das pensões são sujeitos a escalões progressivos que, em 2026, atingem uma taxa máxima de 48%. Com a taxa adicional de solidariedade, a tributação marginal pode chegar a 53%. Já grande parte dos rendimentos de capital, como juros, dividendos ou determinadas mais-valias, continua sujeita a uma taxa fixa de 28%.

O estudo recorda que Portugal segue desde a criação do imposto o modelo conhecido como dual income tax, que tributa o trabalho através de taxas progressivas enquanto aplica uma tributação proporcional aos rendimentos passivos de capital. Esta diferença está no centro de boa parte do debate contemporâneo sobre equidade fiscal.

Outra conclusão relevante é que a taxa adicional de solidariedade tem um impacto financeiro relativamente reduzido apesar da projeção política que costuma receber. Em 2024, apenas 39.228 agregados estavam abrangidos por esta sobretaxa, o equivalente a 0,6% dos contribuintes. Entre estes, somente 2.373 declaravam rendimentos superiores a 250 mil euros por ano. No total, a receita gerada foi de 87 milhões de euros, cerca de 0,5% da receita total do IRS.

Os autores chamam ainda a atenção para outro fenómeno: os limites da taxa adicional nunca foram atualizados pela inflação desde a sua introdução. Como consequência, o número de contribuintes abrangidos aumentou significativamente ao longo da última década.

A progressividade do IRS pode ser menor do que os números sugerem

O estudo sublinha que o IRS português é um imposto fortemente progressivo, mas deixa um alerta importante sobre a forma como essa progressividade é normalmente medida. Segundo os autores, os dados das declarações de IRS não captam totalmente a riqueza existente nos escalões superiores, uma vez que uma parte dos rendimentos de capital é tributada através de taxas liberatórias e não surge refletida nas estatísticas utilizadas para analisar a distribuição dos rendimentos.

Os autores referem que,”o IRS é um imposto marcado por uma forte progressividade, ainda que esta esteja sobrestimada pelo facto de os rendimentos de capitais sujeitos a taxa liberatória não serem registados nas declarações, resultando na subavaliação da riqueza na parte superior da distribuição”.

Esta observação é relevante porque na prática, significa que a distância real entre os rendimentos médios e os rendimentos do topo poderá ser superior àquela que os dados das declarações permitem observar. Parte da riqueza financeira dos contribuintes mais ricos permanece parcialmente invisível nas estatísticas do IRS, o que tende a atenuar artificialmente o grau de concentração da riqueza nos escalões superiores.

As deduções fiscais beneficiam mais os agregados de maiores rendimentos

Outra das conclusões do estudo diz respeito à utilização das deduções fiscais em saúde e educação. A análise dos microdados mostra que o valor destas deduções aumenta à medida que sobe o rendimento dos agregados familiares.

Os autores observam que”o valor das deduções com saúde e educação aumenta com o rendimento dos agregados”, sendo particularmente visível o crescimento das deduções associadas à educação nos percentis mais elevados da distribuição de rendimentos.

A explicação apresentada combina dois fatores. Por um lado, as famílias com rendimentos mais elevados tendem a gastar mais em educação e saúde. Por outro, demonstram maior capacidade para navegar o sistema fiscal e aproveitar os benefícios existentes. Como concluem os autores,”este resultado reflete o consumo superior das famílias com mais rendimentos e sugere que estas famílias têm maior literacia fiscal, tirando maior partido das deduções disponíveis”.

A conclusão é particularmente relevante para o debate sobre a justiça fiscal. Embora estas deduções tenham sido concebidas para compensar despesas consideradas essenciais, os dados sugerem que são os agregados com rendimentos mais elevados que conseguem retirar delas um benefício mais significativo, devido simultaneamente à sua capacidade de consumo e ao melhor conhecimento das regras fiscais.

 

Papel do IRS Jovem

Mas talvez a maior transformação recente do IRS tenha ocorrido através do IRS Jovem. Inicialmente criado em 2020 com um âmbito relativamente limitado, o regime foi sucessivamente alargado até abranger contribuintes com idade até aos 35 anos, durante um período máximo de dez anos. Em 2025, a medida prevê uma isenção gradual que começa em 100% do imposto e vai sendo reduzida ao longo do tempo.

O crescimento desta política pública é visível nas contas do Estado. Em apenas quatro anos, a despesa fiscal associada ao IRS Jovem passou de 13 milhões de euros para 734 milhões de euros. Trata-se hoje de um dos maiores benefícios fiscais individuais existentes em Portugal.

A aposta nos jovens surge associada aos próprios rendimentos desta faixa etária. Segundo o estudo, metade dos agregados com menos de 35 anos aufere rendimentos brutos anuais até 12 mil euros, significativamente abaixo dos 15.435 euros observados para a população em geral. Embora a distribuição dos rendimentos seja semelhante à do conjunto dos contribuintes, os jovens encontram-se sistematicamente deslocados para níveis salariais inferiores.

