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Do pedestal da nobreza à realidade quotidiana | Por José Figueiredo Santos

28 October 2026 at 18:51

Há instituições que atravessam séculos graças a uma fantástica flexibilidade; outras sobrevivem talvez porque todos nos esquecemos de questionar a sua utilidade. A aristocracia, numa proeza notável, consegue a façanha de pertencer a ambos os grupos. Mesmo desprovida de qualquer poder real, órfã dos seus velhos privilégios e reduzida, no fundo, à gestão nostálgica do pó dos seus antepassados, mantém uma autoestima tão inabalável que deixaria roxo de inveja qualquer organismo que sirva, de facto, para alguma coisa.

É, pois, com um interesse antropológico reservado às espécies resistentes à extinção social que aguardo a boda do infante D. Dinis, filho mais novo dos Duques de Bragança, com a condessa austríaca Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, baronesa de Trachenberg, cerimónia anunciada para Lisboa, em 16 de outubro de 2027.

O evento promete juntar, na mesma sala, relíquias que o tempo teima em não extinguir: brasões e poses herdadas, apelidos com hífen e a bela ilusão de que nascer num berço de ouro equivale a um doutoramento. O amor? Detalhe irrelevante. O que importa aqui é o pedigree; afinal, se o sentimento serve para os noivos, o registo da etnia pura, da reprodução social da casta, é o que realmente acalma o coração dos arquivistas.

Poder-lhe-ão chamar um comício de vaidades, mas é o chão onde o útero materno é celebrado como o melhor currículo do mundo.

Confesso que nunca compreendi inteiramente esta ciência da superioridade hereditária. Nasci plebeu, circunstância que não me envergonha, embora tenha exigido de mim esforços que um apelido ilustre talvez tivesse dispensado. Atravessei os corredores da instrução pública, subi, degrau a degrau, a escadaria universitária e aprendi, à minha custa, que o conhecimento não se herda, a inteligência não se transmite por escritura notarial e a competência, ao contrário dos títulos, carece de demonstração.

A aristocracia, porém, possui uma vantagem que os diplomas académicos não oferecem: dispensa a prova. Uma pessoa pode passar a vida a estudar, a trabalhar, a errar e a corrigir os seus erros sem conseguir que o mundo lhe reconheça a grandeza; outro, por um desses caprichos da biologia que a sociedade elevou à categoria de instituição vitalícia, recebe à nascença uma respeitabilidade que não precisou de conquistar. A um, exigem-lhe provas; ao outro, basta-lhe o registo de nascimento.

Não pretendo, todavia, fazer da República um altar de virtudes. Conheço o suficiente a vida pública para saber que a ausência de sangue azul não garante a pureza do sangue político. Os partidos instituíram, por vezes, as suas próprias pequenas aristocracias, com lugares reservados, sucessões preparadas com bastante cuidado e uma notável habilidade para converter a lealdade em mérito e o mérito em inconveniência. Mudaram os brasões, mas nem sempre mudou a lógica do privilégio. Onde antes havia uma linhagem, há agora uma estrutura; onde se exigia ascendência, agora pede-se obediência. A democracia, quando adormece, também produz dinastias, ainda que eletivas.

Mas voltemos à boda, que é o que nos interessa e, sobretudo, o que nos provoca bom humor.

Imagino Lisboa preparada para receber tão distinto acontecimento. Os convivas chegarão com a gravidade de quem transporta nos ombros vários séculos de História, embora não seja certo que tenham lido algum deles. Haverá vestidos escrupulosamente escolhidos, com atenção aos mínimos detalhes, cumprimentos medidos ao milímetro e conversas em que cada nome próprio será pronunciado como se a sua correta articulação pudesse alterar o destino da Europa.

O nome da noiva, Anna Schaffgotsch von und zu Kynast und Greiffenstein, baronesa de Trachenberg, não é propriamente um nome. É uma maratona ortográfica oferecida por umalista completa dos termos e condições da nobreza alemã. Chamar a senhora para jantar exigirá tanta capacidade pulmonar que o mordomo precisará de assinar um termo de responsabilidade e ter uma ambulância do INEM à porta.

Imagine-se o pânico do pobre tabelião, mais habituado a nomes que cabem numa linha. Olhando para o papel como quem descobre um novo continente, terá o árduo trabalho de soletrar tudo sem errar uma única letra, lutando contra a vontade de lhe implorar por uma versão reduzida.

Coitado, vai precisar de três meses de férias e de um balão de oxigénio para conseguir passar a certidão, não sem que antes contraia uma tendinite crónica só de começar o apelido.

Não o censuro. A burocracia moderna foi concebida para pessoas que cabem numa linha.

O casamento, contudo, não se destina a facilitar o trabalho dos funcionários. Visa, dirigir-se aos noivos; mas, em determinadas sociedades, destina-se também aos antepassados, aos descendentes ainda inexistentes e à conservação daquela respeitável continuidade familiar que transforma o matrimónio numa espécie de assembleia-geral da História. Dois jovens amam-se, ou esperam vir amar-se, e à sua volta instala-se um cortejo de mortos ilustres, todos silenciosamente interessados no êxito da operação.

É possível que, no momento dos votos, os noivos sintam a emoção simples e humana que torna um casamento digno de ser celebrado. Desejo-o com toda a sinceridade. Seria lamentável que, depois de tantos séculos de preparação genealógica, a felicidade conjugal acabasse reduzida a uma nota de rodapé nos arquivos da família.

Porque é esse, afinal, o aspeto mais curioso da aristocracia: a sua extraordinária capacidade para revestir de solenidade aquilo que, visto de perto, pertence à experiência comum. Casar, ter filhos, constituir família, envelhecer, discutir por pequenas coisas, reconciliar-se e procurar a felicidade são ocupações que não distinguem um príncipe de um plebeu, uma condessa de uma professora ou um duque de um mecânico. A diferença começa quando alguns desses atos são acompanhados por títulos e outros apenas por contas para pagar.

O plebeu casa-se; a aristocracia celebra uma aliança. O plebeu apresenta a família; a aristocracia exibe uma linhagem. O plebeu recorda os avós com ternura; a aristocracia parece exigir-lhes uma certidão de nobreza. E, no entanto, diante da doença, da desilusão ou da morte, toda essa arquitetura de distinções se revela tão frágil como a dos restantes mortais. A sepultura, essa instituição admiravelmente republicana, não costuma reservar um compartimento especial para os títulos.

