Cerca de uma centena de pessoas percorreu este sábado, 24 de outubro, a avenida 5 de Outubro, em Faro, para exigir respostas à crise da habitação. A marcha terminou na Praça da Liberdade, onde um microfone aberto deu lugar a testemunhos sobre as dificuldades em pagar renda ou casa própria.
Promovido pelos coletivos que têm organizado a acampada de Faro, o protesto juntou reivindicações pelo fim dos despejos, pela reversão da lei de arrendamento e pela expropriação do património devoluto.
Organizador relata obrigação de sair de casa durante o verão
Sebastião Florêncio, membro da organização da acampada, disse à Lusa que considera esta a pior crise “desde o 25 de Abril”, apontando a situação de pessoas que “trabalham e nem conseguem ter dinheiro para comer”.
“Isto é um caso de calamidade, isto é uma emergência que temos no nosso país e que ainda mais grave se torna quando nos tentam descredibilizar”, afirmou.
O próprio declarou ter “sorte” por conseguir “ter uma casa”, mas explicou que vive sem contrato e é obrigado a “sair três meses durante o verão, o que no Algarve é habitual”.
Na sua avaliação, a crise algarvia “é um problema ao quadrado”, agravado pela “exorbitância do mercado imobiliário e da especulação imobiliária”.
Marcha percorreu 900 metros ao som de José Afonso
O desfile arrancou pelas 15:30, meia hora depois do previsto, ao som de “Os Vampiros”, de José Afonso. O percurso de 900 metros, acompanhado pela polícia, demorou cerca de meia hora, com outras pessoas a juntarem-se ao longo do caminho.
“Teto, chão, direito a habitação” e “Queremos casas para morar, e não para especular” foram algumas das palavras de ordem. Ouviu-se também um cântico dirigido ao primeiro-ministro: “Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação”.
Nas faixas exibidas pelos participantes liam-se mensagens como “Eles compram tudo e não deixam nada”, “Não faltam direitos, falta cumpri-los” e “Mais habitação, menos especulação”.
Microfone aberto reúne testemunhos e críticas ao Governo
Na Praça da Liberdade, depois da leitura de um manifesto preparado pelas várias acampadas, mais de uma dezena de pessoas tomou a palavra durante cerca de uma hora.
Os discursos combinaram críticas ao Governo com relatos pessoais sobre as dificuldades em suportar os custos da habitação. Houve também quem se afirmasse “privilegiado por ter casa”, defendendo que isso não contradiz a participação no protesto, porque “todos têm direito a casa própria”.
Para este sábado está ainda prevista uma assembleia popular na praça, destinada a recolher contributos para propostas a apresentar ao Governo e a preparar novas ações de luta.
Protestos alargaram-se a outras cidades
A atual mobilização começou no Porto em 10 de outubro e estendeu-se a Lisboa e a outras cidades, através de manifestações e acampadas. Os protestos surgiram dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade, refere a Lusa.
Promovidas por movimentos cívicos e divulgadas nas redes sociais, as iniciativas exigem respostas à crise habitacional. Reclamam também o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis e impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário.
Em 15 de outubro, o movimento que acampava no Porto denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada. Segundo a denúncia relatada pela Lusa, ficaram feridos 39 participantes, dois dos quais em estado grave, e um polícia.
Em Lisboa, as autoridades retiraram dezenas de tendas do Rossio na manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz em 27 de outubro.
O funcionamento das esplanadas de Huelva voltou ao debate municipal, com os horários de fecho, o ruído e a acessibilidade no centro de uma reunião da comissão que acompanha o regulamento. O objetivo é conciliar a atividade dos estabelecimentos com o descanso dos moradores e a circulação sem obstáculos nas ruas e praças.
De acordo com o Diario de Huelva, o encontro juntou representantes da autarquia, da Polícia Local, do setor da restauração e das associações de moradores para analisar a aplicação das regras e as dificuldades detetadas desde a sua entrada em vigor.
O regulamento foi aprovado em junho de 2025 e contou com um período de adaptação de seis meses, antes da aplicação definitiva a 13 de dezembro.
Até à uma da madrugada entre junho e setembro
Os horários são um dos aspetos regulados. As esplanadas sem elementos musicais ou audiovisuais podem permanecer abertas até à uma da madrugada entre junho e setembro. Nos restantes meses, o limite geral é a meia-noite.
As regras incluem também medidas para prevenir incómodos provocados pelo ruído e estabelecem condições para a retirada do mobiliário após o fim do horário autorizado.
A análise da comissão incide sobre a aplicação destas disposições, num esforço para compatibilizar o funcionamento dos negócios com os direitos de quem reside nas zonas envolventes.
Passagem livre e acessos garantidos
Na acessibilidade, o regulamento exige uma faixa de circulação pedonal com 1,80 metros de largura livre de obstáculos.
Além dessa passagem, têm de ficar garantidos os acessos a garagens, paragens de transportes públicos, ciclovias e vias destinadas à circulação de veículos de emergência.
A área ocupada por cada esplanada deve corresponder à autorização municipal. Como regra geral, as instalações têm de ficar em frente à fachada do respetivo estabelecimento, embora o regulamento contemple exceções.
Autarquia defende diálogo entre empresários e moradores
Pilar Miranda, presidente da Câmara de Huelva, destacou a importância de manter o diálogo entre os setores envolvidos para acompanhar a aplicação das medidas.
