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‘Ela poderia ter se safado do assassinato’: A ciência perigosa por trás da Rainha do Crime

Antes de Agatha Christie se tornar uma das autoras mais vendidas de todos os tempos, ela trabalhou em uma farmácia em sua cidade natal, Torquay, na Inglaterra, a serviço de alguém a quem ela se referiu em suas memórias apenas como Sr. P.

O Sr. P carregava um pedaço escuro de curare no bolso — um veneno que pode paralisar e matar rapidamente. Ele andava com ele porque o fazia “sentir-se poderoso”, escreveu ela em “Agatha Christie: Uma Autobiografia”. Christie não pôde deixar de notar que, apesar da “aparência angelical” do Sr. P, tais comportamentos poderiam torná-lo um “homem perigoso”.

Em outra ocasião, a mente perspicaz de Christie percebeu um erro que o Sr. P cometeu enquanto lhe mostrava como infundir medicamentos em supositórios, adicionando inadvertidamente 10 vezes a dosagem necessária.

Ao perceber que o Sr. P não daria ouvidos a uma “menininha” que lhe apontasse o erro, Christie teve a ideia genial de derramar o remédio no chão e “pisá-lo com força” para impedir que a droga perigosa fosse colocada nas prateleiras da loja, como ela relatou em suas memórias.

A faísca para os envolventes romances policiais de Christie surgiu nesse ambiente inesperadamente sinistro, enquanto a Primeira Guerra Mundial assolava o mundo. Ao longo de sua vida, ela desenvolveu um profundo conhecimento da ciência dos venenos, o que a ajudou a deixar um legado duradouro no mundo literário e além.

Após deixar a loja do Sr. P, Christie começou a se formar como farmacêutica no hospital de Torquay em 1916. Foi então que a semente de uma história começou a germinar em sua mente. Um livro didático chamado “The Pharmaceutical Pocket Book — for Practitioners & Students” (O Manual de Bolso Farmacêutico — para Profissionais e Estudantes), que ela leu em preparação para seus exames, inspirou a arma do crime em seu romance de estreia de 1920, “The Mysterious Affair at Styles” (O Misterioso Caso de Styles): estricnina, uma neurotoxina antes usada em doses mínimas como estimulante, combinada com outras drogas para matar a vítima.

Agora, os visitantes podem ver seu exemplar pessoal do livro de bolso — com manchas misteriosas e a inscrição “A. Christie” rabiscada no canto superior direito — em uma nova exposição intitulada “ Agatha Christie: Um Mundo de Mistério ”.

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Exemplar do livro didático que Christie usou durante seu treinamento como auxiliar de farmácia na Primeira Guerra Mundial • The Christie Archive Trust

A exposição, que será inaugurada em 30 de outubro na Biblioteca Britânica em Londres, marca a primeira vez que o pequeno livro e muitos dos mais de 200 itens compartilhados por sua família e fundação serão exibidos ao público, afirmou a curadora principal da exposição, Lucy Rowland.

O livro didático foi um dos muitos artefatos que revelaram a quantidade de pesquisa que Christie realizou em seu trabalho — e uma prova tangível de que a autora tinha um profundo conhecimento de medicamentos e misturas químicas mortais, disse Rowland.

As descrições precisas de venenos feitas por Christie, que servem como arma do crime em 41 de seus 66 romances policiais, ainda são válidas hoje em dia.

“Era muito fácil ler Christie na adolescência sem perceber que estava aprendendo ciência”, disse a Dra. Kathryn Harkup, ex-química e autora de “A de Arsênico: Os Venenos de Agatha Christie”. “É a comunicação científica disfarçada em seu auge. A trama, a habilidade técnica necessária para transmitir ideias científicas complexas de uma forma imperceptível — meu Deus, isso é um talento.”

E suas histórias de mistério e assassinato, baseadas em princípios científicos, podem até ter ajudado a solucionar crimes reais: seus primeiros trabalhos com o Sr. P, em particular, inspiraram diretamente obras posteriores que poderiam ter evitado casos de envenenamento.

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Christie aparece vestindo seu uniforme de enfermeira do Destacamento de Auxílio Voluntário durante a Primeira Guerra Mundial • The Christie Archive Trust

Christie por trás da fachada

Christie continua sendo a rainha indiscutível do crime 50 anos após sua morte — e uma espécie de enigma.

Publicamente, Christie manteve-se humilde, referindo-se a si mesma como uma “máquina de salsichas”, com a expectativa de produzir um sucesso atrás do outro para suas editoras.

“Tudo isso faz parte da construção dessa persona que não ameaça nem assusta o público”, disse a Dra. Jamie Bernthal-Hooker, especialista em Christie e professora visitante de inglês e escrita criativa na Universidade de Suffolk, no Reino Unido. “Mesmo hoje, as pessoas têm medo de mulheres inteligentes e poderosas. Eu gosto de dizer que sua maior criação ficcional foi Agatha Christie.”

Novas pesquisas, como a exposição da Biblioteca Britânica, estão proporcionando novas perspectivas sobre a mulher aventureira que acompanhou as mudanças radicais de sua época, de 1890 a 1976.

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A exposição inclui vislumbres surpreendentes da vida de Christie, incluindo sua paixão pelo surfe • The Christie Archive Trust

“Durante os primeiros 11 anos de sua vida, a Rainha Vitória estava no trono”, disse o Dr. Mark Aldridge, historiador de Agatha Christie e professor associado de história do cinema na Universidade de Southampton Solent, no Reino Unido. “Quando ela começou a escrever seus livros no final da década de 60, presenciou a chegada do homem à Lua. Sempre defendi que, se ela tivesse vivido mais alguns anos e assistido a ‘Guerra nas Estrelas’ em 1977, teria escrito ‘Assassinato no Espaço’, porque adorava novidades.”

Embora Christie não tivesse uma educação formal, sua curiosidade e natureza observadora guiavam sua visão de mundo. Ela também tinha uma imaginação vívida, provavelmente por vir de uma família de contadores de histórias que adoravam viajar, disse seu bisneto James Prichard, presidente e CEO da Agatha Christie Limited, empresa que administra os direitos de suas obras. Literatura, teatro e ópera alimentaram ainda mais seu interesse em criar suas próprias histórias.

Páginas do álbum de fotos de Christie registram sua viagem ao Cairo, Egito, como debutante, entre 1907 e 1908 • The Christie Archive Trust

Antes de se tornar uma autora publicada e trabalhar em farmácia, Christie começou como enfermeira voluntária aos 24 anos, tratando soldados feridos no Hospital da Cruz Vermelha de Torquay em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Com o marido lutando na guerra, Christie sentiu-se motivada a ajudar da maneira que pudesse.

Ela teve que aprender na prática, passando rapidamente de enrolar ataduras a cuidar de soldados feridos. Christie admite em suas memórias que se sentiu “envergonhada” por ter desmaiado ao ver sangue e ferimentos na primeira vez que presenciou uma cirurgia, mas isso não se repetiria. Christie aprendeu a se fortalecer e desviava o olhar durante as incisões com bisturi.

Ela gostava tanto de enfermagem que Christie refletiu que, se não tivesse se casado, provavelmente teria se “formado como enfermeira de hospital de verdade” depois da guerra. Em 1916, ela mudou de rumo e passou a aprender a preparar medicamentos para ajudar a farmácia, que estava com falta de pessoal.

As percepções de Christie, fruto de suas ricas experiências de vida, são sutilmente, mas com maestria, entrelaçadas em seus romances e ajudaram a consolidar a autora como uma gênia à frente de seu tempo.