Não quero com isto diminuir a importância da memória familiar. Todos temos antepassados, histórias e nomes que merecem ser preservados. O que me diverte é a ideia de que a antiguidade de uma família possa funcionar como certificado permanente de excelência, mesmo quando o presente não se dá ao trabalho de confirmar as qualidades do passado. Há apelidos que atravessam os séculos com a dignidade de uma biblioteca; outros parecem atravessá-los como móveis herdados, demasiado pesados para serem deitados fora e demasiado antigos para serem utilizados.

A boda de Dinis será, estou certo, uma bela ocasião. Haverá flores, música, emoção e, espero, uma abundância de alegria que torne irrelevante a extensão dos apelidos. Os noivos merecem os meus votos sinceros de felicidade, saúde, ternura e longa cumplicidade. Que se amem pelo que são, e não pelo que os respetivos antepassados foram; que possam rir de si mesmos, virtude necessária sobretudo a quem nasceu rodeado de pessoas dispostas a tratá-los como uma instituição.

Quanto a mim, comparecerei, se para tanto for convidado (estou certo de que sim), com a tranquilidade de quem não precisa de apresentar a árvore genealógica à entrada. Levarei comigo a minha condição de homem simples do povo, os meus anos de estudo e a convicção, talvez ingénua, de que a dignidade humana não melhora com o comprimento de um nome.

E, se alguém me perguntar de que ilustre casa provenho, responderei que venho da casa comum dos que trabalham, estudam, pagam impostos e aguardam, com resignação democrática, que os seus representantes se lembrem de os governar bem, nunca sabendo se será pedir demais.

Não tenho brasão, reconheço. Mas tenho uma vantagem de ninguém me exigir que faça manutenção heráldica.

Aos noivos, pois, os meus parabéns. Que a felicidade lhes seja generosa e que a vida lhes ensine aquilo que nenhum título pode garantir: que o amor romântico não reconhece precedências, que o carácter não se transmite por herança e que, no fim, a única nobreza verdadeiramente respeitável é aquela que cada um consegue demonstrar pelos seus atos.

Quanto ao resto, a História que o arquive.

Leia também: Uns armam barraca, outros armam tendas (ou da arte nacional de distinguir entre o cidadão incómodo e o adepto estimável) | Por José Figueiredo Santos

Brasil caiu na teia do petismo: o poder, o STF e a democracia sob pressão | Por João Rúben Silva

28 October 2026 at 17:00

A política brasileira nunca foi, para mim, uma realidade distante. Ao longo dos anos, acompanhei de perto a evolução política do Brasil, mantive contacto com o Instituto Monárquico do Rio Grande do Sul e desenvolvi proximidade com o antigo Democratas (DEM), hoje integrado na União Brasil. Esse percurso permitiu-me conhecer diferentes correntes do pensamento político brasileiro e aprofundar uma visão própria sobre o Estado, as instituições, a liberdade e o futuro das democracias.

As minhas referências políticas no Brasil refletem essa trajetória. Reconheço em Tarcísio de Freitas uma referência no domínio da governação, da administração pública e da capacidade de gestão executiva. Por outro lado, Luiz Philippe de Orléans e Bragança representa uma referência no pensamento conservador, na reflexão institucional e na valorização da tradição política brasileira.

Não procuro reproduzir automaticamente as posições de qualquer dirigente. Procuro analisar ideias, decisões e modelos de organização do Estado à luz dos meus próprios princípios: liberdade, responsabilidade, autoridade legítima, respeito pela Constituição e exigência de instituições transparentes e responsáveis.

É precisamente a partir destes princípios que olho para o atual momento político brasileiro.

O petismo e a concentração de poder

O Brasil atravessa um período de forte polarização política, no qual a relação entre o Governo, o Supremo Tribunal Federal (STF) e a oposição ocupa um lugar central no debate público.

O Partido dos Trabalhadores (PT), liderado politicamente por Lula da Silva, continua a mobilizar uma parte significativa do eleitorado brasileiro. Contudo, a existência de apoio eleitoral não deve servir para afastar o escrutínio democrático, tal como a oposição a um Governo não pode justificar a desvalorização dos resultados eleitorais.

Numa democracia madura, nenhum partido está acima da lei e nenhum governante está dispensado de prestar contas aos cidadãos.

A minha preocupação reside na forma como o poder político e o poder judicial se relacionam, sobretudo quando decisões judiciais de grande impacto político levantam dúvidas ou alimentam controvérsia sobre os limites da intervenção dos tribunais, a liberdade de expressão e as garantias processuais.

O STF tem uma função constitucional essencial. A independência dos tribunais é indispensável à democracia, mas essa independência deve coexistir com fundamentação rigorosa, proporcionalidade, transparência e respeito pelos direitos fundamentais. O mesmo princípio aplica-se aos seus protagonistas, incluindo o ministro Alexandre de Moraes: as decisões judiciais devem ser avaliadas pelo seu fundamento jurídico e pelas suas consequências, e não apenas pela identidade de quem as profere.

Defender a democracia não significa conceder um cheque em branco a qualquer instituição. Significa exigir que todas as instituições respeitem os limites da Constituição.

É legítimo combater desinformação, ameaças e crimes. Não é legítimo, porém, transformar o combate a esses fenómenos num argumento genérico para restringir a crítica política legítima. A fronteira entre a proteção da democracia e a limitação desproporcionada das liberdades tem de ser permanentemente escrutinada.

A democracia não se resume à realização de eleições. Exige pluralismo, oposição livre, tribunais independentes, imprensa livre e garantias efetivas para todos os cidadãos.

O STF e a legitimidade democrática

A expressão «o STF elegeu Lula» traduz uma perceção política existente em setores da oposição brasileira, mas não deve ser confundida com uma descrição factual do processo eleitoral. Os resultados são determinados pelos votos apurados e proclamados pelas autoridades eleitorais competentes.

Ainda assim, é legítimo discutir o papel das instituições judiciais no ambiente político e questionar se as suas decisões contribuem para a confiança dos cidadãos no sistema democrático.

Quando uma parte significativa da população passa a olhar para os tribunais como atores políticos, a credibilidade institucional fica em risco. Essa perceção não prova, por si só, que exista parcialidade judicial, mas constitui um sinal que não deve ser ignorado.

O caminho para recuperar a confiança passa por decisões fundamentadas, respeito pelo contraditório, garantias de defesa e uma aplicação coerente da lei, independentemente da orientação ideológica dos envolvidos.

A mesma exigência deve ser colocada a Lula, ao PT, à oposição conservadora e aos restantes protagonistas da vida pública brasileira.