“Esta norma nasceu para compatibilizar o direito ao descanso dos moradores, a atividade económica dos estabelecimentos de restauração e o uso ordenado do espaço público”, afirmou.
A autarca acrescentou que a comissão permite “continuar esse diálogo já iniciado e perceber em que ponto nos encontramos”.
O acompanhamento pretende manter abertos os canais de comunicação entre a autarquia, os empresários e os moradores, permitindo abordar os problemas que surjam na utilização partilhada das ruas e praças.
O jornalista Sergio Ovejero foi arrastado por uma onda enquanto fazia uma reportagem em direto sobre o temporal marítimo em Ondarroa, no País Basco. O incidente ocorreu esta quinta-feira, 22 de outubro, durante a emissão do programa “Euskadi Quédate”, da estação de televisão basca ETB.
O repórter e o operador de câmara encontram-se bem, de acordo com o jornal El País, que cita órgãos de comunicação social locais.
Ligação interrompida perante a preocupação no estúdio
Ovejero estava a informar sobre as condições meteorológicas quando uma onda ultrapassou as estruturas de proteção costeira e atingiu a equipa de televisão.
O momento ficou registado na emissão, que sofreu uma interrupção de alguns instantes. No estúdio, o apresentador que acompanhava o direto não escondeu a expressão de preocupação e espanto perante o sucedido.
Autoridades tinham alertado para ondas superiores a cinco metros
O incidente aconteceu durante um alerta de temporal marítimo na costa basca. As autoridades tinham advertido para ondas superiores a cinco metros, ventos fortes e risco de projeção de água e de impacto da ondulação sobre passeios marítimos e estruturas de proteção junto ao mar.
Ondarroa é uma vila piscatória na costa de Bizkaia, particularmente exposta aos temporais do mar Cantábrico.
Os quebra-mares e passeios marítimos da zona são procurados como pontos de observação durante episódios de forte ondulação. Contudo, quando o vento provoca grande agitação marítima, as ondas podem ultrapassar as barreiras de proteção, como aconteceu durante a reportagem da ETB.
O ministro da Administração Interna, Luís Neves, afirmou este sábado, 24 de outubro, em Vilamoura, que o Governo encara os protestos pela habitação “com toda a tranquilidade”. O governante sublinhou que a maioria dos manifestantes é pacífica e rejeitou a existência de um confronto com o movimento.
“Não há de modo nenhum um braço de ferro”, declarou à CNN, à margem da cerimónia de aniversário da Unidade de Controlo Costeiro e de Fronteiras da GNR no Algarve, em declarações citadas pela Lusa.
Ministro reconhece legitimidade dos protestos
Luís Neves frisou que “a maior parte dos manifestantes são pessoas absolutamente pacíficas” e que “o direito à manifestação é absolutamente legítimo”.
“O que leva as pessoas a manifestarem-se é um motivo absolutamente legítimo, muito humano. Estamos a falar de habitação”, afirmou.
O ministro assegurou que o Governo está “muito focado em encontrar todos os instrumentos” e “soluções que possam mitigar” o problema. Acrescentou que os promotores dos protestos estão “em articulação com a Polícia de Segurança Pública”.
Sobre as manifestações previstas para a tarde deste sábado, manifestou a expectativa de que sejam “ordeiras e pacíficas”, como “regularmente acontece” em Portugal.
Declarações surgem após aviso sobre o fim das acampadas
A posição foi expressa numa altura em que continuam a ser convocadas manifestações e assembleias populares em várias cidades, por movimentos cívicos que exigem respostas à crise da habitação.
Durante a semana, depois da polícia ter removido as tendas do Rossio, em Lisboa, e da Praça D. João I, no Porto, Luís Neves afirmou que a PSP passaria a atuar “por antecipação” nos protestos e avisou que as “acampadas e acampamentos terminaram”.
Em 15 de outubro, o movimento que acampava no Porto denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada. Segundo a denúncia, ficaram feridos 39 participantes, dois dos quais em estado grave, e um polícia.
Em Lisboa, as autoridades retiraram dezenas de tendas do Rossio na manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz em 27 de outubro.
Movimentos exigem mudanças nas rendas e alternativas aos despejos
Duas semanas depois do início dos protestos no Porto, os participantes mantêm a promessa de continuar nas ruas até que o Governo deixe cair a nova lei das rendas e adote outras medidas para responder à crise habitacional.
Entre as reivindicações estão o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional, a proibição da compra de habitação por fundos imobiliários e o aumento da oferta pública de casas.
Os movimentos defendem também a aplicação de tetos às rendas e a recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais.
Deixar de fumar, reduzir o álcool e recuperar rotinas de alimentação, sono e exercício são mudanças que podem ajudar a ter uma vida mais saudável depois dos 50 anos. Especialistas ouvidos pelo jornal britânico The i Paper explicam que os benefícios continuam a ser possíveis, mesmo após décadas de excessos, mas não equivalem a eliminar todas as consequências do passado.
Numa reportagem publicada esta quarta-feira, o jornal cita uma investigação da Universidade de Ciências Aplicadas Laurea, na Finlândia, publicada em 2025, que identificou repercussões de hábitos como fumar e beber em excesso já aos 36 anos entre os participantes. Os efeitos persistiram nas décadas seguintes.