Especificamente, Christie aprimorou sua atenção aos detalhes durante seu extenso treinamento em farmácia para o Exame de Assistente da Sociedade de Boticários em 1917. Certa noite, após acordar em pânico, ela correu de volta para a farmácia do Hospital Torquay, preocupada por ter contaminado acidentalmente uma pomada durante os preparativos da tarde. Ela verificou cada pote de pomada para ter certeza, de acordo com suas memórias.

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Anotações de estudo de Christie para seu exame de farmácia, realizado em 1917 • The Christie Archive Trust

Essa experiência em primeira mão se manifesta em seu romance de estreia, “The Mysterious Affair at Styles”, quando a personagem Cynthia Murdoch, uma voluntária da farmácia, diz: “Se vocês soubessem como é fatalmente fácil envenenar alguém por engano, não fariam piada com isso.”

Caneta envenenada

Christie percebeu que havia uma linha tênue entre a natureza benéfica e prejudicial dos medicamentos. Medir ou misturar um medicamento incorretamente poderia transformar uma cura que salva vidas em uma substância letal, como os visitantes da exposição podem constatar ao percorrerem uma simulação de farmácia.

Em exposição, um poema de 1925 escrito com tinta azul, intitulado “Na Farmácia”, também reflete seus pensamentos sobre esse equilíbrio perigoso: “Aqui há ameaça, assassinato e morte súbita — nestes frascos verdes e azuis”.

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A exposição apresenta frascos de diferentes medicamentos que, na época de Christie, poderiam facilmente ser considerados venenos se usados ​​de forma inadequada ou em altas doses • Grupo do Museu de Ciências

Como escritora de ficção, Christie não era obrigada a ser precisa, mas se esforçava muito para evitar erros em suas obras — e essa expertise transparecia em sua escrita sem floreios adicionais. Outras autoras contemporâneas de romances policiais, como Dorothy L. Sayers, frequentemente incluíam detalhes supérfluos para demonstrar que haviam feito a pesquisa necessária, mas Christie não, disse Harkup.

A crítica ao primeiro romance de Christie que mais a agradou foi publicada no “The Pharmaceutical Journal”, que celebrou seu conhecimento e uso da estricnina, em vez de substâncias fictícias e indetectáveis ​​que eram frequentemente culpadas por crimes em outras histórias. “A senhorita Agatha Christie sabe o que faz”, escreveu o crítico.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Christie — que já era uma autora bastante conhecida — voltou a estudar para trabalhar na farmácia do University College London, onde o farmacêutico-chefe Harold Davis sugeriu o uso de tálio como veneno em um de seus romances.

Christie e seu segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan, são vistos a bordo de um barco a vapor no Nilo em 1931 • The Christie Archive Trust

Christie associou a recomendação às suas observações anteriores sobre o Sr. P, que serviu de inspiração para o farmacêutico nefasto em seu romance de 1961, “O Cavalo Pálido”.

A trama gira em torno da ciência versus superstição, disse Aldridge, da Universidade de Southampton Solent, que analisou o livro com o também escritor e podcaster Gray Robert Brown em um podcast e no livro a ser lançado ” The Swinging Christies “. A vítima em “O Cavalo Pálido” parece ter sido amaldiçoada por bruxas, mas, atenção para o spoiler, na verdade é morta lentamente com um veneno incomum: o tálio.

Apelidada de “veneno do envenenador”, essa substância tóxica insípida e inodora age lentamente e imita o potássio no corpo, tornando-a difícil de detectar — até que seja tarde demais.

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Christie auxiliou Mallowan em suas escavações na Síria e no Iraque, aprendendo fotografia para documentar artefatos • The Christie Archive Trust

No livro, duas mulheres brigam e chegam a puxar os cabelos uma da outra. Uma delas perde uma grande quantidade de cabelo pela raiz — e morre pouco depois. É uma pista sobre os acontecimentos sinistros do romance e o culpado: o envenenamento por tálio causa queda de cabelo.

O uso que Christie faz do tálio no romance é tão preciso que lhe é atribuído o mérito de ter salvado a vida de duas pessoas.

Ela recebeu, por exemplo, uma carta em 1975 de uma jovem da América do Sul, que disse que a leitura de “O Cavalo Pálido” a levou a perceber que um conhecido estava sendo envenenado lentamente pela esposa, disse Harkup.

“Mas disto tenho absoluta certeza: se eu não tivesse lido O Cavalo Pálido e, assim, aprendido sobre os efeitos do envenenamento por tálio, X não teria sobrevivido”, diz a carta, citada no livro de Harkup, “A de Arsênico”. “Foi apenas a medicação imediata que o salvou; e os médicos, mesmo que ele tivesse ido ao hospital, não teriam descoberto a tempo qual era o problema.”

Após a morte de Christie, uma enfermeira londrina chamada Marsha Maitland, que também leu o romance, conseguiu identificar os sintomas de envenenamento por tálio em uma criança doente de 19 meses em 1977.

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Christie, vista aos 50 anos, acompanhou as mudanças do mundo ao seu redor • The Christie Archive Trust

A jovem que adoeceu misteriosamente foi levada para Londres, onde Maitland sugeriu que os estranhos sintomas coincidiam com os descritos em “O Cavalo Pálido”. A presença de tálio, um ingrediente de um inseticida usado para matar pragas na casa da criança, foi confirmada por meio de exame de urina — a bebê o havia ingerido acidentalmente. Com o tratamento, a criança se recuperou completamente em quatro meses.

Os médicos que acompanharam o bebê publicaram um artigo sobre o caso ainda naquele ano, que incluía um agradecimento que dizia: “Somos gratos à falecida Agatha Christie por suas excelentes e perspicazes descrições e à enfermeira Maitland por nos manter atualizados sobre a literatura.”

Um gênio discreto

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A máquina de escrever Remington de Christie, de 1937, funcionava como um laptop, permitindo que ela escrevesse a partir de sítios arqueológicos • The Christie Archive Trust

Após a Segunda Guerra Mundial, Christie nunca mais trabalhou em uma farmácia, mas manteve-se atualizada com o mundo da medicina, que mudava rapidamente, por meio da leitura e da comunicação com um impressionante grupo de especialistas. Suas histórias na década de 1960 chegaram a mencionar drogas recreativas cada vez mais populares.

“Ela sabe o que está fazendo. Ela poderia ter se safado do assassinato se quisesse”, disse Aldridge.

Em vez de depender de pistas que são silenciosamente reunidas fora das páginas ou dentro da mente de um detetive como Sherlock Holmes, os leitores de Christie sempre têm à disposição todos os fatos necessários para solucionar o caso.

“Ela sempre joga limpo com seus leitores, só que em um nível diferente do nosso, meros mortais”, disse Harkup. “Você deveria ser capaz de decifrar. Mas provavelmente não vai.”

Seus crimes são higienizados — raramente se mencionam fluidos corporais em suas páginas. Mas o veneno, que tantas vezes serviu como arma letal em seus livros, forneceu a Christie um intrigante arsenal literário para assassinos.

“Sentar, pensar, planejar, adquirir e administrar um veneno, e depois esperar que ele faça efeito, é um nível extra de maldade que, acredito, nos fascina”, disse Harkup.

Na prosa aparentemente simples de Christie, escondem-se indícios de quão profundamente ela compreendia as melhores e piores nuances da natureza humana, explicou a Dra. Michelle Kazmer, reitora da Faculdade de Comunicação e Informação e professora da Escola de Informação da Universidade Estadual da Flórida.

