O que é realmente um trauma (e porque não é só stress)



O Governo vai incluir as empresas de transporte não urgente de doentes no âmbito do Decreto-Lei n.º 199/2026, que estabelece um pacote de apoios financeiros extraordinários e temporários para mitigar o aumento dos custos com combustíveis e AdBlue.
Em comunicado, três dias após as empresas privadas de transporte de doentes não urgentes terem ameaçado parar se não forem incluídas nos apoios do Governo por causa do aumento dos combustíveis, assim como terem equacionado uma marcha lenta em Lisboa, o Ministério da Saúde disse reconhecer a importância destas empresas.
“Esta decisão reconhece a importância destas empresas para assegurar o acesso dos utentes aos cuidados de saúde e traduz a preocupação do Governo com o impacto do aumento dos custos de exploração na sustentabilidade da sua atividade e na continuidade de um serviço essencial à população”, lê-se no comunicado de dois parágrafos.
Na quinta-feira, o jornal Público revelou que estas empresas, que há meses reclamam ser incluídas nos apoios extraordinários que têm sido concedidos a diversos setores de atividade, dizem-se discriminadas e lembram que, sem os transportes que garantem, alguns tratamentos podem ficar em risco.
Para chamar a atenção para as dificuldades criadas pelo aumento do preço dos combustíveis, as empresas distribuíram panfletos pelos passageiros, depois de todas as tentativas de contacto com o Governo terem saído frustradas e o último decreto-lei sobre os apoios os ter deixado de fora.
“Da parte do Governo há um silêncio absoluto. Só o gabinete da presidência da República nos recebeu”, lamentou o presidente da Liga Portuguesa de Ambulâncias (LPA), Álvaro Gil, citado pelo Público.
O responsável explicou que o transporte de doentes não urgentes segue preços tabelados em 2023, pelo que as empresas não podem refletir o aumento dos custos no cliente, ou seja, no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Lembrou ainda que o aumento dos preços dos combustíveis, no contexto da crise no Médio Oriente, está também a fazer subir os preços da manutenção dos veículos e dos consumíveis, como é o caso do oxigénio.
Em 2025, o SNS registou mais de quatro milhões de transportes a doentes não urgentes, dos quais cerca de metade feitos por empresas privadas, que concorrem aos concursos abertos pelas unidades de saúde.
A maioria dos transportes são para tratamentos oncológicos ou de hemodiálise, sessões de fisioterapia e consultas, mas estes serviços incluem também transferências entre hospitais e altas clínicas, serviços que podem ficar em causa se estas empresas pararem.
Como forma de pressão, estas empresas admitem fazer uma marcha lenta na próxima semana em Lisboa, se o Governo não abrir uma via de diálogo.
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© INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Abrir a torneira e encontrar uma água aparentemente branca ou leitosa pode levantar dúvidas sobre se existe algum problema com aquilo que vai beber. No entanto, esta alteração visual pode ter uma explicação bastante simples e não significa necessariamente que a água esteja imprópria para consumo.
O aspeto esbranquiçado resulta normalmente da presença de ar dissolvido na água, que origina numerosas microbolhas, segundo esclarece a EPAL. Trata-se de uma situação passageira que, nas condições descritas pela entidade, não altera a qualidade da água.
Quando a pressão existente nas tubagens ou nos reservatórios sofre oscilações, o ar dissolvido pode formar pequenas bolhas. Como são muito numerosas e de reduzida dimensão, fazem com que a água pareça branca logo depois de sair da torneira.
Não se trata, portanto, de uma substância branca misturada na água. O efeito visual é provocado pelo ar e tende a desaparecer pouco depois, à medida que as microbolhas se libertam.
A própria EPAL sugere uma forma simples de observar o fenómeno. Basta encher um copo ou um jarro transparente e deixar a água repousar durante alguns instantes.
À medida que as bolhas desaparecem, a água volta progressivamente a apresentar um aspeto límpido. Esta mudança ajuda a perceber que a tonalidade inicial estava relacionada com o ar presente na água e não com uma alteração permanente da sua cor.