A mensagem dos especialistas, porém, não é de resignação. “O corpo não é um disco rígido que guarda permanentemente cada má decisão, nem um quadro branco que se possa limpar com um detox”, explica a imunologista Jenna Macciochi.
“Não precisamos de apagar todas as consequências do nosso passado para melhorar significativamente a nossa saúde futura”, acrescenta.
Deixar de fumar é a primeira prioridade
Entre as mudanças apontadas na reportagem, abandonar o tabaco surge como uma das mais importantes. O jornal recorda que fumar reduz a esperança de vida, em média, em dez anos e está associado a doenças cardiovasculares, vários tipos de cancro e problemas que afetam, entre outros, a visão, a audição e o sistema imunitário.
O envelhecimento da pele é outra consequência. “O fumo do cigarro gera stress oxidativo, interfere com a produção de novo colagénio e afeta as fibras elásticas que sustentam a pele”, explica a dermatologista Anjali Mahto.
Na prática, isso pode traduzir-se em rugas mais pronunciadas, sobretudo em redor da boca, sulcos mais profundos na parte inferior do rosto e perda de elasticidade.
Os benefícios de deixar de fumar começam rapidamente. De acordo com as informações do serviço nacional de saúde britânico, o NHS, citadas na reportagem, a pulsação regressa aos valores normais ao fim de 20 minutos e a quantidade de monóxido de carbono no sangue reduz-se para cerca de metade após oito horas. Dez anos depois, o risco de morrer de cancro do pulmão é aproximadamente metade do de quem continua a fumar.
Mahto refere também que existe um conjunto ainda pequeno, embora crescente, de evidências sobre o envelhecimento da pele associado aos cigarros eletrónicos. Faltam, contudo, estudos de longa duração que permitam quantificar os efeitos nas rugas.
Menos álcool também pode significar noites melhores
A reportagem sublinha que não existe um nível de consumo de álcool isento de risco. Para algumas pessoas, deixar de beber será a melhor opção; para quem mantém um consumo regular, reduzir a quantidade é uma das mudanças centrais propostas.
Reservar três dias da semana sem álcool é outra das recomendações apresentadas. O objetivo não se limita a evitar episódios de consumo excessivo, mas também a interromper o hábito de beber todos os dias.
“O fígado tem propriedades regenerativas extraordinárias, pelo que deixar de beber, temporária ou permanentemente, pode ajudá-lo a recuperar”, explica Tamara Gall, cirurgiã geral e hepatopancreatobiliar do Cromwell Hospital, numa declaração ao The i Paper recuperada na reportagem.
Os benefícios dependem dos danos existentes. Segundo a especialista, podem ser observados ao fim de uma semana, enquanto lesões mais graves exigem períodos de abstinência muito mais prolongados.
O sono também é afetado pelo álcool, mesmo quando a sensação inicial parece ser de relaxamento. Heather Darwall-Smith, psicoterapeuta especializada em sono e neurodiversidade, explica que beber pode facilitar o adormecer, mas prejudica a segunda metade da noite.
“O sono torna-se mais leve, acordamos mais vezes e o sono REM é perturbado”, afirma, acrescentando que o álcool também agrava o ressonar e os problemas respiratórios durante o sono.
Alimentar o intestino antes de procurar suplementos
O consumo excessivo de álcool, o tabaco e as noites mal dormidas podem afetar o apetite, a alimentação e o microbioma intestinal. Uma dieta pobre em fibra e dominada por alimentos ultraprocessados deixa as bactérias intestinais sem parte dos nutrientes de que necessitam.
Para a investigadora e dietista Megan Rossi, a resposta não deve começar automaticamente por um suplemento.
“Quando recebo pessoas na consulta, pensam que, para recuperar a saúde intestinal, precisam de tomar um probiótico, mas essa não é a solução. É preciso cuidar primeiro dos fundamentos”, explica.
A especialista propõe diversificar seis grupos de alimentos de origem vegetal: fruta, hortícolas, cereais integrais, ervas aromáticas e especiarias, leguminosas, e frutos de casca rija e sementes. Cada grupo fornece diferentes fibras e compostos que alimentam diferentes bactérias intestinais.
“Uma maior diversidade de bactérias intestinais significa que serão mais resistentes às coisas a que as sujeitamos”, afirma.
Rossi cita uma investigação da Universidade de Bergen que aponta benefícios potenciais da passagem para uma alimentação de estilo mediterrânico mesmo quando a mudança começa aos 80 anos.
Para quem procura um primeiro passo simples, sugere introduzir leguminosas, como o feijão. O seu impacto, explica, não resulta de serem um alimento milagroso, mas de estarem frequentemente ausentes da alimentação.
A especialista destaca ainda alimentos fermentados, como iogurte, queijo e kimchi, associados à redução de marcadores inflamatórios no sangue. Refere também um estudo em que uma alimentação rica em fibras prebióticas, que alimentam bactérias intestinais benéficas, melhorou a qualidade do sono relatada pelos participantes.
Acordar à mesma hora ajuda a recuperar o ritmo
Na meia-idade, o descanso pode ser perturbado não apenas pelos hábitos anteriores, mas também pela menopausa, pelas pressões profissionais, pelas responsabilidades familiares e pelo cansaço acumulado.