“Agatha Christie tinha muito a dizer sobre os grandes conceitos do que significa ser humano e, de uma forma multifacetada, abordou questões de amor, justiça, bem e mal”, disse Kazmer, que também estudou a obra de Christie.

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De acordo com o Guinness World Records, Christie é reconhecida como a autora mais traduzida de todos os tempos • The Christie Archive Trust

Ao lado de seus cenários de envenenamento cientificamente plausíveis, inúmeros médicos e farmacêuticos aparecem nos romances de Christie — às vezes como vítimas, outras vezes como assassinos — mostrando como seus primeiros contatos com o mundo da medicina nunca saíram de sua mente.

“Você não é bom nessas coisas a menos que tenha algum tipo de interesse”, disse Prichard, bisneto de Christie. “Não acho que ela tenha entrado no hospital no início da Primeira Guerra Mundial sabendo que se interessaria por isso, mas acho que esse interesse cresceu. E permaneceu com ela por toda a vida.”

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De farmacêutica a “rainha do crime”: a ciência por trás de Agatha Christie

Antes de se tornar uma das autoras mais vendidas de todos os tempos, Agatha Christie trabalhou em uma farmácia em sua cidade natal, Torquay, na Inglaterra, a serviço de alguém a quem ela se referiu em suas memórias apenas como Sr. P.

O Sr. P. carregava no bolso um pedaço escuro de curare, um veneno capaz de paralisar e matar rapidamente. Ele andava com a substância porque ela o fazia “se sentir poderoso”, escreveu ela em “Agatha Christie: Uma Autobiografia”. Christie não pôde deixar de notar que, apesar da “aparência angelical” do Sr. P., esse tipo de comportamento poderia torná-lo um “homem perigoso”.

 

 

Em outra ocasião, a mente afiada de Christie percebeu um erro cometido pelo Sr. P. enquanto ele lhe mostrava como incorporar medicamentos a supositórios e, sem querer, acrescentou uma dose 10 vezes maior do que a necessária.

Ao perceber que o Sr. P. não daria ouvidos a uma “garotinha” que apontasse seu erro, Christie teve a ideia astuta de derramar o medicamento no chão e “pisar nele com firmeza” para impedir que a droga perigosa fosse colocada nas prateleiras da loja, segundo suas memórias.

A centelha para os envolventes romances policiais de Christie surgiu nesse ambiente inesperadamente sinistro, enquanto a Primeira Guerra Mundial se desenrolava ao fundo. Ao longo da vida, ela construiria um profundo conhecimento da ciência dos venenos, que a ajudou a deixar um legado duradouro no mundo literário e além dele.

Depois que Christie deixou a loja do Sr. P., ela começou a se formar como farmacêutica no hospital de Torquay, em 1916. Foi aí que a semente de uma história começou a germinar em sua mente. Um livro didático chamado “The Pharmaceutical Pocket Book — for Practitioners & Students” (“O Livro de Bolso Farmacêutico — para Profissionais e Estudantes”, em tradução livre), que ela leu para se preparar para as provas, inspirou a arma do crime em seu romance de estreia, de 1920, “O Misterioso Caso de Styles”: a estricnina, uma neurotoxina que já foi usada em doses minúsculas como estimulante, combinada com outras drogas para matar a vítima.

Agora, os visitantes podem ver seu exemplar pessoal do livro de bolso, com manchas misteriosas e “A. Christie” rabiscado no canto superior direito, em uma nova exposição, “Agatha Christie: A World of Mystery” (“Agatha Christie: Um Mundo de Mistério”, em tradução livre).

Com abertura em 30 de outubro na Biblioteca Britânica, em Londres, a exposição marca a primeira vez que o pequeno livro — e muitos dos mais de 200 itens cedidos por sua família e pelo espólio — estarão expostos ao público, segundo a curadora-chefe da mostra, Lucy Rowland.

O livro didático era um dos muitos artefatos que revelam o quanto de pesquisa havia no trabalho de Christie, e uma prova concreta de que a autora tinha um profundo entendimento de medicamentos e misturas químicas mortais, afirma Rowland.

As descrições precisas de venenos feitas por Christie, que servem de arma do crime em 41 de seus 66 romances policiais, continuam válidas até hoje.

“Era muito fácil ler Christie na adolescência e não perceber que eu estava aprendendo ciência”, diz Kathryn Harkup, ex-química e autora de “A Is for Arsenic: The Poisons of Agatha Christie” (“A de Arsênico: Os Venenos de Agatha Christie”, em tradução livre). “É comunicação científica furtiva no seu auge. A trama, a habilidade técnica necessária para transmitir ideias científicas complexas de um jeito que você nem percebe… Meu Deus, que talento.”

E suas histórias de mistério e assassinato, com base científica, podem até ter ajudado a resolver crimes reais: seus primeiros dias trabalhando com o Sr. P., em particular, inspiraram diretamente obras posteriores que podem ter evitado casos de envenenamento.

Christie por trás da fachada

Christie continua sendo a rainha incontestável do crime 50 anos após sua morte, e também uma espécie de enigma.

Publicamente, Christie se mantinha humilde, referindo-se a si mesma, em frase famosa, como uma “máquina de salsichas”, da qual se esperava que produzisse sucesso após sucesso para seus editores.

“Tudo isso faz parte da construção dessa persona que não ameaça nem assusta o público”, afirma Jamie Bernthal-Hooker, estudioso de Christie e pesquisador visitante de inglês e escrita criativa da Universidade de Suffolk, no Reino Unido. “Ainda hoje, as pessoas têm medo de mulheres inteligentes e poderosas. Gosto de dizer que a maior criação ficcional dela foi Agatha Christie.”

Novas explorações, como a exposição da Biblioteca Britânica, estão trazendo novas percepções sobre essa mulher aventureira, que acompanhou as mudanças radicais de sua época, de 1890 a 1976.

“Nos primeiros 11 anos da vida dela, a rainha Vitória está no trono”, diz Mark Aldridge, historiador de Christie e professor associado de histórias da tela na Universidade Southampton Solent, no Reino Unido. “Quando ela está escrevendo seus livros no fim dos anos 1960, vê a chegada do homem à Lua. Sempre defendi que, se ela tivesse vivido mais alguns anos e visto ‘Star Wars’, em 1977, teria escrito ‘Assassinato no Espaço’, porque amava as novidades.”

Embora Christie não tivesse educação formal, sua curiosidade e seu espírito observador guiaram a forma como ela enxergava o mundo. Ela também tinha uma imaginação fértil, provavelmente por vir de uma família de contadores de histórias que adoravam viajar, segundo seu bisneto James Prichard, presidente e CEO da Agatha Christie Limited, empresa que administra os direitos de suas obras. A literatura, o teatro e as óperas alimentaram ainda mais seu interesse em criar histórias próprias.

Antes de se tornar uma autora publicada e de trabalhar em farmácia, Christie foi inicialmente voluntária como enfermeira aos 24 anos e cuidou de soldados feridos no Hospital da Cruz Vermelha de Torquay em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial. Com o marido na guerra, Christie sentiu-se motivada a ajudar da forma que pudesse.

Ela precisou aprender na prática, passando rapidamente de enrolar bandagens a cuidar de soldados feridos. Christie admite em suas memórias que se sentiu “desonrada” por ter ficado tonta ao ver sangue e ferimentos na primeira vez que presenciou uma cirurgia, mas isso não voltaria a acontecer. Christie aprendeu a se fortalecer e desviava o olhar durante as incisões com bisturi.