O ar também pode explicar outro comportamento ocasional das torneiras. Depois de uma interrupção no abastecimento ou de um período prolongado sem utilização, como durante umas férias, podem ouvir-se ruídos nas canalizações.
Nessas circunstâncias, a água também pode sair de forma irregular, aos chamados “jorros”. Segundo a mesma entidade, a presença de ar nas tubagens está novamente na origem do fenómeno, sendo aconselhado deixar correr a água durante alguns minutos.
Já um eventual cheiro ou sabor a cloro não está relacionado com as microbolhas. O cloro é utilizado durante o tratamento da água para preservar a sua qualidade microbiológica ao longo do percurso entre as estações de tratamento, a rede de distribuição e as torneiras.
Quando esse cheiro ou sabor se torna percetível, a EPAL recomenda deixar a água repousar durante alguns minutos. A entidade explica que o cloro é utilizado em doses reduzidas, destinadas a manter a proteção microbiológica durante a distribuição.
Nem todas as alterações observadas na água têm origem na rede pública. A idade e o estado de conservação das canalizações existentes dentro dos edifícios, bem como de eventuais equipamentos hidropressores, podem influenciar características como a cor, o cheiro ou o sabor.
A temperatura também pode mudar a perceção do sabor, sendo a água fresca geralmente mais agradável ao paladar. Assim, quando a água sai branca da torneira e recupera rapidamente a transparência depois de repousar, a explicação indicada pela EPAL é a presença temporária de microbolhas de ar, fenómeno que não afeta, de forma individual, a qualidade da água.
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Essa defesa natural ficou no passado. Em 2024, ano em que o Brasil registrou um número recorde de casos da doença, o Rio Grande do Sul teve quase 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes.
Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mostra que isso não ocorre apenas no Rio Grande do Sul. De 2006 a 2024, o número de microrregiões brasileiras com níveis epidêmicos de dengue mais do que dobrou, de 110 para 292, extensão que representa metade do país (54%).
As outras microrregiões (46%) apresentaram incidência de média a baixa, com risco esporádico ou incerto.
A principal explicação para essa mudança está no clima. A pesquisa identificou que a maior frequência de anomalias térmicas é o indicador climático que explica melhor o aumento das taxas de incidência de dengue no longo prazo. O conceito se refere ao registro de temperaturas muito diferentes das habituais em um local por determinado período de tempo.
"O que se observa é que o processo de expansão da área de transmissão da dengue parece ser irreversível. Uma vez introduzidos, o vírus e o vetor, é improvável que se retorne a um cenário de transmissão zero", alertam os autores.
De acordo com o infectologista Celso Granato, membro da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, o espalhamento da dengue é uma das maiores provas de como as mudanças climáticas podem incidir sobre as doenças infecciosas.
A doença tropical tem chegado não somente a regiões mais frias do Brasil, como a países do Hemisfério Norte. Neste momento, a região continental dos Estados Unidos vive o maior surto de dengue da sua história. Casos autóctones também foram registrados neste ano na França e na Itália.
Granato explica que todas as etapas da vida do mosquito transmissor da dengue são afetadas pelo clima.
"Eles colocam ovos com uma casca muito resistente, que podem permanecer por anos na natureza e se romper quando tem umidade e temperatura alta. E esses mosquitos já podem nascer infectados, porque há a transmissão da fêmea para os ovos".
A temperatura também altera o comportamento dos mosquitos já adultos.
"Quando está muito calor, eles têm que bater a asinha mais rapidamente para conseguir voar. Então, eles gastam mais energia e precisam picar mais para se alimentar e acabam transmitindo mais a doença também".
Mas a dengue não é a única doença afetada pelas mudanças climáticas. A febre do Oropouche, que circulava quase exclusivamente na Região Amazônica até 2023, causou mais de 12 mil infecções no ano passado, em 23 estados e no Distrito Federal.
A relação com o clima ainda está sendo investigada, mas especialistas acreditam que mudanças nos padrões de temperatura e chuvas, em conjunto com a degradação ambiental, tenham contribuído para a expansão da doença.