Nem todos estes fatores são controláveis. Ainda assim, Darwall-Smith destaca uma medida que recomenda aos seus clientes: acordar aproximadamente à mesma hora todos os dias.
“Levantar-se à mesma hora todos os dias é quase como traçar uma linha na areia”, afirma. “Não é preciso ser rígido, apenas bastante consistente.”
A regularidade ajuda a estabilizar o ritmo circadiano, o relógio biológico que organiza o sono e outras funções do organismo. A exposição à luz natural de manhã reforça esse sinal.
Anjali Mahto acrescenta que a sincronização destes ritmos pode beneficiar a digestão e, potencialmente, o funcionamento e a reparação da pele.
Exercício com espaço para o treino de força
Passar de uma vida sedentária para uma vida ativa é outra das mudanças com maior potencial. Macciochi descreve o exercício como “provavelmente uma das nossas intervenções mais poderosas”, com benefícios para o risco cardiovascular e a forma como o organismo responde à insulina.
Correr, pedalar e nadar são exemplos de atividade aeróbica referidos na reportagem. Mas o treino de força também merece atenção.
O álcool interfere com o crescimento muscular e a densidade óssea. A estes efeitos juntam-se as perdas de músculo e de massa óssea associadas ao envelhecimento, que podem deixar o corpo mais vulnerável a quedas e dores.
O treino de força ajuda a contrariar essas perdas, a melhorar a sensibilidade à insulina e a manter um peso saudável. A reportagem salienta também a importância de uma alimentação com proteína suficiente para apoiar o desenvolvimento muscular, sem descurar a fibra necessária ao microbioma intestinal.
Cuidar da pele sem tentar compensar tudo de uma vez
Perante sinais visíveis de envelhecimento, a tentação pode ser recorrer a muitos produtos ou tratamentos intensivos. Mahto considera que essa abordagem pode ser contraproducente.
“Uma limpeza suave e um hidratante adequado são suficientes para muitas pessoas, sobretudo quando a barreira cutânea está irritada”, afirma. Ingredientes como a glicerina e as ceramidas podem ajudar a proteger essa barreira.
Pelo contrário, uma esfoliação agressiva ou a introdução simultânea de vários ingredientes ativos fortes depois de um fim de semana de excessos tende a provocar irritação, em vez de acelerar a recuperação.
A dermatologista recomenda ainda proteção solar diária de largo espectro, idealmente com fator de proteção entre 30 e 50 e boa proteção contra os raios UVA. Menciona também os retinoides tópicos, incluindo a tretinoína sujeita a prescrição, que têm evidência de benefício em algumas alterações da pele, mas não são adequados para todas as pessoas.
“Se alguém deixa de fumar aos 50 anos ou começa a fazer exercício regularmente aos 55, considero isso uma excelente decisão”, afirma. “Não é necessário recuperar o rosto que tinha aos 25 anos para que essas mudanças valham a pena.”
Começar pelo que tem maior impacto
Adotar novos hábitos na meia-idade pode ser difícil num período marcado por responsabilidades familiares, pressão profissional e alterações hormonais. A proposta dos especialistas não é transformar tudo de uma só vez, mas começar pelo comportamento com maior impacto na saúde.
“Deixar de fumar estará provavelmente em primeiro lugar, seguido do álcool”, resume Macciochi.
Darwall-Smith deixa uma orientação para evitar que a procura de uma vida melhor se transforme noutra fonte de ansiedade: “Fazer mudanças que se consigam realmente manter e dar-lhes tempo para se consolidarem.”
Há dias em que Lisboa parece caótica e a pedir rumo. Foi o que sucedeu no Rossio, onde, entre tendas improvisadas e a inquietação de quem descobriu que trabalhar não chega para pagar a renda de uma casa, apareceu um cidadão disposto a corrigir as prioridades do país. Não trazia soluções para a habitação, nem propostas para aumentar salários, nem sequer um colchão para distribuir. Trazia uma bandeira. E, aparentemente, isso bastava para se considerar útil à Humanidade.
O espetáculo tinha qualquer coisa de comovente. Enquanto uns tentavam explicar coisas banais do tipo como se sobrevive sem teto, outros surgiam para explicar como se salva a civilização. Os primeiros tinham problemas concretos; o segundo tinha um estandarte. É uma diferença importante: os problemas concretos exigem trabalho, dinheiro e decisões políticas. Um estandarte exige apenas um mastro, um braço levantado e a convicção inabalável de que se está do lado certo da História.
O nosso recém-chegado ativista da geopolítica não parecia particularmente preocupado com a possibilidade de alguém passar mais uma noite ao relento. A sua missão era outra: restabelecer a simetria das bandeiras e, com ela, segundo parece, o equilíbrio moral do universo. Se havia símbolos palestinianos, impunha-se que aparecesse um símbolo israelita. É como se a tragédia humana se resumisse a um design urbano e a justiça dependesse apenas de uma foto com as cores bem distribuídas, garantindo a apresentação de um equilíbrio cromático.
É uma venerável e muito prática conceção de democracia. Se um lado protesta, o outro também tem o direito de o fazer. Se alguém denuncia uma injustiça, outro alguém deve comparecer para contestar a denúncia. E se, por azar, houver pessoas a dormir na rua, talvez se possa organizar uma sessão pública sobre o Médio Oriente, desde que ninguém insista em falar de rendas. A miséria, como se sabe, torna-se particularmente desagradável quando interrompe uma discussão entre pessoas convencidas de que estão a tratar dos grandes assuntos da humanidade.