Ela gostou tanto da enfermagem que Christie chegou a refletir que, se não tivesse se casado, provavelmente teria “se formado como uma verdadeira enfermeira hospitalar” depois da guerra. Em 1916, ela mudou de área para aprender a preparar medicamentos e ajudar a farmácia, que estava com falta de pessoal.

As percepções de Christie, extraídas de suas ricas experiências de vida, estão sutil e habilmente entrelaçadas em seus romances e ajudaram a consolidar a autora como uma gênia à frente de seu tempo.

Em especial, Christie aprimorou sua atenção aos detalhes durante o extenso treinamento em farmácia para o Exame de Assistente da Sociedade dos Boticários, em 1917. Certa noite, ao acordar em pânico, ela correu de volta à farmácia do Hospital de Torquay, preocupada por ter contaminado acidentalmente uma pomada durante os preparos da tarde. Ela verificou cada um dos potes de pomada só para ter certeza, segundo suas memórias.

Essa experiência pessoal aparece em seu romance de estreia, “O Misterioso Caso de Styles”, quando a personagem Cynthia Murdoch, voluntária em uma farmácia, diz: “Se vocês soubessem como é fatalmente fácil envenenar alguém por engano, não fariam piada com isso.”

Caneta envenenada

Havia uma linha tênue, Christie percebeu, entre a natureza benéfica e a prejudicial dos medicamentos. Medir ou misturar um medicamento de forma inadequada poderia transformar uma cura que salva vidas em uma substância letal, como os visitantes da exposição podem constatar ao passar por uma farmácia cenográfica.

Em exibição, um poema de 1925 escrito em tinta azul, intitulado “Na Farmácia”, também reflete suas ideias sobre esse equilíbrio perigoso: “Aqui há ameaça, e assassinato e morte súbita — nestes frascos de verde e azul.”

A exposição apresenta frascos de diferentes medicamentos que, na época de Christie, poderiam facilmente ser considerados venenos se usados ​​de forma inadequada ou em altas doses
A exposição apresenta frascos de diferentes medicamentos que, na época de Christie, poderiam facilmente ser considerados venenos se usados ​​de forma inadequada ou em altas doses • Grupo do Museu de Ciências

Como escritora de ficção, Christie não era obrigada a ser precisa, mas tinha o maior cuidado para evitar quaisquer erros em suas obras, e esse conhecimento transparecia em sua escrita sem floreios adicionais. Outros autores de crime contemporâneos, como Dorothy L. Sayers, muitas vezes incluíam detalhes supérfluos para mostrar que haviam feito a lição de casa, mas Christie não, diz Harkup.

A resenha de seu primeiro romance que mais agradou a Christie foi publicada no “The Pharmaceutical Journal”, que elogiou seu conhecimento e seu uso da estricnina, em vez de substâncias fictícias e indetectáveis que tantas vezes eram culpadas pelos crimes em outras histórias. “A senhorita Agatha Christie conhece seu ofício”, escreveu o resenhista.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Christie, já uma autora conhecida, estudou novamente para trabalhar na farmácia do University College London, onde o farmacêutico-chefe Harold Davis sugeriu o uso do tálio como veneno em um de seus romances.

Christie combinou a recomendação com suas observações anteriores sobre o Sr. P., que serviu de inspiração para o farmacêutico perverso em seu romance de 1961, “O Cavalo Amarelo”.

O enredo gira em torno da ciência contra a superstição, segundo Aldridge, da Universidade Southampton Solent, que analisou o livro com o colega escritor e podcaster Gray Robert Brown em um podcast e no futuro livro “The Swinging Christies”. A vítima de “O Cavalo Amarelo” parece ter sido amaldiçoada por bruxas, mas, alerta de spoiler, na verdade é morta lentamente com um veneno incomum: o tálio.

Apelidado de “veneno do envenenador”, a substância tóxica, insípida e inodora, age lentamente e imita o potássio no organismo, o que dificulta sua detecção, até que seja tarde demais.

Christie auxiliou Mallowan em suas escavações na Síria e no Iraque, aprendendo fotografia para documentar artefatos
Christie auxiliou Mallowan em suas escavações na Síria e no Iraque, aprendendo fotografia para documentar artefatos • The Christie Archive Trust

No livro, duas mulheres brigam e puxam os cabelos uma da outra. Uma delas perde uma grande quantidade de cabelo pela raiz e morre pouco depois. É uma pista sobre os acontecimentos sinistros do romance e sobre o culpado: o envenenamento por tálio causa queda de cabelo.

O uso do tálio por Christie no romance é tão preciso que foi creditado por ter salvado a vida de duas pessoas.

Ela recebeu uma carta em 1975 de uma jovem da América do Sul, por exemplo, que dizia que a leitura de “O Cavalo Amarelo” a fez perceber que um conhecido estava sendo envenenado lentamente pela esposa, conta Harkup.

“Mas disto tenho absoluta certeza: se eu não tivesse lido ‘O Cavalo Amarelo’ e, assim, aprendido sobre os efeitos do envenenamento por tálio, X não teria sobrevivido”, diz a carta, conforme citada no livro de Harkup, “A Is for Arsenic”. “Foi apenas o tratamento imediato que o salvou; e os médicos, mesmo que ele tivesse ido ao hospital, não teriam sabido a tempo qual era o problema.”

Após a morte de Christie, uma enfermeira londrina chamada Marsha Maitland, que também havia lido o romance, conseguiu identificar os sintomas de envenenamento por tálio em uma criança doente de 19 meses, em 1977.

A menina, que adoeceu misteriosamente, foi levada a Londres, onde Maitland sugeriu que os estranhos sintomas coincidiam com os descritos em “O Cavalo Amarelo”. O tálio, ingrediente de um inseticida usado para matar pragas na casa da criança, foi confirmado por exame de urina: o bebê o havia ingerido acidentalmente. Com o tratamento, a criança se recuperou totalmente em quatro meses.

Os médicos responsáveis pelo bebê publicaram um artigo sobre o caso naquele mesmo ano, que incluía um agradecimento com os seguintes dizeres: “Somos gratos à falecida Agatha Christie por suas excelentes e perspicazes descrições e à enfermeira Maitland por nos manter atualizados sobre a literatura.”

Uma gênia silenciosa

A máquina de escrever Remington de Christie, de 1937, funcionava como um laptop, permitindo que ela escrevesse a partir de sítios arqueológicos
A máquina de escrever Remington de Christie, de 1937, funcionava como um laptop, permitindo que ela escrevesse a partir de sítios arqueológicos • The Christie Archive Trust

Depois da Segunda Guerra Mundial, Christie nunca mais trabalhou em uma farmácia, mas acompanhou o mundo em rápida transformação da medicina por meio de leituras e da comunicação com um impressionante grupo de especialistas. Suas histórias da década de 1960 chegaram a incluir menções a drogas recreativas cada vez mais populares.

“Ela sabe o que está fazendo. Poderia ter escapado impune” de um assassinato, se quisesse, diz Aldridge.

Em vez de depender de pistas reunidas silenciosamente fora das páginas ou dentro da mente de um detetive como Sherlock Holmes, os leitores de Christie sempre recebem todos os fatos necessários para resolver o caso.

“Ela sempre joga limpo com seus leitores, só que joga em um nível diferente do resto de nós, meros mortais”, diz Harkup. “Você deveria ser capaz de descobrir. Mas provavelmente não vai.”

Seus crimes são higienizados: raramente há menção a fluidos corporais nas páginas. Mas o veneno, que tantas vezes serviu de arma mortal em seus livros, deu a Christie um arsenal literário intrigante para os assassinos.

