Christine Lagarde deixa BCE para “ter liberdade de expressão fora da política monetária”
Christine Lagarde vai abandonar a presidência do Banco Central Europeu (BCE) a 7 de fevereiro, antes do fim do mandato, previsto para outubro, para poder intervir em assuntos que o cargo a impede de abordar.
“Quero ter liberdade de palavra, liberdade de expressão e liberdade para me envolver em questões que não sejam de política monetária”, afirmou esta quinta-feira, na conferência de imprensa após a reunião em que o Conselho do BCE manteve as taxas de juro inalteradas.
A decisão de antecipar a saída foi explicada aos colegas, aos trabalhadores e aos governadores dos bancos centrais com a vontade de deixar de estar sujeita ao dever de neutralidade, revelou Lagarde aos jornalistas.
“Somos guiados por um mandato e não saímos desse mandato porque esse é o preço que pagamos por sermos independentes”, declarou a presidente do BCE, sublinhando que essa obrigação também se aplica aos membros da Comissão Executiva e do Conselho, cuja intervenção se centra na política monetária.
Há coisas que posso dizer; se as pessoas vão ouvir ou não, isso é outra história. Mas sinto que devo dizer essas coisas e não o posso fazer no meu cargo atual.
“Não creio que possa permanecer neutra. Não creio que me possa sentir confortável nessa neutralidade neste momento”, afirmou, referindo-se a acontecimentos em várias partes do mundo, para lá da Europa.
Sem identificar países, responsáveis políticos ou episódios, Lagarde apontou a defesa da verdade como uma das razões para querer intervir publicamente. “Interesso-me pela verdade. E vejo a verdade ser muitas vezes prejudicada, contrariada por deturpações.”
Lagarde invocou a experiência de mais de duas décadas em funções económicas e financeiras, incluindo a liderança do Fundo Monetário Internacional e do BCE, para explicar o contributo que considera poder dar fora da instituição.
“Há coisas que posso dizer. Se as pessoas vão ouvir ou não, isso é outra história. Mas sinto que devo dizer essas coisas e não o posso fazer no meu cargo atual”, afirmou.
A presidente do BCE assegurou ainda que o processo para identificar o seu sucessor já começou e rejeitou que a transição possa comprometer as decisões da instituição.
Até à saída de Frankfurt, Lagarde prevê ainda conduzir as reuniões de política monetária de dezembro e fevereiro.
A presidente do BCE assegurou ainda que o processo para identificar o seu sucessor já começou e rejeitou que a transição possa comprometer as decisões da instituição. “A instituição é sólida, forte”, declarou, depois de garantir que existem “muitos candidatos excelentes”.
O BCE confirmou que Lagarde comunicou a saída ao Conselho e ao presidente do Conselho Europeu, António Costa. Caberá ao Conselho Europeu nomear quem lhe sucederá.