Não defendo a substituição de um poder sem limites por outro. Defendo um Estado em que nenhum poder fique sem escrutínio.

O conservadorismo brasileiro e as minhas referências políticas

A direita brasileira não é um bloco uniforme. Existem diferenças entre o conservadorismo social, o liberalismo económico, o pensamento monárquico, o nacional-conservadorismo e as correntes que privilegiam a eficiência administrativa e a modernização do Estado.

É por isso que considero relevante acompanhar figuras como Tarcísio de Freitas e Luiz Philippe de Orléans e Bragança, embora representem percursos e prioridades diferentes.

Em Tarcísio, interessa-me a discussão sobre a capacidade de governação, a execução de políticas públicas e a gestão do aparelho estatal. Em Luiz Philippe, interessa-me a reflexão sobre as instituições, a tradição, a organização política e os fundamentos do pensamento conservador.

A ligação ao Instituto Monárquico do Rio Grande do Sul e a proximidade histórica com o antigo DEM, atualmente integrado na União Brasil, fazem parte desse percurso de acompanhamento e reflexão.

Estas referências não significam uma adesão automática a todas as posições assumidas por essas figuras. A política exige independência de pensamento, capacidade crítica e coerência de princípios.

O conservadorismo que defendo não deve ser confundido com autoritarismo. A autoridade é necessária, mas tem de ser legítima. A ordem pública é indispensável, mas não elimina os direitos fundamentais. A liberdade económica é importante, mas não dispensa responsabilidade. E a tradição merece ser estudada, não utilizada como desculpa para impedir a evolução da sociedade.

O Algarve e os sinais de uma mudança política

A análise brasileira também pode ajudar-nos a compreender algumas tendências políticas em Portugal, particularmente no Algarve.

Nas eleições legislativas portuguesas de 2025, o Chega obteve cerca de 34,67% dos votos no círculo eleitoral de Faro, enquanto a AD alcançou aproximadamente 26,35% e o PS cerca de 21%.

Estes resultados revelaram uma alteração significativa da relação de forças políticas na região e demonstraram a dimensão do descontentamento de uma parte do eleitorado com os partidos tradicionais.

Por outro lado, os resultados eleitorais brasileiros de 2026 nas áreas consulares portuguesas oferecem um dado interessante para reflexão. No círculo consular de Faro, Flávio Bolsonaro terá obtido 52,67% dos votos, contra 47,33% de Lula da Silva, ao passo que Lisboa e Porto apresentaram resultados favoráveis a Lula.

A diferença entre Faro e os outros círculos consulares merece atenção. Poderá refletir diferenças na composição do eleitorado, nas experiências de vida, nas prioridades económicas e nas perceções sobre o rumo político do Brasil. No entanto, não permite concluir, isoladamente, que todos os residentes brasileiros no Algarve partilham a mesma orientação política.

Também não demonstra que o Algarve seja, por si só, um território ideologicamente homogéneo ou um reduto conservador consolidado.

Mas levanta uma questão política relevante: estará o Algarve a tornar-se um espaço particularmente recetivo a discursos de autoridade, segurança, responsabilidade económica e mudança política?

É uma hipótese que merece ser analisada com seriedade.

O crescimento eleitoral do Chega, a votação de Flávio Bolsonaro em Faro e a centralidade de temas como a habitação, o custo de vida, a segurança e a imigração podem revelar preocupações que atravessam diferentes segmentos da população. A relação entre estes fenómenos, contudo, deve ser estudada e não presumida.

Habitação, imigração e segurança: as preocupações que aproximam os debates

No Algarve, a habitação tornou-se um dos principais problemas sociais. Muitos trabalhadores enfrentam rendas incompatíveis com os seus rendimentos, enquanto a oferta disponível continua a ser insuficiente para responder às necessidades de residentes, famílias e jovens trabalhadores.

A pressão habitacional não pode ser analisada através de explicações simplistas. A procura turística, a disponibilidade de habitação, o investimento imobiliário, os salários, a construção, o planeamento urbanístico e os fluxos migratórios podem contribuir, de formas diferentes, para a situação existente.

Defender uma política migratória mais controlada é uma posição política legítima. Portugal tem o direito de definir regras de entrada e permanência, garantir capacidade de integração e combater situações de exploração. Mas a política migratória deve assentar em dados, critérios transparentes e respeito pela dignidade humana, sem transformar comunidades inteiras em culpadas por problemas estruturais.

O mesmo rigor deve orientar a política de segurança. Os cidadãos têm direito a viver em segurança, as forças policiais devem dispor de condições para cumprir a sua missão e o Estado deve atuar dentro da lei. A defesa da ordem pública não é incompatível com a liberdade; é uma das condições para que a liberdade possa ser exercida por todos.

O desafio político consiste em transformar estas preocupações em medidas concretas: aumentar a oferta habitacional, melhorar os rendimentos, reforçar a capacidade dos serviços públicos, assegurar uma imigração regulada e garantir a aplicação efetiva da lei.

Não basta explorar o descontentamento eleitoral. É necessário apresentar soluções, definir prioridades e responder pelos resultados.

Portugal deve aprender com os riscos da polarização brasileira

A experiência brasileira deve servir de alerta para Portugal. Quando a disputa política se transforma numa luta permanente pela legitimidade das instituições, a confiança pública deteriora-se e o debate deixa de se concentrar nos problemas concretos dos cidadãos.

Não devemos importar automaticamente os conflitos, os protagonistas ou as divisões do Brasil. As realidades constitucionais, partidárias e sociais são diferentes.

Contudo, podemos retirar uma lição comum: as instituições precisam de ser fortes, independentes e responsáveis, e os cidadãos devem poder criticar os governantes sem serem tratados como inimigos da democracia.

Uma democracia não se protege silenciando a oposição. Protege-se aplicando a lei com imparcialidade, garantindo a liberdade de expressão e impedindo que qualquer partido, tribunal ou governante se considere acima dos limites constitucionais.

Também a direita tem responsabilidades. Deve rejeitar a violência política, respeitar os resultados eleitorais, apresentar propostas viáveis e demonstrar que consegue governar com competência. O conservadorismo não pode viver apenas da denúncia dos adversários; tem de provar que oferece uma alternativa credível.

A mesma exigência deve ser colocada à esquerda. Nenhum projeto político pode invocar a defesa da democracia para afastar o escrutínio das suas decisões ou desvalorizar os cidadãos que pensam de maneira diferente.

O futuro pertence às democracias que respeitam os seus limites

O Brasil continua a ser uma das democracias mais importantes do espaço lusófono. O seu futuro político terá consequências para a sociedade brasileira, para a diáspora e para a forma como Portugal acompanha as transformações políticas no mundo.