“Sentar, pensar, planejar, adquirir e administrar um veneno e depois esperar que ele faça efeito é um nível extra de maldade que acho que nos fascina”, afirma Harkup.

Escondidas na prosa enganosamente simples de Christie estão pistas de quão profundamente ela entendia as melhores e as piores nuances da natureza humana, explica Michelle Kazmer, reitora da Faculdade de Comunicação e Informação e professora da Escola de Informação da Universidade do Estado da Flórida.

“Agatha Christie tinha mais a dizer sobre os grandes conceitos do que significa ser humano e, de maneira muito multifacetada, abordou questões como amor, justiça, bem e mal”, diz Kazmer, que também estudou a obra de Christie.

De acordo com o Guinness World Records, Christie é reconhecida como a autora mais traduzida de todos os tempos
De acordo com o Guinness World Records, Christie é reconhecida como a autora mais traduzida de todos os tempos • The Christie Archive Trust

Ao lado de seus cenários de envenenamento cientificamente críveis, vários médicos e farmacêuticos aparecem nos romances de Christie, às vezes como vítimas, outras vezes como assassinos, mostrando como seus primeiros contatos com o mundo da medicina nunca saíram de sua mente.

“Você não é bom nessas coisas se não tiver algum tipo de interesse”, afirma Prichard, bisneto de Christie. “Não acho que ela tenha entrado no hospital no começo da Primeira Guerra Mundial sabendo que se interessaria, mas acho que esse interesse cresceu. E permaneceu com ela pela vida toda.”

Agatha Christie: 5 livros para conhecer a obra da “rainha do crime”

 

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Diccionario Enrique Vila-Matas

Enrique Vila-Matas, Premio Nacional de las Letras Españolas de 2026.

A de La asesina ilustrada: la novela nació de la idea de un libro que mata a todos sus lectores. B de Bartleby, el escritor que no escribe: un diagnóstico que inauguró una taxonomía de enfermedades literarias. C de citas: todas las citas son falsas y todos los recuerdos son inventados, incluido este. D de Marguerite Duras: casera de Vila-Matas en París. Su joven inquilino le preguntó qué le hacía reír. Las caídas por pisar pieles de plátano, soy muy clásica, dijo ella. E de escribir, también de Duras, y su frase: “Escribimos para saber lo que escribiríamos si escribiéramos”. F de F for Fake, una de sus películas preferidas: su obra está llena de imposturas, falsificaciones, fetichistas e imitadores (y paranoia). G de Gombrowicz, el escritor al que quiso parecerse antes de leerlo. H de Historia abreviada de la literatura portátil, donde inventaba una sociedad secreta, de la que formaban parte Duchamp, Fitzgerald, Vallejo y Georgia O’Keeffe. Ahí arrancan su canon excéntrico y su mundo literario. I de identidad: carga pesadísima. J de Julien Gracq y su La littérature à l’estomac. K es de Kafka, que durante mucho tiempo aparecía en las portadas de todos los libros de Vila-Matas. Algunos textos suyos tienen algo de versiones de la Carta al padre: a veces le da la razón al hijo y a veces al progenitor. L por literatura: “Yo no escribo sobre literatura, soy literatura”, dijo una vez, y se quedó tan ancho. M por El mal de Montano, preocupante enfermedad libresca. N de no, por los escritores del no y su renuncia radical. Ñ por la lengua española: un castellano elegante y de oraciones largas, con un humor entre Dalí y Buster Keaton y frases que funcionan como leitmotifs. O por la orden del Finnegans. P de Perec, escritor lúdico y triste, agotador de plazas y hospitalario dueño de una cafetería en París, que no se acaba nunca. Q por cucaracha, que según Sergi Pàmies es el animal favorito de Vila-Matas, porque fusiona lo mexicano y lo kafkiano. R de Rilke en Ronda; de Rosa Schwarzer, que vuelve a la vida; de raro. S de Tristram Shandy, que leyó en la traducción de Javier Marías, y que le inspiró una conspiración y el dibujo de las dedicatorias. T de tímido: La timidez es una máscara y el humor es otra, no dejes que te quiten las dos al mismo tiempo: una idea de Monterroso que cita Vila-Matas. U de unión de narración y pensamiento. V es inicial del apellido, de viajes y de vida, y recurre sospechosamente en los títulos. La W es de Robert Walser y su Jakob von Gunten. X de exploración y extraño. Y de yo: “Soy el que se desconoce”. Z, de tapiz que se dispara en muchas direcciones.

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Los libros durmientes de Celso Emilio Ferreiro

A veces la poesía llama a la puerta, quizás porque siempre estuvo allí. Xabier Romero era un trabajador de una entidad bancaria en Vigo y Xabier Ferreiro, su cliente. El primero llevaba siempre consigo el poemario Longa Noite de Pedra (1962), hito fundamental de la literatura gallega. En una visita del segundo al banco, una compañera le dijo a Romero: “¿Tú sabes que Xabier es hijo de Celso Emilio?”, en referencia al autor de Longa noite. El asombro inicial dio paso a una amistad que abrió un camino trillado en conjunto desde entonces.

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© Xurxo Lobato

El poeta Celso Emilio Ferreiro, en Santiago de Compostela en 1977, el día de la Patria Galega, el 25 de julio.
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El mejor Francisco Umbral, lobo feroz del articulismo: "Estaba poseído por los demonios de la escritura'

Miguel Somovilla actualiza la influyente estela del articulismo umbraliano en un riguroso volumen, 'Escribir lo vivido', donde reúne 350 textos de todas las épocas del escritor, desde los inicios en Valladolid y León hasta su llegada a la ciudad para la "conquista" de Madrid desde los periódicos Leer

Miguel Somovilla actualiza la influyente estela del articulismo umbraliano en un riguroso volumen, 'Escribir lo vivido', donde reúne 350 textos de todas las épocas del escritor, desde los inicios en Valladolid y León hasta su llegada a la ciudad para la "conquista" de Madrid desde los periódicos
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Ruy Castro vence prêmio principal do Jabuti pela 2ª vez consecutiva

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O livro Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio, de Ruy Castro, publicado pela Companhia das Letras, venceu a categoria Livro do Ano no Prêmio Jabuti 2026, a principal do evento, pela segunda vez consecutiva. 

A cerimônia da 68ª edição do prêmio ocorreu na noite desta terça-feira (27), na Sala São Paulo. Ruy Castro não estava presente por questões de saúde, conforme anunciado no evento.

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Na obra, o escritor e jornalista reconstitui o Rio de Janeiro entre 1935 e 1945, mostrando como os acontecimentos na Europa repercutiram na vida da cidade. O livro, que combina pesquisa histórica e narrativa do cotidiano carioca, também venceu o Jabuti na categoria Biografia e Reportagem.

No ano passado, o autor também recebeu o prêmio na mesma categoria com o livro O Ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim, uma coletânea de textos sobre o compositor. 

Nascido em 1948, em Caratinga, Minas Gerais, o escritor começou sua carreira como repórter em 1967 e, a partir de 1990, dedicou-se à escrita de livros. 

Reconhecido pelas biografias de personagens como Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, Ruy Castro também fez reconstituições históricas sobre a Bossa Nova e o Rio de Janeiro dos anos 1920.

Promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o evento premiou vencedores em 23 categorias, além do Livro do Ano. As obras são distribuídas em quatro eixos: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação.

Romance Literário

Outra categoria com bastante visibilidade é Romance Literário. A escritora Eliana Alves Cruz foi a vencedora da categoria, com a obra Meridiana. 

