Flávio Bolsonaro se autoproclama "líder" de Brasil: ¿otro intento de golpe?



Habituámo-nos a associar a força política à dureza, quando não ao autoritarismo. Jacinda Ardern mostrou que uma coisa não implica necessariamente a outra. Chegou ao cargo de primeira-ministra da Nova Zelândia aos 37 anos e exerceu o poder de uma forma pouco convencional. Foi mãe enquanto liderava o Governo, levou a filha, ainda bebé, à Assembleia Geral das Nações Unidas e nunca pareceu sentir necessidade de esconder dimensões da sua vida pessoal para corresponder à imagem tradicional de uma chefe de Governo. Empatia e capacidade de decisão não tiveram de estar em campos opostos.
Em 2023, Ardern fez outra coisa pouco habitual na política: decidiu sair. Explicou que já não dispunha da energia necessária para continuar a exercer o cargo com a dedicação que este exigia e que queria voltar a dar espaço a outras dimensões da sua vida. No seu último discurso no Parlamento, recordou que não precisara de deixar de ser sensível, ansiosa, mãe, alguém que chora ou abraça, para poder liderar. O título das suas memórias resume bem essa passagem pelo poder: Um Poder Diferente.
Não foi uma liderança isenta de críticas. E é precisamente isso que torna a questão relevante, e não apenas inspiradora, numa altura em que, um pouco por todo o mundo, ganham terreno formas de exercer o poder nos antípodas daquelas que Ardern representa. Afinal, se queremos reacender a democracia, que ideia de força devemos exigir a quem exerce o poder?
É a partir desta experiência que Jacinda Ardern estará na Nova SBE, no próximo dia 29 de outubro, como uma das principais oradoras da 10.ª edição das Conferências do Estoril. Arden refletirá sobre o valor da confiança, da empatia, da coragem e da convicção quando se lidera uma sociedade moderna, em rápida transformação e cada vez mais polarizada.
Outra questão essencial é o que acontece quando exercer o poder significa governar uma sociedade profundamente dividida. Theresa May conhece esse desafio como poucos. Primeira-ministra do Reino Unido entre 2016 e 2019, assumiu o Governo poucas semanas depois do referendo do Brexit e passou três anos a tentar transformar uma escolha aparentemente binária, permanecer ou sair da União Europeia, numa solução política para uma realidade nacional e europeia que de binária tinha muito pouco.
Não conseguiu. Como sabemos, o acordo que negociou com Bruxelas foi rejeitado várias vezes pelo Parlamento britânico, May acabou por se demitir e, meses depois, o eleitorado deu uma maioria a quem prometia simplesmente concretizar o Brexit.
É sobre este desafio que Theresa May falará na Nova SBE: o que significa governar uma sociedade profundamente dividida, conciliar convicções divergentes com a necessidade de compromisso, preservar a confiança nas instituições e encontrar um mínimo de terreno comum, sem o qual uma sociedade deixa simplesmente de conseguir avançar.
E o que acontece quando a ameaça às instituições democráticas não vem de dentro, mas de fora? Falo, naturalmente, da Ucrânia. Vsevolod Chentsov é, desde julho, vice-primeiro-ministro da Ucrânia para a Integração Europeia e Euro-Atlântica. Diplomata de carreira há três décadas, passou os últimos cinco anos a chefiar a missão do seu país junto da União Europeia.
A pergunta que traz à Nova SBE é desconfortável, mas necessária: o que descobre a Europa sobre si própria quando as suas instituições, a sua segurança e os seus valores são verdadeiramente postos à prova?
Mas as lições da experiência de Chentsov vão muito além das fronteiras ucranianas. Dizem também respeito ao futuro da Europa que queremos construir, num tempo em que já não basta produzir diagnósticos e adiar decisões difíceis.
Ardern, May e Chentsov trazem-nos experiências distintas e inquietações muito diferentes.
Como exercemos o poder? Como governamos quando não estamos de acordo? E o que fazemos quando os valores que afirmamos defender são verdadeiramente postos à prova?