O retrato aponta ainda o IRS Jovem português como um mecanismo pouco comum no plano internacional, identificando mecanismos semelhantes apenas na Croácia (até aos 30 anos e relativo ao primeiro escalão de rendimentos) e na Polónia (até aos 26 anos e com limite absoluto de 20 mil euros), embora mais limitados. Os dados mostram que a distribuição do rendimento dos jovens em Portugal é semelhante à da generalidade dos contribuintes. Para fazer parte dos 10% dos agregados mais ricos, um jovem teria de auferir 32 mil euros anuais, menos cerca de 16.600 euros do que seria necessário para a generalidade dos contribuintes.

 

 

Por fim, os autores lembram que a verdadeira carga fiscal sobre o trabalho vai muito além dos escalões do IRS. Utilizando o conceito de tax wedge, que soma o IRS e as contribuições sociais pagas por trabalhadores e empregadores, concluem que um trabalhador solteiro sem filhos, a receber a remuneração média portuguesa, entrega ao Estado o equivalente a 39,3% do custo total do seu trabalho. Para rendimentos mais elevados, essa percentagem ultrapassa os 45%.

A conclusão do estudo é clara. O IRS continua a ser o principal instrumento redistributivo do sistema fiscal português, mas opera num país onde os rendimentos permanecem relativamente baixos. Quase metade dos agregados não paga imposto, uma minoria suporta mais de metade da receita e os jovens tornaram-se o principal alvo das novas políticas fiscais. Mais do que um retrato sobre impostos, o capítulo dedicado ao IRS é um retrato sobre os salários, as desigualdades e as limitações estruturais da economia portuguesa.

 

IVA, o imposto que sustenta o Estado. Representa mais de 40% da receita fiscal

28 October 2026 at 00:01

Quando se fala de impostos, a atenção pública concentra-se habitualmente no IRS. Mas é o IVA que continua a sustentar uma parte substancial das receitas públicas. Segundo o estudo Portugal Fiscal, coordenado por Sérgio Vasques e publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o Imposto sobre o Valor Acrescentado gerou em 2025 mais de 26 mil milhões de euros, representando mais de 40% de toda a receita fiscal do Estado, excluindo as contribuições para a Segurança Social.

Os autores são taxativos: “o IVA constitui, desde a sua introdução, o imposto mais relevante para os cofres do Estado”.

A importância do imposto é ainda mais evidente quando comparada com outras fontes de receita. Em 2025, o IRS representava cerca de 28% da receita fiscal e o IRC cerca de 15%, muito abaixo do peso do IVA. Para os autores, esta realidade ajuda a compreender uma característica estrutural do sistema fiscal português: a forte dependência da tributação indireta, ou seja, dos impostos cobrados quando os cidadãos consomem bens e serviços.

O estudo mostra ainda que o IVA domina claramente a tributação indireta. Em 2025, representava 73% de toda a receita proveniente dos impostos indiretos, enquanto os Impostos Especiais de Consumo correspondiam a 17% e os restantes impostos indiretos a apenas 10%. A centralidade do IVA nas contas públicas portuguesas não encontra paralelo em nenhum outro imposto individual analisado pelos autores.

Portugal continua mais dependente dos impostos sobre o consumo

A composição da receita fiscal portuguesa distingue-se de muitos países europeus. Segundo dados do Eurostat citados no estudo, em 2024 os impostos sobre o consumo representavam 39% da receita tributária, enquanto os impostos sobre rendimento e património representavam 27,5% e as contribuições para a Segurança Social 33,5%.

Na prática, isto significa que uma parte importante das receitas públicas é arrecadada sempre que os consumidores fazem compras, pagam refeições, abastecem os veículos ou contratam serviços.

Onde os portugueses gastam o dinheiro

Para compreender a incidência do IVA, os autores recorreram aos dados da SIBS relativos aos pagamentos efetuados com cartão bancário. Em 2024, quase 30% da despesa registada ocorreu em grandes superfícies alimentares, tornando este o principal destino dos gastos dos consumidores. A restauração representou cerca de 12% da despesa total, seguida por matérias-primas, moda, saúde, cultura e combustíveis.

Os dados mostram que a receita do IVA depende fortemente do consumo quotidiano das famílias, especialmente da alimentação, do comércio e da restauração.

O retrato do consumo permite também perceber até que ponto parte da receita do IVA é suportada por não residentes. Em 2024, 11% da despesa realizada em Portugal foi efetuada com cartões emitidos no estrangeiro, enquanto 89% correspondeu a cartões nacionais. França, Reino Unido e Estados Unidos representavam, em conjunto, 44% de toda a despesa realizada através de cartões estrangeiros.

