
O Presidente da República disse esta sexta-feira em Leiria, concelho gravemente afetado pelo mau tempo, que pediu ao Governo, autarquias e outras entidades informação atualizada sobre o processo de recuperação, para a elaboração de um relatório de acompanhamento.
“O acompanhamento das consequências da tempestade Kristin não terminou com a minha Presidência Aberta. Nesse sentido, já solicitei ao Governo, às autarquias e demais entidades informação atualizada sobre o processo de recuperação, os resultados alcançados, as dificuldades que persistem e as medidas adotadas para prevenir situações de emergência”, afirmou António José Seguro.
O chefe de Estado discursava na Escola Secundária Afonso Lopes Vieira, estabelecimento de ensino que registou danos devido à depressão Kristin, em 28 de janeiro, e que foi requalificado com financiamento do Plano de Recuperação e Resiliência.
O chefe de Estado adiantou que, com base na informação que receber, “será elaborado um relatório de acompanhamento que permitirá fazer um balanço do trabalho realizado, identificar o que continua por resolver e avaliar as medidas necessárias para reforçar a segurança desses territórios”.
“Estive cá no dia a seguir a essa tragédia, estive cá depois, vim durante a Presidência Aberta, foi elaborado um relatório escrito, houve várias reuniões com o Governo, e agora quero avaliar como é que está a ser executado e quais foram os resultados de execução de todas as medidas, sabendo que várias delas funcionaram, estão a correr bem, outras se calhar menos bem”, declarou.
Sublinhando que “esta é a responsabilidade do Presidente da República, não deixar que os assuntos relevantes que têm impacto na vida das pessoas sejam esquecidos só porque já não abrem telejornais”, António José Seguro argumentou que “este trabalho é fundamental para garantir que as dificuldades vividas pelas populações não são esquecidas e que Portugal retira desta experiência os ensinamentos necessários para estar melhor preparado”.
“A prevenção, a resposta dos equipamentos e a capacidade de assegurar o funcionamento dos serviços essenciais têm de continuar a ser prioridades”, defendeu o Presidente da República.
No relatório da Presidência Aberta na Zona Centro do país, realizada por António José Seguro entre 6 e 10 de abril às zonas afetadas pelas tempestades, divulgado em maio, o Presidente da República considerou que as consequências do mau tempo que atingiu o país no início do ano exigem que “se acelerem apoios, se clarifiquem medidas” e se melhore a coordenação entre entidades no terreno.
No início da sua intervenção, o chefe de Estado avisou que “para muitas famílias, empresas e comunidades, esta crise ainda não terminou”. “As consequências desta crise persistem e continuarão a persistir ao longo do tempo. E também por isso deve continuar a vigilância sobre os apoios, sobre a reconstrução e sobre a capacidade do país, e em particular do Estado, para retirar deste episódio as conclusões e as lições necessárias”, disse.
Ao longo da Presidência Aberta, as preocupações identificadas foram “a lentidão de alguns apoios, a persistência de situações por resolver, a necessidade de reforçar a redundância das telecomunicações, do fornecimento de energia, das acessibilidades e da comunicação em emergência, e a urgência de garantir que o território entra nos meses de maior risco em condições mais seguras do que aquelas em que saiu do inverno”.
Presidente da República afirma que não se consegue “avançar como país” sem coesão social
O Presidente da República defendeu ainda que sem coesão social o país não avança, destacando o acesso à saúde e habitação, e sublinhando a necessidade de existirem “condições essenciais” para que os sonhos das pessoas se possam concretizar.
“Não conseguimos avançar como país se não tivermos coesão social entre nós. Se uma parte da nossa população, pode ser minoritária, mas é uma parte de nós, de seres humanos, não tiverem acesso à saúde a tempo e horas, não tiverem acesso à habitação, não tiverem, no fundo, as condições essenciais para que os seus sonhos se possam concretizar”, disse António José Seguro, na Escola Secundária Afonso Lopes Vieira (ESALV), em Leiria, cuja requalificação inaugurou esta sexta-feira.
Para o chefe de Estado, o “deslaçar social começa precisamente, quando as pessoas sentem que não fazem parte, que não beneficiam da riqueza e do progresso que é gerado”. Sublinhando que este é “um país de progresso, de criação de riqueza, de ambição e de gente excelente”, o Presidente da República reforçou que Portugal precisa “tratar desta coesão social como de pão para a boca, para garantir que, de facto, todos” se sentem “membros de uma mesma comunidade”.
António José Seguro constatou que existem “demasiados instrumentos que nos destroem e, sobretudo contribuem para nos pôr uns contra os outros”. “E fazem isso com uma rapidez enorme, sem nos dar sequer tempo para refletirmos, como se estivéssemos obrigados a ter de agir no segundo seguinte. Muitas das vezes desrespeitando os outros e, na maior parte das vezes acusamos, julgamos e sentenciamos, sem que o outro tenha a possibilidade sequer de se expressar”, adiantou.
O chefe de Estado acrescentou que parece que se vive em “condomínios fechados”, onde não se ouve, nem se percebe “que há uma diferença no outro”, o qual se deve “ouvir” e “respeitar”.
Perante uma sala com professores e alunos, entre outras entidades, o Presidente da República observou que a “escola não é apenas um conjunto de salas onde um professor tem atrás de si um quadro ou um projetor e tem na sua frente alunos que devem estar com atenção”. “A escola é um lugar de encontro, onde vão pessoas que querem aprender. É evidente que uns têm a missão de ensinar, mas verdadeiramente também aprendem. A escola tem de ser um espaço de diálogo e de encontro. Uns têm a missão de ensinar, outros têm o dever de aprender”, acrescentou.
Apontando que na ESALV coabitam quase 30 nacionalidades, António José Seguro elogiou a forma como esta escola foi “capaz de encontrar soluções diferenciadoras para quem precisa dessa diferença” e “ter condições para ter as mesmas oportunidades em função das suas competências”, o que é o “papel de um Estado Social” e “da escola”, disse, abordando ainda o espaço dedicado a jovens com necessidades específicas.
“As pessoas que lá trabalham todos os dias com os vossos colegas têm uma coisa que não há salário nenhum que pague, que é um coração e uma disponibilidade enormes. Numa altura em que coração, amor, felicidade, empatia e fraternidade parecem uma banalidade, pois o vosso Presidente da República considera que devemos não ter vergonha de utilizar essas palavras em público”, disse, dirigindo-se aos alunos.
Por outro lado, o Presidente da República deve concretizá-las “com exemplos concretos” como os que existem naquela escola, notou. Por isso, António José Seguro frisou que aquela “escola é mais do que paredes, é mais do que cimento, é mais do que vidro, é mais do que madeira”, “é coração, inteligência e, sobretudo, sensibilidade”.
Reforçando que é a “coesão social que preocupa o Presidente da República nos tempos atuais”, o chefe de Estado apontou que os “jovens são os melhores aliados para compreenderem o valor da solidariedade e da generosidade”, porque são aqueles que verdadeiramente ainda “têm o coração mais puro, para darem esses contributos para criar um país coeso”.