Ter 40 anos em Portugal é dever quase dois anos do que se ganha num ano ao banco
Quem tem entre 35 e 44 anos vive a década mais cara da sua vida financeira. Metade das famílias endividadas nesta faixa etária deve ao banco o equivalente a 181% do que recebe num ano, ou mais. Mesmo que não gastassem um cêntimo durante quase dois anos, ainda assim não chegariam para pagar tudo o que devem ao banco.
O número consta do retrato “Poupança, despesas e dívidas: para onde vai o dinheiro das famílias?”, que a Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) divulga este sábado, através da Pordata, a propósito do Dia Mundial da Poupança, com base em dados do último Inquérito à Situação Financeira das famílias, publicado em agosto.
E a dívida não é o único peso que recai sobre esta geração: é também aqui que a prestação mensal mais aperta. “O esforço financeiro era mais elevado entre os agregados cujo indivíduo de referência tinha entre 35 e 44 anos, grupo em que o rácio mediano atingia 17%“, lê-se no documento, o que significa que metade destas famílias gasta pelo menos 17 euros em cada 100 que recebe a pagar créditos, contra uma mediana de 15% no conjunto das famílias endividadas.
[No conjunto do país], cerca de 42% dos 4,5 milhões de agregados familiares residentes em Portugal tinham algum tipo de dívida, em 2024, o equivalente a cerca de 1,9 milhões de famílias.
Nesta idade, 64,9% dos agregados têm pelo menos uma dívida, 41,7% pagam o crédito da casa onde vivem, 28,2% têm empréstimos sem garantia imobiliária e 15,6% devem dinheiro em cartões de crédito, linhas de crédito ou descobertos bancários.
No extremo oposto da pirâmide etária, o cenário inverte-se. Segundo a FFMS, “entre os agregados endividados com 75 ou mais anos, metade tinha uma dívida que não ultrapassava 16% do rendimento líquido anual” e apenas 8% destas famílias têm alguma dívida.
Já entre os menores de 35 anos, que estão no início do crédito à habitação, a dívida equivale a 46,2% do valor de tudo o que possuem, o rácio mais alto de todos os escalões.
No conjunto do país, “cerca de 42% dos 4,5 milhões de agregados familiares residentes em Portugal tinham algum tipo de dívida, em 2024, o equivalente a cerca de 1,9 milhões de famílias”, segundo o relatório, que se baseia no último Inquérito à Situação Financeira das Famílias do INE e do Banco de Portugal. A proporção recuou cinco pontos percentuais face a 2020, por haver menos famílias com empréstimo para comprar casa.
Ainda assim, o crédito à habitação da casa principal continua a ser o compromisso mais comum, presente em 24,7% dos lares, à frente dos empréstimos sem garantia imobiliária (18,7%) e das dívidas de cartões, linhas de crédito e descobertos (10,3%).
Para metade das famílias endividadas, “os pagamentos associados às dívidas representavam, em 2024, pelo menos 15% do rendimento líquido anual”.
As famílias pouparam mais em 2025 mas ficaram com menos na carteira
Do lado da poupança, as famílias guardaram 26,4 mil milhões de euros em 2025, mais 302 milhões do que no ano anterior, uma subida nominal de 1,1% que se transforma numa quebra de 1% quando se desconta a inflação.
“A taxa de poupança fixou-se em 12,3% do rendimento bruto em 2025, abaixo dos 12,5% registados em 2024, mas acima dos 12,1% observados em 2020, ano de pandemia”, refere a FFMS, que situa Portugal abaixo da média europeia de 14,3%.
A trajetória recente é, contudo, de aproximação: entre os quinquénios 2016-2020 e 2021-2025, a poupança média das famílias portuguesas cresceu 53% em termos reais, “o 5.º maior crescimento entre os 27 países da União Europeia”, num período em que o salário médio real subiu 11,3%, o quinto maior aumento da União Europeia. Portugal é também um dos países que nunca registou poupança negativa desde 1995, ao contrário da Bulgária, da Grécia e da Roménia.
A margem para poupar depende do que sobra depois das despesas fixas, e aí a casa leva a maior fatia. A habitação, com água, eletricidade e gás, absorve 39% do orçamento de um agregado, que gasta em média 23.900 euros por ano, seguida da alimentação (quase 13%) e dos transportes (cerca de 12%).
“Em conjunto, estas três categorias absorviam mais de 64% dos gastos familiares”, e nas famílias com menos recursos a habitação chega a 42% e a alimentação a 16%.
O relatório lembra ainda que um em cada cinco contribuintes declarou em 2024 rendimentos até 7.500 euros anuais, após pagar o IRS, ou 625 euros por mês, e que a riqueza média por família subiu para 278,3 mil euros, com uma mediana de 143,3 mil euros, impulsionada pelos preços das casas.
A FFMS avisa que esta valorização “não significa maior liquidez ou facilidade de acesso à habitação, sobretudo para quem ainda vive em casa dos pais e não dispõe de habitação própria”.