Não está em causa o direito de um cidadão empunhar a bandeira que entender, dentro dos limites da lei. Esse direito existe, e ainda bem. O que não existe é uma cláusula constitucional que obrigue os restantes cidadãos a aplaudir, a concordar ou a fingir que todos os símbolos chegam ao espaço público sem passado, sem contexto e sem consequências. A liberdade protege a expressão; não concede imunidade à crítica. Quem confunde as duas coisas não está a defender a democracia: está a tentar transformá-la num serviço de lavandaria ideológica.
Basta introduzir o símbolo na máquina, selecionar o programa de lavagem “Liberdade de Expressão” e aguardar. Ao fim de quarenta minutos, sai limpo de História, de controvérsia e de qualquer responsabilidade política. O fabricante garante resultados impecáveis. A única condição é não ler as instruções.
Aplicado à vida pública, este princípio promete um futuro fascinante. Poderíamos organizar, na cosmopolita praça do Rossio, uma feira internacional de convicções, com um pavilhão para cada espécie de nostalgia autoritária. Haveria visitas guiadas, bancas de merchandising e sessões de esclarecimento sobre a natureza inofensiva dos emblemas, desde que empunhados com grande solenidade. À entrada, um funcionário distribuiria folhetos explicativos: “Não julgue o símbolo; admire a liberdade de quem o trouxe.” A História ficaria encarregada da bilheteira.
Naturalmente, nem todos os símbolos têm o mesmo significado, nem todas as causas podem ser colocadas no mesmo plano. É precisamente por isso que pensar é mais trabalhoso do que contar bandeiras. O problema começa quando a liberdade de expressão é invocada como um passe universal, capaz de dispensar a análise dos factos, o conhecimento do passado e a avaliação daquilo que se pretende legitimar. A democracia não se fortalece quando suspendemos o juízo; apenas se robustece quando recusamos entregar o juízo a quem grita mais alto ou segura um objeto com mais convicção.
Mas voltemos ao Rossio, que é onde a comédia adquire a sua dimensão mais à portuguesa.
Temos um país em que a habitação se tornou um exercício de ficção financeira, em que muitos trabalhadores recebem o salário para o entregar quase integralmente ao senhorio e em que os jovens são aconselhados a não serem egoístas e a ter paciência com pessoas que já compraram casa quando uma casa ainda era um lugar para morar. E, no meio disto, a grande urgência política parece ser a necessidade de um cidadão esclarecer o espaço público acerca da distribuição correta dos símbolos internacionais.
É difícil não admirar a escolha das prioridades. Há quem veja uma pessoa a dormir numa tenda e pense que o Estado falhou. Há quem a veja e se pergunte se o alinhamento ideológico do acampamento estará devidamente atualizado. São duas formas de olhar para a pobreza: uma procura saber por que razão ela existe; a outra procura saber se está a ser pobre da maneira certa.
A segunda tem a vantagem de ser muito menos exigente. Não obriga a construir casas, a rever políticas públicas, a enfrentar interesses económicos ou a explicar por que motivo há habitações vazias ao lado de pessoas sem abrigo. Basta aparecer com uma bandeira, declarar-se defensor da liberdade e aguardar que alguém lhe reconheça o mérito de ter vindo de longe para ensinar os indígenas a pensar.
E há sempre quem reconheça. Os profissionais da indignação seletiva são uma espécie resistente, habituada a descobrir monumentais ameaças de “caos” nos assuntos que lhes convêm e a revelar uma serenidade quase monástica diante dos problemas que exigiriam alguma ação. Defendem o direito de falar com entusiasmo, mas ficam menos entusiasmados quando alguém responde. Para eles, a liberdade é uma avenida de sentido único: circulam à vontade, desde que os outros não se lembrem de atravessar.
Talvez seja esta a grande inovação política do nosso tempo: a substituição da responsabilidade pelo posicionamento. Já não importa tanto aquilo que se faz, mas a bandeira sob a qual se declara que se faria. A casa pode faltar, o salário pode desaparecer, a pobreza pode alastrar; desde que a fotografia revele o símbolo certo, a consciência pública recebe um carimbo de conformidade.
Proponho, por isso, que a Câmara Municipal de Lisboa modernize a oferta cultural do Rossio. Que faça um festival permanente de bandeiras, com programação diária, patrocínios internacionais e transmissão televisiva. Cada participante terá direito a um mastro, quinze minutos de indignação e uma entrevista sobre os destinos do Ocidente “em decadência e com fracos líderes”. Para os sem-abrigo, haverá uma zona reservada, discreta, afastada das câmaras, com acesso condicionado e regulamento próprio. A inscrição exigirá prova de residência, naturalmente – documento que os candidatos poderão obter assim que tiverem uma.
Na cerimónia de encerramento, uma comissão de especialistas proclamará a vitória da liberdade, da tolerância e do pluralismo. Seguir-se-á um minuto de silêncio pelas pessoas que continuam a dormir na rua. O minuto poderá ser prolongado, se necessário, mas não demasiado: há sempre outra polémica a começar e os estúdios têm horários a cumprir. Por certo que não poderão perder os últimos lances de Ronaldo.
