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Subida pós-Covid ainda deixa poupança longe dos anos 80

31 October 2026 at 10:05

Um país onde continua a faltar a literacia financeira, onde a poupança caiu a pique desde a crise financeira e fica sistematicamente abaixo da média europeia, mesmo depois do reforço dado pela pandemia: assim é o retrato da capacidade de poupar das famílias portuguesas, que, apesar das dificuldades em colocarem de parte rendimento, têm conseguido reduzir o rácio de endividamento dos três dígitos para abaixo de 80%.

O ano passado fechou com uma taxa de poupança de 12,13% do rendimento disponível das famílias em Portugal, um valor que continua a ficar abaixo dos 14,31% de média da UE no mesmo ano e ainda mais longe da média nacional entre 1974 e 1999, que se fixou em 20,72%, de acordo com os dados do Banco de Portugal (BdP) e Eurostat.

A comparação com a média europeia até melhorou consideravelmente nos últimos anos, sobretudo após a Covid-19 e depois da queda sustentada desde os anos 80 até à crise financeira, mas de forma insuficiente para fazer com que Portugal se situasse acima do indicador comunitário. Mais concretamente, a diferença para a média europeia desceu de cerca de 6 pontos percentuais (pp) entre 2014 e 2020 para pouco mais de 2pp em 2025, sendo que as taxas de poupança nacional na casa dos 12% em 2024 e 2025 foram máximos não vistos desde 2002.

Precisamente olhando para o início deste século, é notória a diferença entre a capacidade de poupar das famílias. Desde a chegada da democracia, em 1974, até 1990, apenas por uma vez a taxa de poupança ficou abaixo de 20%, em 1988; mas desde 1991 que não se voltaram a verificar observações desta magnitude, com o indicador a recuar consistentemente entre 1992 e 2008, à exceção de 1998 e 2001.

Entre 1974 e 1990, só por uma vez a taxa de poupança ficou abaixo de 20%, em 1988. Desde 1991 que não se voltaram a verificar observações desta ordem, com recuos entre 1992 e 2008

Foi uma queda que levou a taxa de poupança à casa das unidades, de onde não saiu até 2020, ano em que o consumo foi fortemente restringido à boleia da Covid-19. Desde a entrada em vigor da moeda única, em 2002, até ao ano da pandemia, as famílias conseguiram poupar em média 8,91% do seu rendimento disponível bruto — ou seja, menos de metade, em termos relativos, do que se registava na história democrática do país no século XX.

Aplicação da poupança em Portugal escasseia…

Apesar da recuperação recente da poupança nacional, o investimento continua a fraquejar. Apenas 28% dos portugueses afirmam ter produtos de poupança para a reforma e mais de metade, 55%, diz não ter capacidade para colocar de lado fundos, isto de acordo com os dados da ASF – Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões divulgados esta semana.

No caso dos jovens, esta realidade é ainda pior, com apenas 17% a reportar qualquer tipo de produto financeiro destinado à poupança para a reforma. Entre os reformados, 53% admitia ter sido benéfico poupar mais durante a vida ativa, ilustrando a dependência das gerações mais velhas do sistema público de pensões.

Precisamente nessa linha, 35% dos inquiridos aponta como principal motivo para constituir uma poupança a necessidade de complementar os rendimentos mais fracos associados à idade de reforma, atrás apenas de criar uma reserva financeira, opção que reuniu 38% das respostas.

Contudo, a aplicação das poupanças é fraca e pouco ambiciosa. Três quartos dos inquiridos diz conhecer produtos financeiros como os planos poupança reforma (PPR), certificados de aforro e do Tesouro ou ações e ETF, mas são os depósitos a prazo que continuam a dominar, com 42% das respostas favoráveis. Em segundo lugar, e a uma distância considerável, estão os PPR, com 31%.

… e o paradigma europeu não é muito diferente

Estas conclusões exacerbam o problema europeu com a aplicação das suas poupanças, algo que a própria Comissão Europeia e Ursula von der Leyen têm repetidamente salientado num esforço para promover uma União de Mercados de Capital.

“Os europeus são frequentemente vistos como super aforradores”, arranca uma nota do departamento de análise financeira do banco ING, mas esta realidade é mais evidente após a pandemia, quando a taxa média de poupança europeia subiu 2 pp. Mas esta “mudança tem consequências económicas reais”: por um lado, o consumo não contribuiu o que poderia para o crescimento; por outro, estas poupanças não estão a ser aplicadas e rentabilizadas — algo ainda mais gravoso numa altura de inflação elevada como agora se verifica.

“As famílias europeias perderam boas oportunidades de retornos assinaláveis das suas poupanças nas últimas duas décadas”, continua a análise do banco neerlandês que avança com números substanciais: caso um quarto da poupança canalizada para os depósitos entre 2002 e 2025 tivesse sido aplicada em fundos de investimento, a riqueza das famílias seria cerca de 7% do PIB conjunto da UE maior, ou seja, 1,17 biliões de euros.

Caso a aplicação desta poupança tivesse sido feita em ações, a diferença de riqueza das famílias poderia ascender a 18% do PIB do bloco europeu, ou seja, 2,79 biliões de euros.

Este é um dos fatores que explica a diferença do crescimento nos EUA e na UE, sendo que as famílias norte-americanas reduziram a sua poupança após a pandemia e, “beneficiando de fortes efeitos riqueza, […] apoiam a procura por bens e serviços nos EUA”.