A minha posição é clara: não defendo a concentração ilimitada do poder, seja no Governo, no Parlamento ou nos tribunais. Defendo instituições fortes, mas sujeitas à Constituição; uma autoridade legítima, mas limitada pela lei; uma economia dinâmica, mas acompanhada de responsabilidade; e uma sociedade que preserve a liberdade sem abdicar da ordem pública.

As referências que encontro no pensamento conservador brasileiro ajudam-me a aprofundar estas questões, mas não substituem o meu próprio juízo político.

Quanto ao Algarve, os resultados eleitorais justificam uma reflexão sobre a mudança das prioridades dos eleitores e sobre a crescente importância de temas como a habitação, a segurança, a imigração e o custo de vida. Não provam uma mudança irreversível, mas mostram que nenhuma força política deve considerar o eleitorado conquistado de forma permanente.

O futuro não pertence necessariamente à esquerda ou à direita. Pertence às forças políticas que conseguirem responder aos problemas reais, respeitar as instituições e conquistar a confiança dos cidadãos.

Porque a democracia não é a propriedade de um partido, a Constituição não é um instrumento de conveniência e a liberdade não pode depender da cor política de quem governa.

Leia também: Aumentar salários não chega: é preciso devolver poder de compra aos portugueses | Por João Rúben Silva

A habitação num país de contrastes

28 October 2026 at 14:17

Portugal vive uma crise da habitação, mas os números revelam um país de profundos contrastes. Enquanto em Lisboa a renda mediana de um novo contrato para uma habitação de 100 m² atinge os 1.688€ mensais, em cerca de metade dos municípios portugueses (140) não ultrapassa os 600€.

As diferenças são expressivas. Cascais (1.620€), Oeiras (1.503€), Porto (1.413€) e Funchal (1.320€) estão entre os municípios mais caros. No extremo oposto, encontramos Bragança (463€), Portalegre (437€) e Vila Flor (255€). Entre Lisboa e Vila Flor, a diferença é superior a seis vezes.

Esta realidade reflete um problema estrutural do país: o centralismo e a crescente concentração da população e da atividade económica nos grandes centros urbanos, em contraste com o despovoamento e a perda de dinamismo de muitos territórios do interior.

A concentração de empregos, empresas, universidades e serviços nas grandes áreas metropolitanas atrai população e aumenta a procura de habitação. Quando a construção não acompanha esse crescimento, os preços disparam. Entretanto, muitos municípios do interior enfrentam o desafio oposto: a perda de habitantes, o envelhecimento e a dificuldade em atrair investimento e talento.

Temos, assim, um país onde falta habitação nos territórios que atraem pessoas e faltam pessoas em muitos dos territórios onde a habitação é mais acessível.

Esta desigualdade territorial deve fazer parte do debate sobre a crise da habitação. Os indicadores nacionais escondem realidades muito distintas e as soluções não podem ignorar as especificidades de cada município.

Nos territórios mais pressionados, é fundamental aumentar a oferta de habitação, removendo entraves à construção e promovendo maior rapidez e previsibilidade nos licenciamentos. Mas também importa combater a excessiva concentração económica e populacional, criando condições para que mais regiões consigam atrair empresas, investimento e emprego qualificado.

Resolver a crise da habitação não passa apenas por construir mais casas onde todos querem viver. Passa também por criar oportunidades para que mais portugueses possam escolher viver noutros pontos do país.

  • Os factos vistos à lupa por André Pinção Lucas e Juliano Ventura – Uma parceria do POSTAL com o Instituto +Liberdade

Leia também: Portugal acumula 15 anos de atraso na construção de habitação

Criar pontes para acelerar a inovação

28 October 2026 at 14:00

A inovação é cada vez mais um exercício coletivo. A velocidade da evolução tecnológica, a complexidade dos desafios e a necessidade de encontrar respostas para problemas novos obrigam as organizações a trabalhar de forma diferente e, sobretudo, em conjunto. É neste contexto que os ecossistemas de inovação ganham importância, aproximando empresas, start-ups, universidades, centros de investigação, parceiros tecnológicos e clientes em torno de desafios comuns.

Aparentemente, a ideia é simples: combinar diferentes conhecimentos, experiências e perspetivas para encontrar respostas que, dificilmente, surgiriam dentro de uma única organização. A “má notícia” é que um ecossistema não se constrói apenas através de parcerias. É preciso criar relações que funcionem, partilhar conhecimento e combinar competências para transformar as ideias em resultados tangíveis.

A evolução da inteligência artificial veio acelerar ainda mais esta dinâmica. Hoje testamos ideias, desenvolvemos protótipos e exploramos soluções a uma velocidade difícil de imaginar há poucos anos, enquanto os ciclos de inovação são cada vez mais curtos e as expectativas dos clientes e dos mercados aumentam. Somos chamados a experimentar mais, aprender mais depressa e a passar rapidamente para aquilo que funciona.

Mas será que estamos a conseguir preparar as pessoas ao mesmo ritmo a que estamos a querer transformar as organizações?

Num contexto em que o conhecimento e as tecnologias evoluem rapidamente, a ligação entre a academia e as organizações deixa de ser apenas desejável e passa a ser necessária. Mais do que preparar os estudantes para as tecnologias de hoje, importa criar condições para que desenvolvam a capacidade de aprender, experimentar e adaptar-se continuamente.

É aqui que a criação de pontes entre universidades e empresas tem particular importância. Estágios, programas de desenvolvimento de talento, projetos conjuntos e iniciativas académicas permitem aproximar a formação da realidade das organizações e proporcionar aos estudantes contacto com tecnologias, desafios e formas de trabalho concretas.

A vantagem é que os ganhos são bilaterais. Os estudantes têm a oportunidade de conhecer problemas reais, trabalhar com diferentes equipas e desenvolver competências. As organizações podem conhecer novos talentos, serem desafiadas por novas perspetivas, acompanhar a evolução do conhecimento académico e contribuir para uma formação mais próxima das necessidades futuras.

Contudo, esta colaboração não deve terminar com a entrada no mercado de trabalho. A participação de profissionais em iniciativas académicas, a colaboração em projetos de investigação ou o desenvolvimento de programas conjuntos podem criar uma relação mais contínua entre os dois mundos. O desafio está em criar as condições para que diferentes competências e perspetivas se encontrem, se complementem e contribuam para objetivos comuns.