Granato chama atenção ainda para surtos que podem ocorrer após eventos extremos, como secas e enchentes, que têm se tornado mais frequentes com as mudanças climáticas. O alerta aumenta com a previsão de que o Brasil seja afetado pelo fenômeno El Niño, que favorece esses eventos.
"No Rio Grande do Sul, após o desastre das chuvas, aumentou muitas vezes a frequência de leptospirose", exemplifica.
A doença é causada por uma bactéria transmitida principalmente pela urina de ratos, que é espalhada durante enchentes.
"A água da enxurrada também se mistura com o esgoto e pode contaminar a que as pessoas vão beber ou lavar seus alimentos. Há um grande risco de se contaminar com bactérias que causam problemas gastrointestinais e com vírus, como o da hepatite A", complementa o infectologista.
Já as secas representam um perigo diferente e pouco conhecido: "Quando a gente tem incêndio, os animais que dependem da floresta migram para as casas das pessoas que moram perto, principalmente pequenos mamíferos, que têm uma série de doenças que podem passar para o ser humano".
O exemplo mais preocupante é o hantavírus. A cepa que circula no Brasil causa uma síndrome cardiopulmonar bastante grave. Desde 2016, 530 infecções foram confirmadas no país, com 212 mortes, uma taxa de letalidade de 40%.
"A gente tem vários exemplos anteriores, na Bolívia e no Paraguai, por exemplo. Quando ocorrem queimadas, os roedores infectados entram na casa das pessoas e causam essa doença", alerta Granado.
Outra ameaça pouco conhecida é a das doenças fúngicas. Na última edição do Congresso Brasileiro de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial, a professora da Universidade Federal do Espírito Santo Sarah Gonçalves Tavares alertou que as mudanças climáticas estão levando os fungos a se adaptarem e, com isso, alguns passam ser nocivos aos humanos.
"A gente tem uma temperatura corporal média de 37 graus Celsius, e 95% dos fungos que estão no ambiente não conseguem crescer nessa temperatura. Mas a temperatura do meio-ambiente tem aumentado, e os fungos estão se adaptando a isso. Então, essa barreira que a gente tem acaba sendo rompida".
A professora explica que a mudança de temperatura é uma das "engrenagens" desse processo, assim como o aumento de raios ultravioleta e outras alterações ecológicas, que se somam e propiciam a emergência de determinados fungos como patológicos.
"A gente tem micro-organismos que estavam no meio-ambiente e não eram causadores de doenças em seres humanos, mas eles foram se adaptando a vários tipos de estresse ao longo do tempo e começaram a surgir, principalmente, em pacientes em tratamento intensivo".
O maior exemplo é a Candida auris, identificada pela primeira vez na década de 1990 em áreas alagadas de países asiáticos, depois em regiões rurais e, por fim, em cidades. Ele apresenta duas características muito perigosas: consegue sobreviver em altas temperaturas e resistir por muito tempo no meio ambiente.
"Uma pessoa sadia dificilmente vai desenvolver uma infecção por esse tipo de fungo, mas os pacientes imunodeprimidos são vulneráveis", complementa Sarah. Por isso, os surtos de Candida auris têm acontecido em unidades hospitalares, com letalidade entre 40 e 60%".
O primeiro registro de infecção pelo fungo no Brasil foi em 2020, na Bahia. De lá para cá, foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde. Dos 146 pacientes colonizados, 56 morreram. Quando o fungo chegou a corrente sanguínea, provocando infecção generalizada, a letalidade chegou a 82%.
Um exemplo mais recente é o Trichophyton indotineae, uma espécie de fungo que causa problemas de pele, identificada pela primeira vez em 2022.
"Ele já emergiu com resistência a antifúngicos, porque provavelmente estava exposto a isso no meio ambiente, e o remédio acaba selecionando cepas isoladas que são resistentes", conta a professora da Ufes.
Fungos resistentes não respondem aos tratamentos tradicionais, logo, são muito mais difíceis de serem combatidos. As mudanças climáticas também interferem indiretamente nesse processo: eventos extremos aumentam a vulnerabilidade das plantações, o que leva os agricultores a aplicarem mais fungicidas, acelerando a seleção de cepas resistentes.