“É um momento de muita alegria e realização”, definiu a escritora.

“Muito emocionante [receber] o prêmio de Romance Literário, é o prêmio mais tradicional. Muito simbólico, muito significativo de uma trajetória que eu acho que é de muita gente. São muitas pessoas, todos os meus ancestrais, minha família, meus amigos, nosso país. As escritoras todas que eu admiro e que estão aí produzindo”, disse Eliana à Agência Brasil.

São Paulo(SP) - 28/10/2026 - Entrega do 68ª edição do Prêmio Jabuti, na Sala São Paulo. Eliana Alves Cruz, vencedora da categoria Romance Literário .  Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil São Paulo(SP) - 28/10/2026 - Entrega do 68ª edição do Prêmio Jabuti, na Sala São Paulo. Eliana Alves Cruz, vencedora da categoria Romance Literário .  Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
Eliana Alves Cruz (segunda da esquerda para direita) foi a vencedora da categoria Romance Literário - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

O romance literário vencedor aborda temas como ascensão social e sentimento de pertencimento a partir da perspectiva de uma família negra. 

“É toda uma forma de pensar sobre esse momento do Brasil, em que a gente tem uma classe média nova, uma classe média que está tentando se entender, se achar e principalmente buscando o seu lugar de pertencimento. Qual é a minha casa? O questionamento é: o que podemos chamar de casa?”, analisa a escritora

“Muitas famílias, a minha família, a família de pessoas que eu conheço fazem esse movimento. Saem de uma situação mais precária e vão para uma classe média, melhoram de vida, entre aspas, economicamente. Mas estão ainda atravessadas por muitas questões e vão para esse novo lugar e ficam num limbo, numa linha divisória. Nem são de onde vieram, nem são necessariamente do lugar para onde vão”, explicou a escritora.

Novidades

Esta edição do Jabuti teve a estreia da categoria Incentivo à Leitura - Cultura Digital, voltada a criadores de conteúdo em plataformas digitais que contribuem para valorizar o livro e estimular a leitura. 

A CBL explica que a categoria valoriza a qualidade dos conteúdos, o engajamento e o impacto cultural. A categoria recebeu 402 indicações válidas.

Pedro Pacífico, responsável pelo canal Bookster, venceu a nova categoria e recebeu a estatueta das mãos do jogador de futebol Gustavo Scarpa, que também tem mobilizado leitores ao compartilhar suas leituras nas redes sociais.

Nas outras 22 categorias, o Jabuti recebeu 4.675 inscrições de obras e projetos. A premiação está distribuída em quatro eixos: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Além das estatuetas, os vencedores recebem R$ 5 mil por categoria.

São Paulo (SP ) - 28/10/2026  Entrega do 68ª edição do Prêmio Jabuti, na Sala São Paulo. Gustavo Scarpa entregou o troféu da nova categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital (do eixo Inovação) para o influenciador literário Pedro Pacífico, conhecido pelo perfil Bookster.  Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil São Paulo (SP ) - 28/10/2026  Entrega do 68ª edição do Prêmio Jabuti, na Sala São Paulo. Gustavo Scarpa entregou o troféu da nova categoria Incentivo à Leitura – Cultura Digital (do eixo Inovação) para o influenciador literário Pedro Pacífico, conhecido pelo perfil Bookster.  Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Influenciador literário Pedro Pacífico (d), conhecido pelo perfil Bookster, recebe o prêmio do jogador Gustavo Scarpa - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A lista completa dos vencedores está disponível no site do prêmio. 

Lygia Bojunga

O Jabuti homenageou Lygia Bojunga, escritora reconhecida no Brasil e no exterior, que foi escolhida como Personalidade Literária desta 68ª edição. O reconhecimento ocorre no mesmo ano em que uma de suas obras mais conhecidas, A Bolsa Amarela, completa 50 anos.

Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1932, Lygia estreou na literatura em 1972 com Os Colegas. Em livros como Angélica, Corda Bamba e A Bolsa Amarela, construiu uma obra marcada pela liberdade de imaginação e pela escuta dos conflitos e desejos da infância.

A escritora enviou uma mensagem de agradecimento e uma carta escrita à mão. “Que belo incentivo este!”, escreveu Lygia, referindo-se à homenagem. A escritora e psicanalista Ninfa Parreiras representou a escritora na cerimônia.

Confira a lista de finalistas abaixo:

Eixo: Literatura

1.1 Conto

Título: Massaranduba | Autor(a): Abáz | Editora(s): Senac Rio

1.2 Crônica

Título: Viagem no país da crônica | Autor(a): Humberto Werneck | Editora(s): Tinta-da-China Brasil

1.3 Escritor Estreante - Poesia

Título: História a que ninguém deu nome | Autor(a): Juliana Cajives | Editora(s): Mormaço Editorial

1.4 Escritor Estreante - Romance

Título: Pitangas verdes | Autor(a): Mariana Lobato Botter | Editora(s): Labrador

1.5 Histórias em Quadrinhos

Título: Ouroboros | Autor(a): Luckas Iohanathan | Editora(s): Comix Zone

1.6 Infantil

Título: A letra | Autor(a): Leo Cunha, Raquel Matsushita | Editora(s): Maralto

1.7 Juvenil

Título: A única da sala | Autor(a): Tathyana Viana | Editora(s): FTD

1.8 Poesia

Título: Boris e Marina | Autor(a): Alberto Martins | Editora(s): Companhia das Letras

1.9 Romance de Entretenimento

Título: Cartografia para caminhos incertos | Autor(a): Ian Fraser | Editora(s): Intrínseca

1.10 Romance Literário

Título: Meridiana | Autor(a): Eliana Alves Cruz | Editora(s): Companhia das Letras

Não Ficção

2.1 Artes

Título: Abdias, intérprete do Brasil: textos sobre raça e cultura brasileira de 1940 a 1990 | Autor(a): Tulio Custódio (Organizador) | Editora(s): Todavia

2.2 Biografia e Reportagem

Título: Trincheira tropical: a Segunda Guerra Mundial no Rio | Autor(a): Ruy Castro | Editora(s): Companhia das Letras

2.3 Economia Criativa

Título: A (r)evolução das habilidades para o futuro do trabalho na era da inteligência artificial | Autor(a): Martha Gabriel | Editora(s): Senac São Paulo

2.4 Educação

Título: Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade | Autor(a): Manuel Alves de Sousa Junior | Editora(s): Schreiben

2.5 Negócios

Título: Não se esqueça!: 50 memorandos sobre gestão e liderança com propósito, comprometimento e proatividade | Autor(a): Mario Sergio Cortella | Editora(s): Record

2.6 Saúde e Bem-Estar

Título: A paixão pela mentira: a família e as tiranias | Autor(a): Paulo Schiller | Editora(s): Todavia

Produção Editorial

3.1 Capa

Título: Frans Krajcberg | Capista: Alles Blau | Editora(s): MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand)

3.2 Ilustração

Título: Guernica: a arte em busca da paz | Ilustrador(a): Vinicius Sabbato | Editora(s): Via Lúdica

3.3 Projeto Gráfico

Título: Dobra | Responsáveis: Raul Loureiro | Editora(s): Cosac

3.4 Tradução

Título: O cavaleiro de bronze e outros contos e versos | Tradutor(a): Rubens Figueiredo | Editora(s): Penguin-Companhia das Letras

Inovação

4.1 Incentivo à Leitura - Projeto

Título: Cartovivências nas periferias da cidade | Responsável(eis): Ricardo Barbosa da Silva

4.2 Livro Brasileiro Publicado no Exterior

Título: Os substitutos | Editora(s): Companhia das Letras, Métailié

4.3 Incentivo à Leitura - Cultura Digital

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Sandra Ramos apresenta em Portimão livro «Maria» sobre maternidade, autismo e amor

A sessão realiza-se a 6 de novembro, às 21h00, na Biblioteca Municipal Manuel Teixeira Gomes. Um euro por exemplar vendido reverte para a APEXA.