E esta lógica estende-se aos diferentes participantes do ecossistema, incluindo start-ups, parceiros tecnológicos, universidades, empresas e clientes. Esta diversidade contribui com conhecimento, experiência, tecnologia, talento, ou uma perspetiva diferente sobre os desafios que importa endereçar. Quando um ecossistema funciona numa lógica complementar, cria-se um contexto mais favorável à experimentação, à inovação e à produção de valor.

Por isso, é tempo de começarmos a olhar para os ecossistemas de inovação de uma outra forma, dando relevância ao que acontece depois: que ideias chegam ao mercado, que problemas são resolvidos, que processos são transformados e, sobretudo, que talento e competências conseguimos desenvolver.

O papel da sequenciação genética dos tumores na personalização dos cuidados em Oncologia

28 October 2026 at 12:44

A oncologia atravessa uma transformação profunda. Se, durante décadas, o tratamento do cancro dependia essencialmente do órgão de origem e das características histológicas, hoje sabemos que a identificação das alterações genéticas dos tumores é fundamental para compreender a doença e personalizar a sua abordagem.

A sequenciação de nova geração (Next-Generation Sequencing — NGS) permite analisar simultaneamente múltiplos genes, assumindo um papel crescente nas diferentes etapas do percurso oncológico: prevenção, diagnóstico, prognóstico, selecção do tratamento e monitorização.

Na prevenção, a identificação de variantes genéticas hereditárias, como as dos genes BRCA1 e BRCA2, permite reconhecer indivíduos e famílias com maior predisposição para determinados cancros, possibilitando estratégias personalizadas de vigilância e redução do risco. No rastreio e diagnóstico precoce, a caracterização genética pode contribuir para identificar populações de maior risco e, através de novas tecnologias, incluindo a análise de ADN tumoral circulante, abrir perspectivas para detectar a doença em fases mais precoces, embora algumas destas aplicações ainda necessitem de validação clínica.

No prognóstico, as alterações moleculares ajudam a compreender a agressividade dos tumores, estimar o risco de recidiva e orientar a intensidade da vigilância e dos tratamentos.

É, contudo, na selecção terapêutica que a sequenciação genética tem actualmente maior impacto. A identificação de alterações em genes como EGFR, ALK, ROS1, KRAS ou RET, no cancro do pulmão, permite utilizar terapêuticas dirigidas, frequentemente mais eficazes e menos tóxicas. Quando não existem alterações moleculares susceptíveis de tratamento dirigido, a avaliação da carga mutacional tumoral (Tumour Mutational Burden — TMB) pode, em contextos clínicos específicos, fornecer informação adicional para orientar a imunoterapia, embora não constitua um biomarcador universal nem substitua outros critérios de decisão.

O valor desta inovação é também económico e social. Um estudo nacional sobre os testes de diagnóstico in vitro estimou que cada euro investido na utilização alargada de NGS no cancro do pulmão poderá gerar 5,4 euros de retorno social e económico.

Persistem, porém, desigualdades no acesso, atrasos na realização dos testes e dificuldades de financiamento. Portugal necessita de uma estratégia nacional de diagnóstico molecular, que assegure qualidade, rapidez e equidade, integrando estas tecnologias nos cuidados oncológicos.

A medicina de precisão não começa na escolha do medicamento, mas no conhecimento da biologia do tumor. Investir nesse conhecimento significa prevenir melhor, diagnosticar mais cedo, tratar com maior eficácia e oferecer a cada doente a melhor oportunidade de viver mais e melhor.

História de Tavira: Idade do Bronze. Um novo tempo – Parte 3 | Por José Manuel do Carmo

28 October 2026 at 11:50

No final do 3.º milénio a.C. dá-se uma rutura na estável e produtiva sociedade agropastoril: uma redução demográfica, povoados colapsam, outros mostram redução das áreas ocupadas e a concentração das populações em “cidades” de grande dimensão e amuralhadas. As causas são desconhecidas, embora se apontem, entre outras, a chegada de novos povos a partir de 2400 a.C. 

Por esta altura, os Yamnaya, povos vindos das estepes a Norte do Mar Negro (Ucrânia-Rússia) que se vinham deslocando desde meados do 5º milénio em direção a Oeste, atingem a Península Ibérica em vagas de pequenos grupos que coexistiram nas proximidades das comunidades autóctones.

JOSÉ MANUEL DO CARMO
Professor coordenador (aposentado).
Escola Superior de Educação e Comunicação, Universidade do Algarve

Possuidores de uma cultura muito diferente: O povo da cultura Yamnaya tinha olhos castanhos, cor da pele intermédia e cabelo castanho escuro, embora surgissem pessoas com cabelo louro; tolerantes à lactose, uma economia ganadeira com manadas que manejavam a cavalo, carruagens/carroças puxadas por bois, associados à difusão da cerâmica campaniforme e uma cultura de enterramentos em túmulos com os corpos em decúbito com as pernas fletidas lateralmente, frequentemente cobertos de ocre e com  pouco  espólio. A presença de armas no espólio funerário de indivíduos Yamnaya, mostra o seu carácter guerreiro, que o domínio do bronze e do cavalo terão afirmado como dominadores.

Assiste-se a uma mudança radical na genética peninsular. Não obstante a composição genética feminina não se alterar na globalidade da Península, a estrutura genética masculina é substituída, em apenas 400 anos, pela genética dos homens Yamnaya. São várias as hipóteses para explicar o sucedido: massacre dos homens locais, confisco das mulheres, preferência das mulheres por estes cavaleiros ou ainda uma doença a que as populações locais masculinas não eram resistentes. O que é certo é que a genética Yamnaya se generalizou em toda a península.

Não obstante os Yamnaya já possuírem armas em bronze, esta tecnologia apenas terá chegado à Península por difusão cultural cerca de 1700 ac., no Norte de Portugal, com carácter doméstico e só terá chegado à Andaluzia e à bacia do Sado no final do 2º milénio. Teorias fundamentadas defendem que é desta população Yamnaya que surge a cultura Celta, na região Sado-Tejo, e que se expande pelo litoral atlântico até às ilhas britânicas e centro da Europa, todavia é de considerar que esta evolução terá ocorrido independentemente em vários locais, nomeadamente Hallstatt (Áustria), onde a descoberta da tecnologia do ferro (1200-1000 ac.), e a sua rápida expansão, permitiu aos Celtas dominarem a Europa e na Península ocuparem parte do território, gerando sub-culturas territoriais de natureza e cultura Celtas: os Lusitanos, os Celtiberos, os Galáicos, os Asturos, os Cantabricos, os Celtici, no Alentejo, entre outros, mas não a faixa Este e Sul, da Catalunha ao Algarve.

