O amigo do cidadão marroquino que morreu em 2024, em Olhão, disse em tribunal não se lembrar das agressões alegadamente cometidas por dois agentes da PSP que estão a ser julgados por homicídio qualificado.
Os agentes da PSP Jorge Sousa e Pedro Barbosa estão acusados pelo Ministério Público de agressões que resultaram na morte de Aissa Ait Aissa, após este ter estado internado na Unidade de Cuidados Intensivos do Hospital de Faro durante 20 dias.
Os arguidos, que se encontram suspensos de funções, estão acusados de dois crimes de sequestro agravado e um crime de homicídio qualificado, cujos factos remontam a março de 2024. O Ministério Público considerou que os agentes “abusaram gravemente” da sua autoridade, mas os agentes negaram responsabilidade na morte do homem.
O amigo do falecido, Hassain Ait Rahou, de 27 anos, foi ouvido no Tribunal de Faro, sendo que durante a audição, recorrendo a tradutor, a segunda vítima afirmou que no dia dos factos estava “drogado”, tal como Aissa Ait Aissa, por terem consumido comprimidos de Rivotril.
Contou que, após terem saído de casa, foram a um supermercado, onde Aissa “escondeu” alguns produtos na sua roupa, o que levou as funcionárias a chamar a polícia. Recordou-se de ter sido “levado com força” para o carro patrulha, onde ele e a vítima mortal foram algemados “por detrás das costas”.
O homem disse que passou o trajeto a “dormir acordado”, que “não estava com a cabeça no sítio”, e que a sua última memória do amigo é de este ter pedido “para alargar as algemas que estavam apertadas”.
Questionado pelo advogado dos pais de Aissa Ait Aissa, se teria memória de os agentes da PSP os terem agredido, referiu não se lembrar.
Confrontado pela defesa com algumas “contradições”, reconheceu ter havido uma abordagem policial, pelos mesmos agentes, na tarde do dia da ocorrência, apesar de minutos antes ter dito que isso teria acontecido no dia anterior. Hassan Ait Rahou afirmou ainda que o agente que pediu calma aos dois amigos seria o passageiro, quando em 2024 disse ter sido o condutor da viatura.
O julgamento prossegue a 10 de novembro, às 9h15, com a audição dos pais de Aissa Ait Aissa – que se constituíram assistentes no processo e reclamam uma indemnização de cerca de 1,6 milhões de euros -, bem como das duas últimas testemunhas.