No dia seguinte, a majestosa praça do Rossio regressará à sua normalidade. As tendas continuarão a disputar espaço à cidade, as rendas continuarão a disputar espaço aos salários e os cidadãos continuarão a descobrir que a dignidade humana não é dedutível no IRS. A bandeira talvez já tenha partido, levando consigo a satisfação de quem cumpriu uma missão histórica. Os que ficaram terão de resolver o problema mais modesto de encontrar onde passar a noite.
No fundo, é esta a hierarquia nacional: para discutir o destino do mundo, basta chegar com convicção; para conseguir um teto, é preciso demonstrar rendimentos, apresentar garantias, reunir documentos e convencer alguém de que se merece uma oportunidade.
A bandeira entra sem fiador. O pobre precisa de provar que existe.
Afinal, neste país, onde a pobreza é assunto comezinho, quem não possuir casa terá que demonstrar que reúne condições para ser merecedor da rua.
E depois há quem ainda se admire de a democracia ter tão boa imprensa e tão poucos metros quadrados disponíveis.
O aeroporto de Faro continuará a contar com a Menzies Aviation na prestação de serviços de assistência em escala, conhecidos como handling. A empresa, através da SPdH – Serviços Portugueses de Handling, venceu o concurso que abrange também Lisboa e Porto, anunciou a Autoridade Nacional da Aviação Civil (ANAC) na sexta-feira, 23 de outubro.
O regulador concluiu a avaliação das condições de licenciamento da SPdH, antiga Groundforce, e emitiu licenças para os três aeroportos.
“A avaliação realizada permitiu concluir que a SPdH demonstra a capacidade técnica necessária para o exercício da atividade de assistência em escala a terceiros nos aeroportos abrangidos pelo procedimento concursal”, afirmou a ANAC, num comunicado citado pela Lusa.
Segundo a entidade, a decisão “contribui para assegurar a continuidade, qualidade, eficiência e competitividade dos serviços” disponibilizados aos operadores aéreos e aos restantes utilizadores aeroportuários.
Consórcio espanhol foi excluído na fase de licenciamento
A decisão surge depois de, em julho, a ANAC ter mantido a exclusão do consórcio espanhol Union South, constituído pela Clece e pela South Europe Ground Services, empresa de assistência em escala do grupo Iberia.
O agrupamento tinha apresentado a proposta mais bem classificada para assegurar os serviços nos três aeroportos durante sete anos, à frente da SPdH.
Contudo, o regulador concluiu que o consórcio não demonstrou “o cumprimento dos requisitos da fase de licenciamento”, previstos na proposta e exigidos no caderno de encargos, nomeadamente quanto à mobilização dos meios necessários.
Alguns sindicatos relataram dificuldades do agrupamento espanhol em recrutar trabalhadores, refere a Lusa.
Confirmada a exclusão, a ANAC determinou a seleção do concorrente classificado em segundo lugar. A SPdH foi então chamada a apresentar os documentos de habilitação para prosseguir no concurso.
Contestação judicial levou à prorrogação das licenças
O procedimento foi marcado por litigância, depois de a SPdH ter contestado judicialmente a classificação que colocou inicialmente o consórcio Clece/South em primeiro lugar.
Perante esse contexto, o Governo decidiu prorrogar as licenças de assistência em escala nos aeroportos de Lisboa, Porto e Faro, asseguradas pela antiga Groundforce.
A medida procurou garantir a estabilidade das operações e criar tempo para ultrapassar os litígios associados à atribuição das novas licenças.
TAP vendeu a sua participação à Menzies
A SPdH era detida em 50,1% pela Menzies Aviation e em 49,9% pela TAP. Entretanto, a companhia aérea concluiu a venda da totalidade da sua participação à empresa britânica.
A operação decorreu no âmbito dos compromissos remanescentes assumidos pela TAP com a Comissão Europeia relativos ao seu plano de reestruturação.
Quatro alunos do AEFFL, em Olhão, concluem este sábado, 24 de outubro, uma semana de intercâmbio Erasmus+ em Zakanje, na Croácia, dedicada à valorização do património cultural e natural. A mobilidade começou a 18 de outubro e reuniu também participantes da Hungria e da Turquia.
Ariana Inácio, Isaac Arrais, Laura Tomás e Vítor Sebastião participaram nas atividades da escola Osnovna Skola Zakanje, acompanhados pelos professores Leonor Faustino e Óscar Ribeiro.
A deslocação corresponde à primeira mobilidade de alunos do projeto “Echoes of the Past: Crafting Future Leaders Through Heritage and Environment”, que utiliza o património como ponto de partida para desenvolver competências de liderança, cidadania ativa, sustentabilidade e cooperação entre jovens europeus.
Da ecologia à cozinha e às danças tradicionais
Durante a semana, os participantes conheceram a realidade escolar croata e iniciaram os trabalhos do projeto, centrados no diálogo intercultural e na identidade europeia.
O programa incluiu oficinas de criação de um logótipo, divulgação de tradições, ecologia, pintura, fotografia, cozinha croata e danças tradicionais. Segundo a informação a que o POSTAL teve acesso, estas atividades procuraram reforçar o trabalho colaborativo entre os alunos dos diferentes países.
A mobilidade integrou ainda uma visita de estudo a Ozalj e Karlovac, com passagem por edifícios e monumentos destas localidades.