Estas são algumas das perguntas que atravessam a 10.ª edição das Conferências do Estoril, organizada pela Nova SBE e pela NOVA Medical School, com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, Capital Europeia da Democracia em 2026, e do Turismo de Portugal.
Mais de 50 líderes, académicos, empresários, ativistas e jovens passarão pela Nova SBE nos dias 29 e 30 de outubro. Paul Krugman, Shirin Ebadi, Audrey Tang, Yulia Navalnaya e Enrico Letta, entre muitos outros, trarão experiências, perspetivas e convicções muito diferentes. Não esperamos que concordem entre si. Se concordassem todos, dois dias seriam provavelmente excessivos.
Queremos precisamente o contrário: experiências suficientemente diversas para nos obrigarem a questionar certezas. Argumentos suficientemente sólidos para resistirem ao contraditório. E espaço suficiente para formularmos perguntas para as quais ainda não existem respostas confortáveis.
Porque é também esse o papel de uma universidade. Como tenho escrito a propósito da IA, num mundo em que conseguimos gerar respostas em segundos, torna-se cada vez mais importante saber fazer as perguntas certas, avaliar criticamente a evidência, exercer o nosso próprio julgamento e tomar decisões.
Talvez essa seja uma das competências de que a democracia mais precisa: a coragem de questionar, a disponibilidade para ouvir e a responsabilidade de decidir.
Os comentaristas da CNN José Eduardo Cardozo e Vinicius Poit debateram, na segunda-feira (26), em O Grande Debate (de segunda a sexta-feira, às 23h), se “a mobilização popular ou o antibolsonarismo que definiu a virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de domingo (25)”.
Lula foi reeleito no segundo turno das eleições, superando Flávio Bolsonaro por mais de 4,5 milhões de votos. Foi a primeira vez na história da República que um candidato que saiu atrás no primeiro turno conseguiu reverter o resultado no segundo.
O comentarista José Eduardo Cardozo defendeu que os dois fatores são inseparáveis. “Não existe essa alternativa”, afirmou. Para ele, a mobilização observada nas ruas de diversas cidades do país, especialmente em São Paulo, na Avenida Paulista, foi de uma intensidade raramente vista.
“Lembrava grandes mobilizações da época do fim da ditadura, e talvez com maior expressão”, destacou Cardozo.
Cardozo apontou que a vitória resultou de uma combinação de elementos. De um lado, havia eleitores que viam na campanha de Lula a continuidade de boas políticas e a defesa da democracia. De outro, setores sem grande identidade com a esquerda, mas que enxergavam no bolsonarismo um risco para a democracia brasileira.
“Uma parte da direita se deslocou porque sabia que não podia ser hegemonizada pelo bolsonarismo”, analisou. O comentarista também citou erros da campanha adversária, como a postura considerada arrogante de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno e declarações polêmicas nos debates televisivos.
O comentarista Vinícius Poit concordou que a virada foi resultado de uma combinação de fatores. Ele reconheceu que a campanha de Lula teve uma mobilização expressiva, com a entrada de nomes como Camilo Santana (PT-CE) e Rafael Fonteles (PT), que conferiram um tom diferente ao segundo turno.
“Os caras da esquerda trabalharam e foram atrás do voto”, disse Poit. Ele também admitiu, com ressalvas, que houve “salto alto” por parte de setores da direita após o primeiro turno, embora tenha discordado da avaliação de Cardozo sobre o desempenho de Flávio Bolsonaro nos debates, considerando que o candidato se saiu bem nas duas ocasiões.
Poit mencionou que aliados de Flávio Bolsonaro cogitam questionar a eleição com base em suspeitas de abuso de poder econômico relacionado à mobilização digital da campanha vencedora. No entanto, o próprio comentarista se posicionou contra tentativas de reverter o resultado.
“Quem vai julgar qualquer possível irregularidade é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o STF (Supremo Tribunal Federal). Vamos em frente”, declarou. Poit também destacou que o próprio partido de Flávio Bolsonaro já reconheceu a vitória de Lula. Para o comentarista, independentemente do resultado, o caminho agora é seguir adiante, de olho nas próximas eleições.