No Sul, os pequenos assentamentos nas proximidades da costa e estuários, junto a terrenos férteis mantêm uma economia agropastoril complementada por recursos marinhos e fluviais, especializam-se na produção de materiais, como cerâmica, tecelagem, metalurgia do cobre, de que a Serra Algarvia era rica, formavam uma teia dispersa de comunidades confluindo para um assentamento litoral donde partia a circulação de produtos por via marítima.

A colina de Santa Maria, ocupada na face sueste, por um povoado com boas condições de defesa e para o comércio marítimo e controlo do trânsito entre o litoral e o interior de uma região farta em recursos, gradualmente se assumiu como polo de exportação donde partia a circulação de produtos por via marítima por todo o arco atlântico-mediterrânico. Este comércio promoveu interações étnicas e culturais, em especial, com o Mediterrâneo Oriental, com consequente desenvolvimento das comunidades: crescem em população, complexidade social e o empoderamento de uma elite especializada no armazenamento, comércio e atividade portuário-naval, assumindo-se como proto-capital de um território que adquire identidade. A importância deste povoado justificou a necessidade de construir uma muralha, no final do século VIII ac., no tempo dos primeiros contactos com o mundo fenício.

Leia também: História de Tavira: Com os pés na terra – Parte 2 | Por José Manuel do Carmo

ARTEX/OPEX – Um bom contributo para a defesa europeia

28 October 2026 at 11:10

Quando um Presidente da República, um Ministro da Defesa e o Diretor Executivo da Agência Europeia de Defesa (EDA) ocupam a mesma tribuna, a mensagem política fica dada antes de qualquer discurso. Foi isso que se viu no Campo Militar de Santa Margarida, em Constância, no encerramento do exercício ARTEX 26 (Army Technological Experimentation 2026) que se inseriu na campanha europeia HEDI OPEX26 (Hub for European Defence Innovation Operational Experimentation 2026). António José Seguro, Presidente da República Portuguesa, percorreu a exposição, contactou com as empresas participantes e só no fim da visita respondeu aos jornalistas. Nuno Melo, Ministro da Defesa Nacional, falou de um verdadeiro laboratório do futuro na área da defesa. André Denk, Diretor da EDA, lembrou que as ameaças à segurança europeia são reais e imediatas. Esta atenção de topo deve ser reconhecida, porque mostra que o exercício deixou de ser um assunto do Exército, que o organizou de forma superior, para passar a ser um assunto de Estado e da Europa.

Parte dessa atenção, porém, não é exclusivamente política pública de defesa, é, também o futuro e a viabilidade das empresas que desenvolvem as soluções. Uma cerimónia, por mais solene que seja, não financia protótipos nem compra equipamento. A fotografia de encerramento esquece-se depressa e o que resta é uma pergunta mais incómoda: o que acontece às soluções que foram testadas?

Os números apresentados no encerramento são expressivos: 77 empresas, 112 soluções tecnológicas e 22 países presentes. Segundo o Ministro da Defesa, o número de empresas participantes duplicou face ao ano anterior e o ARTEX, iniciado em 2023, passou a integrar pela primeira vez o calendário da EDA. Estes dados mostram uma trajetória de crescimento. Não mostram, por si só, para onde essa trajetória conduz.

O próprio Exército, através do responsável pela robótica e pelos sistemas autónomos do CEMTEx (Centro de Experimentação e Modernização Tecnológica do Exército), explicou (e bem) que a instituição nunca se compromete a que um participante seja depois adotado como equipamento. Essa prudência é compreensível e correta, porque nenhuma instituição deve prometer aquisições que não controla ou que não necessita. Mas a consequência é que a passagem do ensaio à encomenda, normalmente, não depende de quem testa. Depende de quem tem competência para decidir a compra, com que orçamento, com que regras e com que calendário.

Um fabricante que vence um teste e não recebe qualquer encomenda no ano seguinte não tem um problema técnico, tem um problema de procura e de sobrevivência da empresa. A nossa tarefa é verificar se estes instrumentos de apoio (europeus e nacionais) chegam, de facto, às soluções que Santa Margarida permitiu avaliar e não apenas aos programas teóricos desenhados antes do exercício. A capacidade industrial portuguesa está, aliás, bem representada nas iniciativas europeias.

O diretor executivo da EDA pediu encomendas firmes e de longo prazo, bem como regras de aquisição mais simples. Subscrevo esse pedido precisamente porque o Parlamento Europeu tem acompanhado em instrumentos como o EDIP (European Defence Industry Programme), orientado para a produção conjunta, e o SAFE (Security Action For Europe) , que mobiliza empréstimos para compras de defesa, e ainda o AGILE (Program for Agile and Rapid Defence Innovation), recentemente aprovado, que financia inovação. Um fabricante que vence um teste e não recebe qualquer encomenda no ano seguinte não tem um problema técnico, tem um problema de procura e de sobrevivência da empresa. A nossa tarefa é verificar se estes instrumentos de apoio (europeus e nacionais) chegam, de facto, às soluções que Santa Margarida permitiu avaliar e não apenas aos programas teóricos desenhados antes do exercício.

A capacidade industrial portuguesa está, aliás, bem representada nas iniciativas europeias. A UAVision, foi uma das cinco empresas selecionadas para o Sentinel Strike Challenge, a competição da EDA para testar drones de ataque e ficou em quarto lugar na avaliação inicial, entre mais de 140 manifestações de interesse. A Beyond Vision foi uma das três empresas convidadas a experimentar, ao lado do Exército português, sistemas aéreos de baixo custo para missões de alto risco. Um veículo de vigilância desenvolvido pelo Instituto Superior Técnico, com origem num projeto com a Frontex, está presente no exercício desde a primeira edição do ARTEX. Há, portanto, massa crítica. O que falta é que estes casos deixem de ser exceções destacadas em comunicados e passem a ser encomendas reais.

Há também um projeto nacional que merece atenção prioritária. O general Chefe de Estado Maior do Exército (CEME), Eduardo Mendes Ferrão propôs a constituição da Zona Livre Tecnológica D. Afonso Henriques, que abrangerá as áreas militares de São Jacinto, Santa Margarida e Beja e permitirá testes terrestres e aéreos com munições e explosivos à escala real. O general CEME espera vê-la concretizada em breve. As decisões de ordenamento, licenciamento e dotação orçamental são nacionais. Enquanto a zona não existir, o laboratório português continuará a ter limites que outros Estados já não têm e a ambição de Portugal, através do Exército português, se tornar um centro experimental europeu dependerá dessa decisão.