Os estudantes ficaram alojados em famílias de acolhimento, uma experiência que lhes permitiu conhecer o quotidiano, os hábitos e os costumes de famílias croatas.
Próxima mobilidade será em Olhão
Além de acompanharem as atividades dos alunos, os docentes avaliaram a mobilidade e definiram objetivos e estratégias pedagógicas para a continuidade do projeto, incluindo os trabalhos a desenvolver e os produtos finais.
A próxima mobilidade está prevista para dezembro, em Olhão, dando continuidade à cooperação entre as escolas participantes.
O AEFFL enquadra esta iniciativa na sua estratégia de internacionalização, através da integração em redes de escolas que promovem o trabalho colaborativo e a participação cívica dos jovens.
O município de Loulé é um dos 11 membros efetivos da Rede Projetos Artistas Emergentes, criada para ligar programas municipais de apoio à criação e aproximar jovens artistas de diferentes regiões. A iniciativa foi apresentada em 23 de outubro, em Alcanena, com propostas de formação, residências e oportunidades de participação remunerada.
Promovida pelo Gerador em parceria com o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e a MOVY, a rede pretende apoiar o desenvolvimento artístico e facilitar o contacto dos jovens com a atividade profissional, segundo a Lusa.
Formação gratuita e residências em Portugal e Espanha
O presidente do Gerador, Tiago Sigorelho, explicou que os participantes terão acesso a formação gratuita, residências artísticas e intercâmbios. Entre as primeiras iniciativas estão previstas residências em Lisboa e em Espanha.
A rede prepara também um encontro anual de artistas e equipas municipais, apontado para abril ou maio de 2027. Uma plataforma digital, prevista para fevereiro, divulgará os programas municipais e os criadores participantes, facilitando contactos com organizações culturais.
Os jovens poderão ainda participar em iniciativas e festivais promovidos pelo Gerador, recebendo remuneração por esse trabalho.
“Esses jovens vão ser remunerados por isso. É uma dimensão que nós, à partida, garantimos — eles têm um primeiro passo de participação na atividade profissional”, afirmou Tiago Sigorelho.
Rede quer chegar a pelo menos 25 municípios até ao final do ano
Além de Loulé, integram o grupo de membros efetivos municípios como Alcanena, Cascais, Funchal, Setúbal e Viana do Castelo.
Outros sete estão a formalizar a adesão, sendo o objetivo alcançar pelo menos 25 municípios até ao final de 2026.
O projeto prevê uma contribuição anual de 3.750 euros por município, complementada por outros apoios, e privilegia também os territórios de baixa densidade populacional.
Ministra defende oportunidades para primeiras obras
Na apresentação, a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, defendeu a criação de condições que permitam aos jovens desenvolver carreiras profissionais com estabilidade e possibilidades de crescimento.
“Aquilo que muitas vezes falta é, a estes talentos, aquela oportunidade do projeto, do trabalho, da obra, poder ter maior visibilidade”, afirmou.
A governante valorizou o cruzamento entre linguagens artísticas e recordou que a revisão do regime de apoio às artes, em agosto, contemplou um programa da Direção-Geral das Artes (DGArtes) destinado a primeiras obras e projetos.
“Temos de ter, também, um programa desenvolvido pela DGArtes para apoio a quem está, neste momento, a dar o primeiro passo e precisa daquela oportunidade”, declarou.
Boas práticas culturais das autarquias serão reunidas num inventário
Margarida Balseiro Lopes destacou o papel das autarquias no financiamento cultural e afirmou que o Orçamento da Cultura aumentou 120 milhões de euros em dois anos, garantindo um novo reforço em 2027.
O Governo pretende apresentar em dezembro um inventário nacional de boas práticas culturais autárquicas, a partir de uma consulta pública que decorre até ao final de outubro. A intenção é reunir projetos de municípios e freguesias, divulgar experiências bem-sucedidas e inspirar políticas adaptadas a cada território.
A ministra salientou ainda o Fórum Cultura, marcado para 14 e 15 de dezembro, na Figueira da Foz, dedicado ao tema Poder Local e Cultura, em articulação com a Associação Nacional de Municípios Portugueses.
Na sessão, o presidente da Câmara de Alcanena, Rui Anastácio, defendeu a criação artística e a descentralização cultural como instrumentos para atrair e fixar talento nos territórios que têm perdido jovens.
“Temos de criar espaços de reconhecimento e de criação de oportunidades a todo o talento, venha ele de onde vier”, afirmou.
A apresentação decorreu nos antigos escritórios da Fábrica Constantino Mota, integrados no Projeto Couros, dedicado à recuperação de património industrial para atividades culturais e criativas.
Os protestos pela habitação e contra o custo de vida na Europa, incluindo em Portugal, dão esperança a Roger Waters, que vê nas mobilizações uma contestação às elites no poder. “A Europa está a arder”, afirmou o fundador dos Pink Floyd numa entrevista conjunta à Lusa com a artista palestiniana Mona Miari.
Os dois músicos falaram à margem do Escritaria, festival literário de Penafiel, onde atuam este sábado, 24 de outubro, num concerto de homenagem a Luís Represas. A apresentação inclui a estreia mundial ao vivo de uma versão de “Comfortably Numb” reimaginada no contexto da luta palestiniana.