Alterações ambientais causadas pelo clima também podem contribuir para a dispersão de fungos que normalmente existem em áreas delimitadas. Um exemplo é o Aspergillus, que se desenvolve melhor em regiões quentes e úmidas, e tem avançado para outros lugares, após mudanças nos padrões de temperatura e umidade, inclusive no Brasil.


O cancro do cólon e recto (CCR) é o terceiro cancro mais frequente e a segunda causa de morte por cancro a nível mundial. Em Portugal, o é o tipo de cancro mais frequente em ambos os sexos, com mais de 10 000 novos casos por ano. Em média, todos os dias, 11 portugueses perdem a vida devido à doença. Embora ocorra maioritariamente em indivíduos com idade superior a 50 anos, tem-se registado um aumento da sua incidência em adultos jovens.
Quando detetado atempadamente, este cancro é tratável, apresentando uma taxa de sobrevivência de 90% aos cinco anos após o diagnóstico. Em caso de diagnóstico mais tardio, a taxa de sobrevivência global aos cinco anos cai para cerca de 50%. A implementação de programas de rastreio contribui para a redução da sua incidência e mortalidade, uma vez que deteta um número superior de cancros em fase mais precoce e diminui a incidência da doença ao possibilitar a remoção de lesões precursoras.
O rastreio do CCR é realizado através de diferentes exames e estratégias, dependendo do perfil de risco do indivíduo e dos recursos disponíveis, sendo os mais utilizados a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia. A colonoscopia é o método gold standard no rastreio do CCR, uma vez que combina diagnóstico e intervenção terapêutica, possibilitando a colheita de biópsias e a remoção imediata de lesões pré-cancerosas (pólipos).
Em Portugal, o programa de rastreio de base populacional destina-se a pessoas dos 50 aos 74 anos, sem critérios de risco acrescido. O método utilizado é um teste imunoquímico de pesquisa de sangue oculto nas fezes. Perante um resultado positivo o doente tem indicação para realização de colonoscopia.
Na última década, devido ao aumento de diagnósticos em idades mais jovens, as sociedades internacionais têm mudado a sua posição, recomendando que o rastreio seja iniciado aos 45 anos.
Em pessoas com risco aumentado de CCR (doença inflamatória intestinal, alterações genéticas que conferem risco acrescido de cancro, história pessoal ou familiar de pólipos ou CCR), o rastreio é habitualmente realizado por colonoscopia, com início e periodicidade individualizadas.
O CCR pode desenvolver-se durante anos sem provocar sintomas. Sintomas como dor abdominal, sangue nas fezes, perda de peso, alterações no trânsito intestinal, cansaço persistente, nomeadamente associado a anemia, devem motivar avaliação médica.
Os fatores de risco para o desenvolvimento do CCR incluem fatores não modificáveis (sexo masculino, idade superior a 50 anos, doença inflamatória do intestino, antecedentes pessoais de CCR ou pólipos do cólon e história familiar) e fatores modificáveis, relacionados com os hábitos e estilo de vida, nomeadamente o consumo excessivo de carne vermelha e processada, uma dieta pobre em frutas e vegetais, o sedentarismo, a obesidade, os hábitos tabágicos e o consumo excessivo de álcool. O World Cancer Research Fund concluiu que 47% de todos os CCR poderiam ser prevenidos pela adoção de um melhor estilo de vida, nomeadamente com alimentação rica em hortícolas, fruta, leguminosas e cereais integrais, a prática regular de atividade física e a manutenção de um peso saudável.
Apesar dos benefícios comprovados do rastreio, de acordo com dados da DGS de 2024, apenas cerca de metade da população aderiu ao rastreio proposto. É, por isso, importante reforçar a informação e a participação da população, assegurar o acesso atempado ao rastreio e garantir que os resultados positivos são seguidos da investigação necessária e, quando indicado, de tratamento.
O CCR representa um importante problema de saúde pública, mas existem medidas eficazes para reduzir o seu impacto. Participar no rastreio na idade recomendada, identificar pessoas com risco acrescido, reconhecer os sinais de alerta e adotar hábitos de vida saudáveis são passos fundamentais para a prevenção e diagnóstico precoce do CCR.
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