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Enrique Vila-Matas, tras recibir el Premio Nacional: "Escribir es divertirse. La literatura está ahí para no aburrirme"

El escritor recibe el galardón del Ministerio de Cultura por su dilatada trayectoria, con más de 30 libros a sus espaldas. "Ni Ceravantes hace metalitetarura ni la hago yo", asegura Leer

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Enrique Vila-Matas gana el Premio Nacional de Letras por "su influencia decisiva en la narrativa contemporánea"

El jurado ha destacado de Enrique Vila-Matas "su aportación a la tradición borgiana en lengua española, así como por una originalidad formal" Leer

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Lizzy Stewart, la escritora que reinventó la novela gráfica: "Me gusta tratar de crear una nueva experiencia lectora"

Tras el éxito de Alison, vuelve una de las voces más renovadoras de la novela gráfica con La Ruina (Lumen), una reflexión sobre la amistad y las expectativas: "Es fácil olvidar las consecuencias de tus actos cuando te diviertes" Leer

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People have the power

Por qué, teniendo solo una vida y pudiendo tener la posibilidad de ser una de estas dos personas, alguien elegiría ser Milei y no Patti Smith Leer

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‘El libro de la desaparición’: una obra hermosa y valiente entre Jaffa y Tel Aviv

Como después de un truco mágico de David Copperfield en el que desaparece un edificio de la línea del cielo de Manhattan, un día —no sabemos si “un buen día”—, las recolectoras palestinas de flores en los invernaderos israelíes, los prisioneros palestinos, los conductores palestinos de autobuses en Tel Aviv, los propietarios palestinos de pequeños locales de hummus, desaparecen de Israel. ¿Será una huelga, una maniobra política por parte de la resistencia, una estrategia del ejército israelí, una conspiración? Existe una oposición dentro de Israel contra los desmanes de su gobierno a la que esta novela da voz; sin embargo, aquí la voz fundamental es la de los israelíes para quienes la desaparición constituye una ofensa y un alivio. Ibtisam Azem reflexiona sobre la usurpación de bienes, memoria y discurso; sobre la imposibilidad de asumir la franja gris en determinadas circunstancias históricas y políticas; sobre cómo se pervierte la racionalidad y se devalúa el significado de palabras como democracia. Lo más inquietante es que este libro fue publicado en 2014. Entonces, el pueblo palestino ya contaba con argumentos para denunciar una situación que, como poco, se remonta a 1948 con la creación del estado de Israel y la Nakba, la Catástrofe, que supuso la expulsión de más 700.000 palestinos. Hoy, en pleno genocidio, la lectura de El libro de la desaparición nos alcanza con pertinente vibración ideológica para recordarnos la dimensión ética y la oportunidad política de los textos literarios.

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El libro de la desaparición

Ibtisam Azem Traducción de María Luisa Prieto Las afueras, 2026 280 páginas. 19,95 euros

© EDITORIAL LAS AFUERAS (EL PAÍS)

Retrato promocional de la autora Ibtisam Azem.
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La Biblia del terror de Mariana Enriquez: "Los multimillonarios tecnológicos que sueñan la fantasía de vivir para siempre son los vampiros contemporáneos"

En el ensayo 'Conversación con la oscuridad' la popular escritora argentina reivindica el gótico y el horror como el género perfecto para abordar los miedos colectivos y privados. "Los monstruos cambian de significado en cada época, cada generación los deforma según sus miedos" Leer

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Festival Literário Utopia está de regresso a Braga para a 4.ª edição

O Festival Literário Utopia realiza-se a partir de 13 de novembro, em Braga, com uma programação dedicada à literatura, ao pensamento e ao encontro entre diferentes linguagens artísticas, foi hoje anunciado.

Esta 4.ª edição do festival prevê uma sessão extra em Guimarães, no dia 23 de novembro, com o escritor e ator brasileiro Lázaro Ramos e o músico Dino d’Santiago, numa conversa sobre língua, identidade e memória.

A programação inclui ações de formação, “iniciativas que promovem o pensamento crítico”, numa parceria com a Associação Portuguesa de Ética e Filosofia, “conversas, apresentações de livros, jantares literários, [e] sessões de literacia financeira”, segundo comunicado da organização enviado à agência Lusa.

O festival é organizado pela consultora editorial The Book Company em parceria com a Câmara de Braga, e, este ano, realça “um crescimento de atividades para os mais novos”, sendo todos os eventos gratuitos exceto os jantares literários, no dia 18, com Fernando Ribeiro e, no dia 20, com João Tordo.

Este ano, o festival prevê organizar 45 eventos na programação infantil, incluindo sessões de histórias, leituras musicadas, apresentações de livros e oficinas criativas. O Utopia conta com o espetáculo conjunto de Sofia Vieira, do projeto Aqui Há Gato, e Rute Cancela, “que procura despertar a curiosidade, estimular a criatividade e cultivar, desde cedo, o gosto pelos livros”.

A abertura oficial está prevista para 13 de novembro, às 21:00, no Auditório do Espaço Vita, o palco central do certame, sendo antecedida por uma conversa na Livraria Centésima Página sobre três títulos de teatro: “Macbeth”, de Shakespeare, “Frei Luís de Sousa”, de Almeida Garrett, e “Casa de Bonecas”.

No dia seguinte, o Muzeu recebe o escritor Onésimo Teotónio Almeida para uma “reflexão livre sobre o ano que passou”, no âmbito do projeto “O que fica do que passa”.

A literacia financeira é uma das novidades da edição deste ano, que a organização apresenta como “a maior de sempre”, reunindo nomes da literatura, do humor e de outras áreas artísticas, entre eles, Teolinda Gersão, Valter Hugo Mãe, Ricardo Araújo Pereira, Maria do Rosário Pedreira ou Salvador Martinha.

Entre outras iniciativas, no dia 21 de novembro realiza-se uma conversa entre os escritores Francisco José Viegas e José Eduardo Agualusa, que parte de uma seleção de entrevistas do arquivo da revista Ler “para revisitar vozes da literatura”, a que se segue outra conversa segundo o mote “A importância de ler mulheres”, com as escritoras Déa Paulino, Maria do Rosário Pedreira e Teolinda Gersão, moderada pela apresentadora televisiva Ana Daniela Soares.

Ainda no dia 21 é apresentado o novo livro de Frederico Lourenço, “A Bíblia para Jovens”, que conta com a participação de Ricardo Araújo Pereira e dos sacerdotes Paulo Terroso e Rui Santiago.

À tarde, a escritora Patrícia Reis entrevista Valter Hugo Mãe, tendo como fio condutor “fotografias pessoais e de arquivo”, revisitando o percurso do autor de “O Século dos Imbecis”, saído este ano. A jornada encerra com um concerto de Manuel Cruz, no Theatro Circo, às 21:00.

No dia 22, às 14:30, no Auditório do Espaço Vita, a jornalista Maria João Costa entrevista o ator, escritor e apresentador brasileiro Lázaro Ramos.