Ainda assim, há uma boa notícia na evolução da dívida das famílias em função do seu rendimento: de 114,3% em 2014 este indicador caiu para 75% em 2024, o mínimo da última década, antes de voltar a subir em 2025 até 78,3%. Esta descida significa também que as famílias portuguesas conseguiram ficar abaixo da média europeia desde 2020, uma evolução assinalável dado o elevado endividamento da economia aquando do pedido de resgate à ‘troika’, em 2011, dos rendimentos significativamente abaixo da média e da subida do custo de vida no país neste período.

Received — 30 October 2026 ⏭ O Jornal Económico

Habitação: IA para acelerar licenciamentos é “instrumento importante” para combater crise, diz Governo

30 October 2026 at 17:20

O Estado quer reduzir os tempos de licenciamento em 60% a 70% com o recurso a inteligência artificial, apontando esta iniciativa como uma das medidas para resolver a crise na habitação que atualmente se faz sentir. Segundo o ministro Adjunto e da Reforma do Estado, as demoras nos licenciamentos foram precisamente um dos motivos que levaram a esta situação no mercado imobiliário e, com a introdução do LicencIA, a expectativa é que os prazos diminuam significativamente, dando um impulso à oferta.

Na audição de Gonçalo Matias esta sexta-feira na Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública, o ministro lembrou o lançamento do novo Regime Jurídico da Urbanização e Edificação (RJUE), que “encurta muitíssimo os prazos, de 200 para 50 dias” e que visa precisamente acelerar a execução de obras cruciais para aumentar a oferta de habitação no país.

“Uma das causas da crise [na habitação] foi a demora nos licenciamentos”, argumentou, pelo que “licenciamentos mais rápidos são um instrumento importante para combater a crise” – e “já está a permitir combater essas dificuldades”, acrescentou.

Ao mesmo tempo, o Estado avançou com a plataforma LicencIA, através da qual pretende também acelerar os processos de licenciamento, mas com a introdução de inteligência artificial (IA) e processos automatizados, interoperabilidade e um ponto único de acesso para famílias e empresas submeterem os seus projetos.

“Estando a funcionar, a plataforma LicencIA permitirá licenciar um projeto com todos os licenciamentos necessários”, ilustrou o ministro, projetando que a iniciativa permita “poupar muito tempo” nestes processos.

O Governo está atualmente “a lançar projetos-piloto com câmaras municipais que estão a acolher estes projetos”, isto numa fase inicial de afinação da iniciativa, completou.

Received — 29 October 2026 ⏭ O Jornal Económico

“Capitã” Lagarde deixa barco do BCE para “ter liberdade de expressão” para lá da política monetária

29 October 2026 at 15:14
Fórum BCE

Afinal, a “capitã” do barco que é o Banco Central Europeu (BCE) vai mesmo abandonar o navio e fá-lo para ter uma voz mais ativa na vida política, explicou Christine Lagarde na conferência de imprensa que se seguiu ao anúncio da decisão de manter os juros inalterados em outubro e, com mais destaque mediático, de sair da presidência do organismo após a reunião de política monetária.

Questionada repetidamente pelos jornalistas sobre qual o motivo por detrás do abandono prematuro, qual o caminho profissional após a presidência do BCE e o que significava isto para a política monetária europeia, Lagarde procurou reconfortar mercados e cidadãos, garantindo que “a instituição é sólida como uma rocha”.

A ainda presidente do BCE explicou a decisão com a necessidade de ter uma voz política mais ativa no atual contexto, admitindo que “não posso permanecer neutra” numa altura em que “a verdade […] tem sido frequentemente danificada, contradita e mal representada”.

“O motivo pelo qual estou a antecipar a minha saída […] é porque, como já expliquei aos meus colegas do Conselho de Governadores, quero ter a liberdade de expressão, de discurso e de ação em temas para lá da política monetária”, ilustrou na conferência de imprensa desta quinta-feira.

Lagarde argumentou que a sua experiência como banqueira central e, antes, como diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) a qualifica como uma voz de relevância – embora admitindo que “se as pessoas ouvem ou não é outra história”.

As questões sobre o futuro da política e advogada de formação francesa ficaram para o fim da conferência de imprensa, depois das explicações quanto à decisão de manter os juros inalterados entre 2,5% e 2,65% na reunião de outubro. O desfecho era largamente esperado pelo mercado, mas ainda assim Lagarde expandiu as explicações.

Falando numa decisão “unânime”, a líder do BCE reconheceu que houve discussões sobre se uma subida de juros seria apropriada, mas, com o cenário da inflação geralmente em linha com o previsto nas projeções macro de setembro, o Comité de Governadores optou por aguardar. Até dezembro, lembra, haverá “um manancial de informação e dados” que incluirá duas leituras da inflação, o PIB trimestral, duas leituras da produção industrial, índices de gestores de compras (PMI) e evolução salarial, tudo indicadores chave na fixação da política monetária.

Por outro lado, e abordando o disparo dos juros soberanos nos últimos meses, Lagarde rejeitou que a situação fosse exclusiva de França, mas alertou para a necessidade de a monitorizar. Um dos motivos desta subida é a forte e crescente emissão de dívida empresarial pelo sector tecnológico, sobretudo os hyperscalers de inteligência artificial (IA), pelo que “os governos nacionais mais endividados devem incorporar na sua política orçamental a expectativa de que os juros vão continuar mais altos por mais tempo”.

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