Waters compara mobilização europeia ao Maio de 68
“Isto [os protestos] é a insurreição de que falávamos, de que nos sentimos parte”, declarou Roger Waters, estabelecendo uma comparação com o Maio de 68.
O músico defendeu que o planeta tem capacidade para garantir habitação a todos e criticou a prioridade dada aos interesses económicos. “Todos aqueles direitos inalienáveis que foram tão falados quando da fundação das Nações Unidas… Hoje, nada tem a ver com nada a não ser o lucro”, afirmou.
Mona Miari classificou os movimentos pela habitação, como os que decorrem no Porto e em Lisboa, como “empoderadores e muito importantes”.
“Dá-me muita esperança, e leva-me a acreditar que não estamos dormentes. Estamos a responder a isto, a dizer ‘não, não queremos viver assim’”, afirmou, defendendo que a mobilização deve continuar para produzir mudanças.
Para a artista, que vive em Nova Iorque e tem os pais no país natal, as diferentes causas estão ligadas por uma mesma exigência de dignidade.
“A luta pela liberdade é uma luta universal, independentemente da nacionalidade, etnia ou religião. Estamos a continuar esta batalha de libertação completa de todos os humanos”, sustentou, referindo a Palestina, Timor-Leste, o Sudão e o Congo.
Da defesa de uma casa à contestação da exploração de recursos
Recordando “Home”, canção que escreveu em 1987, Waters salientou que “todos têm algum lugar a que chamam casa” e associou a defesa desse lugar tanto à luta pela habitação como à solidariedade com povos oprimidos.
“Estamos a olhar para um mundo renascido em que se exige que não haja mais escravos ou senhores”, declarou.
O músico criticou também as elites que, na sua perspetiva, procuram apropriar-se de recursos naturais sem atender às populações: “Querem roubar o lítio ou o cobre ou o níquel ou o que for, e não querem saber de ninguém”. A Lusa relaciona esta contestação com manifestações em Portugal sobre Covas do Barroso, em Boticas, no distrito de Vila Real.
Durante a entrevista, Waters expressou ainda apoio à luta antifascista e apelou ao voto em Lula da Silva nas presidenciais brasileiras. Citou os protestos na Albânia e criticou Donald Trump, bem como a atuação das Nações Unidas e do Conselho de Segurança em relação a Gaza.
Mona Miari e Roger Waters. Crédito: Lusa
Mona Miari vê nas redes sociais uma mudança na mobilização
A causa palestiniana atravessou a conversa. Questionada sobre os últimos anos, em particular desde 7 de outubro de 2023, Mona Miari admitiu ter chegado perto de perder a fé na humanidade, mas disse encontrar sinais de mudança na resposta internacional.
A artista apontou os acontecimentos de Sheikh Jarrah, em 2021, e o recurso às redes sociais como momentos importantes para tornar mais visível a realidade palestiniana.
“Toda a gente em Gaza e na Cisjordânia passou a estar em direto, a documentar a ocupação, os ataques, o genocídio”, afirmou. Na sua leitura, essa exposição ajudou a contrariar uma situação em que “o mundo estava confortavelmente adormecido”.
Miari criticou o que considera ser uma máquina de propaganda associada ao sionismo e manifestou esperança no trabalho do ativismo palestiniano. Defendeu a continuidade dos protestos e da criação artística até à libertação e ao fim do que descreve como genocídio, reclamando um “verdadeiro cessar-fogo, não só no papel ou nos jornais”.
Waters defende um Estado democrático unificado
Roger Waters colocou “uma Palestina livre e democrática” no primeiro lugar das suas prioridades e acusou os governos ocidentais de apoiarem Israel e o que classificou como genocídio.
O músico defendeu a substituição do Estado de Israel por um Estado democrático unificado, entre o rio Jordão e o mar, no qual todos sejam iguais.
“O Estado de Israel tem de deixar de existir”, afirmou, associando essa posição à criação de uma organização política comum e à rejeição do sistema que descreveu como assente no capitalismo neoliberal e na hegemonia ocidental.
Para Waters, está em causa “uma batalha existencial pelo futuro da espécie humana”, que exige uma mudança na relação entre poder, recursos e direitos.
“Comfortably Numb” ganha nova leitura em Penafiel
Mona Miari escreveu, compôs e interpretou com Waters a nova versão de “Comfortably Numb”, procurando dar expressão à luta palestiniana. A artista descreveu a criação como “tão genuína e direta como os pensamentos”, capaz de transmitir também a vontade de continuar a viver, amar e encontrar felicidade nas coisas simples.
Durante algum tempo, deixou de cantar e criar, por considerar impossível fazê-lo “durante um genocídio”. O encontro com Waters permitiu transformar essa sensação de dor e impotência numa “troca entre vozes”.
“Escrever a canção foi como uma correspondência entre duas pessoas”, explicou o músico britânico. O objetivo, acrescentou, é que a obra toque o público “no coração, e na sua imaginação”.
O concerto integra uma edição do Escritaria que coloca Timor-Leste em destaque através de Luís Cardoso, autor homenageado, e inclui a homenagem ao legado musical de Luís Represas, para a qual Miari convidou Waters.
“Mona e eu temos falado sobre isto, porque — quem sabe? —, há esta possibilidade de o mundo renascer. Um mundo renascido, onde a empatia prevalece, e não a ganância”, concluiu Roger Waters.