Neste dia está ainda agendada a conversa “Língua geral do esquecimento”, entre os escritores José Eduardo Agualusa, João Tordo e o músico Dino d’Santiago, “para refletir sobre a língua portuguesa enquanto território comum entre diferentes geografias, identidades e memórias”.

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Louçã apresentou livro em Viana do Castelo

O economista Francisco Louçã apresentou, na sexta-feira, o seu último livro “Imaginação Livro II – Utopias, Ciências e Vida Quotidiana”, numa sessão que juntou dezenas de pessoas no Centro Cultural do Alto Minho, em Viana do Castelo.

A sessão foi apresentada por Maria José Guerreiro.

Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
Foto: Joca Fotógrafos / O MINHO
Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
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Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
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Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
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Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
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Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
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Louçã apresentou livro em Viana do Castelo
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“Através de uma profunda revisão da literatura, Louçã traz-nos autores, textos, artistas, cientistas que, ao longo dos séculos, contribuíram para esta visão de consistência, na utopia, e de exatidão, na ciência. E Louçã reivindica, ainda, um lugar para “o povo”, para todos aqueles que, nos seus diferentes quotidianos, também são agentes. A palavra “esperança”, com que termina a obra, não será por acaso”, refere a organização em nota enviada a O MINHO.

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Projeto algarvio «Poesias do Mundo» participa em festival de cinema e literatura em Marrocos

Sediado em Loulé, o projeto participa pela segunda vez no festival de Tétouan, de 3 a 8 de novembro. Tápê integra a delegação de poetas e artistas internacionais.

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No adeus a Zuenir, mestre também no humor

Nome maior do jornalismo brasileiro, Zuenir Ventura morreu esta semana, aos 95 anos, no Rio de Janeiro. Nas redes sociais, no rádio, nos jornais e na tv, colegas de profissão se despediram do autor de 1968: o Ano que Não Terminou com palavras de carinho e admiração. Quem teve a sorte de trabalhar ao seu lado ressaltou também a sua doçura, paciência e disposição para ajudar e ensinar. Muitos jornalistas o chamavam de Mestre Zu. 

Em mais de meio século de ofício, Zuenir se debruçou sobre assuntos que definem o Brasil como nação (a violência urbana, o desrespeito à democracia, a obscena desigualdade social). É autor de algumas reportagens e livros que fazem parte da história do jornalismo no país, como Chico Mendes: Crime e Castigo e Cidade Partida. Recebeu importantes prêmios e reconhecimentos como jornalista, escritor e defensor dos direitos humanos. Ocupava, desde 2015, a cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.

Além do instinto de repórter, do olhar jornalístico apurado e da elegância na escrita, Zuenir tinha um sentido de humor delicioso. E era um maravilhoso contador de histórias. Quando não estava fazendo jornalismo, permitia-se acrescentar uma pitadinha (ou várias) de ficção às suas narrações – sempre sem maldade, para prender a atenção e divertir quem ouvia.

Sessão de homenagem a Zuenir Ventura no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo (28/06/2018)
Sessão de homenagem a Zuenir Ventura no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo (28/06/2018)
Sessão de homenagem a Zuenir Ventura no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo

Provavelmente o seu melhor parceiro na arte de fazer graça tenha sido o amigo Luís Fernando Veríssimo. Durante décadas dividiram palco, compartilharam mesas em eventos culturais e fizeram a alegria de quem, em festas e jantares, os teve por perto. Formavam uma dupla perfeita, que se conhecia de olhos fechados. O mineiro era mais falastrão; o gaúcho soltava a palavra certa na hora certa. Um ajudava o outro a brilhar. Os vi contar a mesma anedota, em lugares diferentes, mudando só o protagonista: uma vez tinha passado com um, na outra o protagonista era o outro. 

Um dos cenários recorrentes desses “causos” de Zuenir era Paraty e a sua festa literária (a Flip). Certa feita, dizia, uma jovem se aproximou pedindo um autógrafo. Enquanto procurava uma caneta, ele quis saber qual era, entre os livros que tinha escrito, o que ela mais gostava. “O Menino Maluquinho”, respondeu a moça, sem titubear. Para não estragar a ilusão da admiradora de Ziraldo, Zuenir escreveu: “Para Fulana, minha fã, um beijo”. E assinou assim: Z. Às vezes, contava essa mesma história, substituindo a leitora pelo funcionário de um hotel em Paraty. Quando publicou um livro intitulado Inveja – mal secreto, contou que, certa vez, viu o amigo Ziraldo ser aplaudido por 20 mil pessoas no Maracanãzinho ao ser apresentado como jurado do Festival Internacional da Canção. Quando encontrou o cartunista, disse-lhe: “Você saiba que tinha um sujeito lá em cima que estava te vaiando, eu vi”. 

Zuenir gostava de brincar com a sua semelhança com outros escritores altos, esguios e carecas. Contava ter sido confundido na Flip várias vezes com Millôr Fernandes e com Drauzio Varella. E uma vez com José Saramago. O chiste envolvendo o português era o mais hilariante e funcionava mais ou menos assim: Zuenir sai da pousada onde está hospedado e é cercado por um enxame de fãs. As leitoras – todas mulheres – começam a elogiá-lo e a dizer que adoram os seus livros. Perguntam se podem tirar uma foto, ele assente, e é abraçado pelo grupo. Sente que finalmente tem o reconhecimento que merece, seu ego está nas alturas. Até que uma das moças grita para outra que vem dobrando a esquina: “Fulana, vem aqui conhecer o Saramago”. 

Até quando foi dado como morto, vítima de uma notícia falsa, Zuenir não perdeu o humor. Num dia de 1999, um jovem repórter procurou na agenda do jornal o número de telefone do escritor e ligou. Queria que ele comentasse sobre a morte de uma figura conhecida. Acontece que fazia anos que aquele número já não era mais o de Zuenir. A senhora que atendeu, sabe-se lá por que cargas d’água, achou que era uma boa ideia inventar que o jornalista tinha acabado de morrer em um acidente na Lagoa Rodrigo de Freitas. Sem confirmar a veracidade, o rapaz publicou a informação, que rapidamente se espalhou. Vivinho da Silva, Zuenir estava numa cerimônia cheia de gente importante (incluindo Fernando Henrique Cardoso, então Presidente da República) no Instituto Moreira Salles (IMS). O evento era vedado à imprensa – Zuenir ia na qualidade de convidado – e contava com um forte esquema de segurança. Do lado de fora, a notícia da morte começou a circular entre os jornalistas. 

“Lá pelas 9 horas da noite — eu tinha morrido às 16h — a imprensa descobriu que eu estava no IMS e não no IML. Do lado de fora, dezenas de repórteres e fotógrafos aguardavam o presidente atrás de um cordão de isolamento. Veio então uma ordem das redações para que falassem comigo; não valia mais a versão; eu tinha que ser ouvido ao vivo, se é que a expressão ainda se aplicava a mim. Naquele momento, eu era mais importante do que o presidente, o governador, o prefeito e quem mais estivesse lá dentro. Afinal, não é todo dia que se vê alguém morrer e ressuscitar em cinco horas. O recorde era três dias, mas fora batido há muito tempo”, contou Zuenir numa deliciosa coluna n’O Globo dias depois. “Já de madrugada, abri o computador e vi a descrição da minha morte; era tão precisa que não tive dúvida: devia ser verdade. Uma agência séria não colocaria no ar um boato desses.”

Desta vez, infelizmente, foi verdade. Zuenir se foi, o Brasil fica sem um dos seus melhores jornalistas. E perde também um exímio contador de histórias, dono de um sentido de humor de dar inveja. 

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