Portugal tem hoje um tecido empresarial com provas dadas na defesa. Segundo o levantamento mais recente da idD Portugal Defence, são cerca de 440 as entidades com atividade no setor, 81 delas criadas só em 2025, com uma faturação que ronda os 8,7 mil milhões de euros por ano. Santa Margarida mostrou que estas empresas sabem levar a tecnologia para o terreno.

O general Mendes Ferrão anunciou também a assinatura de um memorando com a iniciativa DIANA (Defence Innovation Accelerator for North Atlantic) da NATO, que fará do CEMTEx, localizado em Paço de Arcos, um centro de testes afiliado. É uma excelente notícia, que merece ser operacionalizada pelas duas partes e acompanhada de um calendário firme. Do lado europeu, a EDA criará a 1 de novembro o Centro Europeu de Inovação em Defesa, com a experimentação operacional como atividade central. O seu Diretor Executivo, Andre Denk, afirmou que Portugal está perfeitamente posicionado para acolher futuras iniciativas da EDA. Partilho essa confiança. Seria essencial que a candidatura nacional a polo permanente da rede seja apresentada de forma coordenada entre o Governo, o Exército e a indústria.

Portugal tem hoje um tecido empresarial com provas dadas na defesa. Segundo o levantamento mais recente da idD Portugal Defence, são cerca de 440 as entidades com atividade no setor, 81 delas criadas só em 2025, com uma faturação que ronda os 8,7 mil milhões de euros por ano. Santa Margarida mostrou que estas empresas sabem levar a tecnologia para o terreno. No quadro do SAFE, a exigência de que pelo menos 65% do custo e da produção dos componentes tenha origem europeia abre às empresas portuguesas um espaço que até aqui era ocupado por fornecedores de fora da União.

O passo seguinte é preparar essa presença para o ciclo orçamental europeu que se aproxima – Quadro Financeiro Plurianual 2028-2034. Isso passa por empresas que se conheçam antes de os concursos abrirem, por consórcios internacionais montados com antecedência e por uma presença regular em Bruxelas, porque os programas de trabalho definem-se muito antes de as candidaturas abrirem. O Governo pode ajudar, usando as suas aquisições para integrar as pequenas e médias empresas nas cadeias de fornecimento dos grandes fabricantes e apoiando os custos iniciais de entrada em consórcios europeus, que chegam muito antes de qualquer receita. Se este caminho for seguido, as empresas portuguesas poderão apresentar-se à Europa como ecossistema, e não uma a uma, que é a forma como os grandes programas as procuram.

Parabéns a todos os envolvidos.

A extrema-esquerda acordou. A renda tocou o despertador | Por Tiago Manuel

28 October 2026 at 09:50

A extrema-esquerda acordou. Ou, pelo menos, parece ter-se lembrado de onde veio.

Durante décadas, a esquerda ajudou a libertar Portugal da moral obrigatória do «Deus, Pátria e Família». Combateu o flagelo do aborto clandestino, a discriminação pela orientação sexual e a ideia de que só existia uma maneira legítima de viver. Não fez esse caminho sozinha, mas teve nele um papel que seria desonesto apagar.

Portugal ganhou liberdade. 

Ganhou direitos. 

Ganhou espaço para respirar.

Só que, algures pelo caminho, uma parte dessa esquerda parece ter confundido conquistas com missão cumprida.

E não foi só cá em Portugal. Foi em todo o lado. Uma tendência mundial.

Continuou a discutir como se devia viver, enquanto perdia força a pergunta mais elementar: com que dinheiro se vive?

Entretanto, o país transformava-se numa montra imobiliária. 

A casa passou de lugar para morar a oportunidade de investimento. Os fundos de investimento compravam casas ao desbarato e deixavam-nas vazias ou com AL. Enfim, o património residencial deixou de ser residências. Tornou-se produto. 

O sucesso nacional começou a medir-se pelo preço a que conseguíamos vender Portugal a quem tinha mais dinheiro para o comprar.

Uma fábrica de anúncios, comissões e promessas de rentabilidade. E quem cá trabalhava ia fazendo contas.

Durante os governos de António Costa, a esquerda à esquerda do PS enfrentou uma contradição: apoiar a governação e continuar a contestá-la. 

Houve só desgaste a reboque dos emigrantes ilegais vindos de sítios que não estamos habitudados. 

A proximidade ao poder foi retirando nitidez à oposição.

E havia sempre uma urgência maior: travar a extrema-direita.

Quanto mais se falava dela, mais ela ocupava a conversa. Até o debate público parecer organizado à sua volta.

O Chega percebeu a oportunidade. 

Pegou na frustração, deu-lhe um inimigo identificável e apresentou respostas simples para problemas difíceis. 

A imigração ilegal, descontrolada, mafiosa, dando residências e nacionalidade a quem alegadamente paga mais por isso, tornou-se explicação para quase tudo: salários baixos, serviços sobrecarregados, insegurança, falta de habitação.

Discutir exploração laboral, redes de imigração ilegal e capacidade dos serviços públicos exige seriedade. Transformar todos os imigrantes num culpado coletivo exige apenas um megafone.

A esquerda, entretanto, desligou-se da classe média baixa, que é quase todo Portugal, e parecia muitas vezes mais preparada para censurar a linguagem do descontentamento do que para compreender as condições que o produziam.

Depois chegou o abalo da Operação Influencer. A descoberta de alegados 75.800 euros no gabinete de Vítor Escária, então chefe de gabinete de António Costa, ofereceu uma imagem devastadora do poder. A responsabilidade criminal exige prova; o estrago político instala-se muito antes de uma sentença.

Veio a direita, com a sua promessa de arrumar a casa.

Mas, para quem procura uma casa onde viver, a alternância política vale pouco se a renda continuar incomportável.

O discurso muda. 

A conta chega na mesma.

E é aqui que a esquerda tem uma oportunidade de regressar ao lugar que deixou demasiado vazio.

A habitação devolve materialidade à política. Obriga a falar de salários, propriedade, impostos, construção, transportes e distribuição de riqueza. Obriga a escolher interesses e a assumir conflitos.

Uma bandeira pode emocionar. 

Não paga a entrada de um apartamento. 

Um vídeo pode viralizar. 

Não permite sair de casa dos pais.

É possível que parte dos jovens seduzidos pela irreverência da extrema-direita comece a fazer essa conta. 