A influência dos consumidores estrangeiros torna-se particularmente visível em alguns setores. No alojamento, mais de 80% da despesa foi realizada com cartões emitidos fora de Portugal. No setor imobiliário, os cartões estrangeiros representavam 37% da despesa total, enquanto na restauração correspondiam a 26%. Os autores consideram estes números ilustrativos do peso crescente do turismo e do investimento internacional no consumo realizado em território nacional.

As três taxas do IVA e a tentativa de corrigir desigualdades

O estudo recorda que o IVA é geralmente considerado um imposto regressivo, porque os agregados com menores rendimentos tendem a gastar uma parcela maior do seu orçamento em consumo. Para mitigar esse efeito, Portugal utiliza três taxas distintas.

A taxa reduzida de 6% aplica-se a bens e serviços considerados essenciais, como muitos produtos alimentares ou medicamentos. A taxa intermédia de 13% abrange um conjunto mais restrito de bens e serviços, como grande parte da restauração. A taxa normal de 23% aplica-se à generalidade do consumo.

Segundo a Fundação Francisco Manuel dos Santos, este sistema cumpre parcialmente o objetivo para que foi concebido. Em 2022, a poupança proporcionada pelas taxas reduzidas e pelas isenções de IVA representava cerca de 1,5% do rendimento dos agregados mais pobres, mas apenas cerca de 0,5% do rendimento dos agregados mais ricos.

Os autores concluem assim que a estrutura atual das taxas reduzidas contribui para diminuir a regressividade do imposto, beneficiando proporcionalmente mais os agregados de menores rendimentos.

Esta é uma das conclusões centrais do capítulo. Embora o IVA seja um imposto regressivo por natureza, as taxas reduzidas e as isenções ajudam a compensar parcialmente esse efeito, reduzindo a carga fiscal relativa suportada pelos agregados com menores recursos.

O IVA Zero teve impacto, mas limitado

O estudo analisa igualmente a aplicação temporária da chamada medida do IVA Zero, que durante nove meses de 2023 eliminou o imposto sobre um conjunto de 46 produtos alimentares.

A avaliação dos autores é cautelosa. Segundo o relatório, a medida “melhorou — ainda que marginalmente e com significativo custo fiscal — os índices de progressividade do IVA”.

Ou seja, os agregados com menores rendimentos beneficiaram relativamente mais da medida, mas o ganho distributivo foi reduzido quando comparado com a perda de receita para o Estado.

Portugal abdica de mais de metade da receita potencial do IVA

Um dos dados mais impressionantes do estudo surge na comparação internacional. Segundo a Comissão Europeia, citada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, Portugal sacrifica 51,4% da receita potencial de IVA devido à existência de taxas reduzidas e isenções. Trata-se do sétimo valor mais elevado da União Europeia.

Os autores detalham que 14,2% da receita potencial é perdida devido às taxas reduzidas e 37,2% resulta das várias isenções existentes.

Apesar disso, sublinham que nem toda esta receita seria necessariamente recuperável, uma vez que muitas isenções decorrem diretamente da legislação europeia.

O relatório acrescenta que Portugal apresenta o sétimo VAT policy gap mais elevado da União Europeia. Isto significa que o país está entre os Estados-membros que mais recorrem a taxas reduzidas e isenções para aliviar a tributação do consumo.

Um dos melhores desempenhos da Europa no combate à fraude

Se há uma área onde Portugal surge particularmente bem posicionado, é no combate à evasão fiscal relacionada com o IVA.

Segundo o relatório VAT Gap Report 2025, citado pelos autores, o chamado VAT compliance gap português situava-se em apenas 3,6% da receita potencial em 2023, muito abaixo da média europeia de 9,5%.

O estudo destaca que este é o quarto melhor resultado da União Europeia, constituindo uma das maiores histórias de sucesso da administração tributária portuguesa.

Esta conclusão é especialmente relevante porque mostra que a receita que Portugal deixa de arrecadar não resulta sobretudo da fraude fiscal, mas das próprias opções legislativas que mantêm taxas reduzidas e isenções.

Segundo os autores, o resultado está associado ao reforço dos mecanismos de controlo, à digitalização da administração tributária e à crescente utilização de ferramentas eletrónicas de reporte e fiscalização.

O ISP continua a ser um dos pilares da receita fiscal

A tributação do consumo não se esgota no IVA. Os Impostos Especiais de Consumo continuam a representar uma importante fonte de receita para o Estado.

Em 2025, estes impostos geraram cerca de seis mil milhões de euros, o equivalente a aproximadamente 9% de toda a receita fiscal, excluindo a Segurança Social. Entre eles destaca-se claramente o Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), que sozinho gerou mais de 3,7 mil milhões de euros.