A provocação tem prazo de validade quando não oferece perspetivas de vida. Ser contra tudo pode parecer cool.

Continuar sem conseguir pagar um quarto tem muito pouca graça.

A manifestação pode então recuperar aquilo que o ecrã lhe roubou: presença, pertença e a sensação de poder fazer alguma coisa em conjunto.

Mas seria um erro trocar apenas uma moda digital por outra. 

A esquerda não regressa por conseguir mais visualizações de uma marcha. Regressa se transformar mobilização em organização, propostas e resultados.

Voltar à luta de classes exige mais do que recuperar o vocabulário. 

Exige estar onde os salários falham, onde as rendas expulsam e onde trabalhar deixou de garantir autonomia.

Foi hoje [27 de outubro] nesta manifestação que o Ministro da Administração Interna incentivou, mais que o Presidente da República, que a extrema-esquerda acordou.

A extrema-esquerda acordou. Voltou onde nunca devia ter saído. Defender as classes mais pobres.

Agora terá aprendido a lição de não apoiar o centro? A ver.

Terá entendido, independentemente da sua etnia, que quem mais beneficiou das residências das cooperativas, bairros sociais, etc. não puseram lá ainda os pés na manifestação? A ver. 

Mas acordou e vamos ver. O despertador foi a renda e ela vence todos os meses.

RIP Livre nas próximas eleições legislativas e Chega comecará a cair, mesmo sendo primeiro partido mais virado 

Hoje ficou escrito que Passos Coelho pode mesmo ser o próximo primeiro-ministro.

Leia também: Grândola vila obscena | Por Tiago Manuel

O AVC é tratável e evitável | Por Tiago Gregório

28 October 2026 at 07:30

Neste Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral (AVC), quero passar duas mensagens importantes: o AVC continua a ser uma emergência de saúde pública, mas é uma batalha que podemos vencer.

A dimensão e o impacto do AVC não podem ser ignorados. A nível mundial, o AVC é uma das principais causas de morte e incapacidade. O risco global que enfrentamos é verdadeiramente alarmante: um em cada quatro adultos sofrerá um AVC ao longo da sua vida. No nosso país, o AVC continua a ser uma das principais causas de morte em Portugal, deixando um rasto de sofrimento nas famílias e impondo um peso insustentável no Sistema Nacional de Saúde.

Apesar da gravidade destes números, não estamos perante uma fatalidade. Os dados mais recentes fundamentam a nossa esperança. Em Portugal, as taxas de incidência de AVC ajustadas à idade têm vindo a diminuir substancialmente. Este declínio é a prova de que as políticas de prevenção funcionam. Simultaneamente, a mortalidade por AVC registou uma queda assinalável no nosso país, refletindo o sucesso dos nossos profissionais de saúde e a melhoria contínua no tratamento da fase aguda da doença.

Para consolidarmos esta trajetória e salvarmos mais cérebros, e mais vidas, o compromisso das autoridades de saúde e da sociedade civil tem de ser reforçado. O caminho a seguir exige ação em três eixos vitais:

Investimento na Prevenção:Apenas com o reforço dos cuidados de saúde primários podemos otimizar o diagnóstico e o controlo dos fatores de risco vasculares, como a hipertensão e a diabetes.

Consciencialização da População: A literacia em saúde salva vidas. Todos os portugueses devem saber reconhecer os sinais de alarme do AVC (os 3 Fs – desvio da Face, falta de Força ou alteração da Fala). Perante qualquer um destes sinais, a indicação é clara e única: ligar imediatamente para o 112.

Excelência nos Cuidados e na Reintegração: É essencial continuar a melhoria no acesso aos cuidados de AVC em todo o território nacional. É fundamental garantir a equidade no acesso às terapêuticas de reperfusão, ao internamento em Unidades de AVC e à reabilitação atempada, devolvendo a autonomia aos sobreviventes e permitindo o seu regresso à vida ativa.

O AVC é tratável e evitável. Investir no seu combate não é apenas um dever clínico, mas um imperativo ético. Juntos, podemos mudar a história do AVC em Portugal.

Leia também: Cancro colorretal: a importância do rastreio e do diagnóstico precoce | Por Joana Lemos Garcia e Joana Moleiro

O mar da fé no turismo

28 October 2026 at 07:10
Ao final da publicação da série sobre turismo religioso na Baía de Todos-os-Santos, a conclusão possível é esta: a Bahia tem na fé um vetor de desenvolvimento. A primeira reportagem mostrou Bom Jesus dos Navegantes, de 1750, a primeira celebração católica do ano, partindo da Boa Viagem. A atividade segue com a devoção a Santa Dulce dos Pobres, atraindo 270 mil pessoas à festa de 13 dias em agosto e recebendo 600 mil visitantes por ano. O santuário no bairro de Roma é geminado com o Cristo Redentor e, em sintonia com Santiago de Compostela, pode compor uma só rota de peregrinação. A reportagem número dois, em Cachoeira, mostrou um fato seguro, além de interpretações: o turismo está longe de ser apenas contemplação; é participativo. Tem também os 13 quilômetros nos passos de Frei Galvão, em Belém de Cachoeira, onde o religioso estudou entre 1752 e 1756. Leia Também: OPINIÃO Ônibus, voto e democracia OPINIÃO Além de Lula e do mal OPINIÃO Democracia ou abismo Outras manifestações de fé com muita gente são a Festa da Ajuda, de 1595, e a da Boa Morte, comandada por mulheres negras iniciadas no candomblé. Como disse o antropólogo Luís Cláudio Nascimento, a religiosidade ganha sentido com as pessoas enchendo as ruas e os templos. A última reportagem, fechando a série publicada n'A TARDE, traz o alicerce de matriz africana: os terreiros. São 7,6 mil, segundo a Federação Nacional dos Cultos Afros Umbandistas do Brasil (Fenacab), a maioria concentrada em 18 municípios do Recôncavo. Na Ilha de Itaparica, o Tuntun Olukotun, de 1850, guarda o culto mais antigo de egungun do país, resistindo à especulação. Mestre Didi, o saudoso Príncipe Deoscoredes, foi o defensor desta prática dedicada a manter os vínculos entre os vivos e seus antepassados. Como define o Tata Muxiki Marcelo Santos, de nação angola, "turismo pode quebrar paradigmas, divulgando o cotidiano e preservando o sagrado". A Baía completa 525 anos em 1º de novembro. Kirimurê, o "grande lago interior" para os índios, é um oceano de fé. Atualizar todo este potencial em circuito integrado de turismo religioso vai gerar emprego sem...

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