Os números revelam igualmente a enorme dependência dos impostos especiais de consumo em relação aos combustíveis. Dos cerca de seis mil milhões de euros arrecadados através destes impostos em 2025, mais de 3,7 mil milhões tiveram origem no ISP. Em outras palavras, cerca de 62% da receita dos Impostos Especiais de Consumo continua a depender diretamente dos produtos petrolíferos e energéticos.

Apesar das alterações nos preços dos combustíveis e do debate recorrente sobre a fiscalidade energética, o ISP continua a ser um dos impostos mais relevantes do sistema fiscal português.

O imposto sobre o imposto

O estudo chama ainda a atenção para uma característica pouco conhecida da tributação dos combustíveis. Nos combustíveis, o IVA não incide apenas sobre o preço do produto. O IVA é calculado sobre o valor final que já incorpora o ISP, criando um efeito de tributação em cascata. Na prática, parte do IVA cobrado aos consumidores é calculada sobre outro imposto já anteriormente aplicado.

Os impostos do pecado e quem os paga

Os autores analisam também a distribuição social dos chamados “impostos do pecado”, designadamente os impostos sobre tabaco, bebidas alcoólicas e combustíveis. Os dados mostram que a despesa com tabaco e bebidas alcoólicas representa uma parcela proporcionalmente maior do rendimento das famílias mais pobres, confirmando o carácter regressivo destes impostos.

Já no caso dos combustíveis, a situação é diferente. A despesa atinge o seu peso máximo entre os agregados de rendimentos intermédios, sugerindo que as famílias mais pobres recorrem mais frequentemente aos transportes públicos, enquanto os agregados de rendimento médio dependem mais do automóvel.

O desafio dos veículos elétricos

A componente automóvel constitui outro dos temas centrais do capítulo dedicado ao consumo. O Imposto Sobre Veículos (ISV), calculado com base na cilindrada e nas emissões de dióxido de carbono, foi concebido para incentivar escolhas menos poluentes.

Segundo o estudo, em 2025 foram matriculados em Portugal 395.671 veículos ligeiros de passageiros ou mistos. Destes, 81.360 eram totalmente elétricos, correspondendo a 21% do total, enquanto 102.560 eram híbridos, o equivalente a 26%.

Somados, os veículos totalmente elétricos e os híbridos representavam já 47% de todas as novas matrículas registadas em 2025.

Para os autores, esta rápida transformação do parque automóvel representa simultaneamente um sucesso ambiental e um desafio financeiro. À medida que diminui o consumo de combustíveis fósseis, diminui também uma importante fonte de receita fiscal.

O peso do ISV e do ISP está a diminuir

A eletrificação crescente dos automóveis já se faz sentir nas receitas públicas. Em 2004, o antigo Imposto Automóvel e o ISP representavam 14% de toda a receita fiscal portuguesa. Em 2025, o peso conjunto do ISV e do ISP caiu para apenas 6,3% da receita fiscal.

A comparação permite medir a dimensão da mudança em curso. Em apenas duas décadas, o peso conjunto da tributação automóvel e dos combustíveis na receita fiscal portuguesa foi reduzido em mais de metade.

O próprio ISV ilustra esta tendência. Em 2004 gerava mais de mil milhões de euros e tinha um peso muito superior na arrecadação fiscal. Duas décadas depois, a sua importância relativa diminuiu significativamente.

Para os autores, esta evolução coloca uma questão inevitável: como compensará o Estado a perda futura de receitas associadas aos combustíveis fósseis e aos veículos de combustão?

O sucesso da transição energética está a reduzir precisamente algumas das bases tributárias que durante décadas financiaram uma parte substancial das contas públicas.

A principal conclusão do capítulo dedicado ao consumo é que o IVA continua a ser o verdadeiro pilar do sistema fiscal português. O imposto gera mais receita do que qualquer outro tributo, continua a financiar uma parcela substancial das despesas públicas e apresenta níveis de incumprimento muito reduzidos quando comparado com a média europeia.

Mas o estudo deixa também vários alertas. Portugal continua muito dependente dos impostos sobre o consumo, abdica de uma parte significativa da receita potencial através de isenções e taxas reduzidas e enfrenta uma transformação estrutural provocada pela eletrificação dos transportes.

O ISP e o ISV continuam a gerar milhares de milhões de euros, mas o seu peso tem vindo a diminuir. À medida que o parque automóvel se afasta dos combustíveis fósseis, uma das questões centrais das próximas décadas será encontrar novas formas de financiamento para substituir receitas que durante muito tempo foram consideradas garantidas.

. Fonte desta infografia: O retrato do país que paga impostos: novo estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos.

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