Medicina regenerativa amplia opções de tratamento para artrose no joelho
Dor, rigidez, inchaço e dificuldade de movimentação estão entre os sintomas mais comuns da osteoartrite, conhecida popularmente como artrose. A doença provoca alterações na cartilagem, no osso subcondral e em outras estruturas da articulação, em um processo que envolve fatores degenerativos e inflamatórios. O joelho é uma das regiões mais frequentemente afetadas.
Nos últimos anos, o avanço das terapias biológicas ampliou as possibilidades de investigação para o tratamento da doença. Essas abordagens, conhecidas como medicina regenerativa ou ortobiológicos, utilizam materiais biológicos com o objetivo de modular a inflamação e favorecer o funcionamento da articulação.
Segundo o ortopedista Leonardo Monteiro, especialista em cirurgia do joelho, as terapias apresentam indicações e níveis de evidência diferentes. Por isso, a escolha do procedimento deve considerar as características da doença e as condições de cada paciente.
“A medicina regenerativa reúne diferentes estratégias que utilizam materiais biológicos, muitas vezes obtidos do próprio paciente, com o objetivo de modular processos inflamatórios e favorecer um ambiente articular biologicamente mais equilibrado. Entretanto, cada tratamento possui indicações, níveis de evidência e limitações específicas”, explica.
Artrose tem diferentes fatores de risco
O desenvolvimento da artrose está associado a fatores como envelhecimento, excesso de peso, predisposição genética, lesões articulares anteriores, sexo feminino e determinadas alterações metabólicas. A sobrecarga mecânica repetitiva também pode contribuir para o surgimento ou a progressão da doença, especialmente quando há lesões prévias ou alterações no alinhamento dos membros inferiores.
A avaliação médica é importante para determinar o grau de comprometimento da articulação e definir a abordagem mais adequada. Também devem ser considerados o alinhamento do membro, a presença de lesões nos meniscos e ligamentos e o impacto dos sintomas na qualidade de vida.
“A artrose não é uma doença igual em todos os pacientes. Precisamos avaliar o grau de comprometimento da articulação, o alinhamento do membro, a presença de lesões meniscais e ligamentares e, principalmente, o impacto dos sintomas sobre a qualidade de vida. O tratamento deve ser individualizado”, ressalta Monteiro.
PRP utiliza componentes do sangue do paciente
Uma das terapias biológicas estudadas para a artrose é o plasma rico em plaquetas (PRP). O procedimento consiste na coleta e no processamento do sangue do próprio paciente para concentrar plaquetas e componentes biologicamente ativos envolvidos na sinalização celular e na modulação da resposta inflamatória.
Em julho de 2026, o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou, por meio da Resolução nº 2.464/2026, o uso do PRP como procedimento médico adjuvante para determinadas condições osteomusculares, incluindo a osteoartrite do joelho.
De acordo com o ortopedista, o procedimento pode contribuir para a redução da dor e a melhora da função articular em pacientes selecionados, especialmente nos casos iniciais ou moderados da doença. Os resultados, no entanto, variam conforme as características do paciente e o estágio da artrose.
“Em pacientes selecionados, especialmente aqueles com artrose inicial ou moderada, o PRP pode contribuir para a redução da dor e a melhora da função articular. Entretanto, é importante esclarecer que o procedimento não representa a regeneração completa da cartilagem perdida e que os resultados podem variar de acordo com as características da doença e do paciente”, afirma.
Gordura microfragmentada e concentrado de medula óssea
Outras abordagens investigadas são o tecido adiposo microfragmentado e o concentrado de aspirado de medula óssea, conhecido pela sigla BMAC.
Na técnica com tecido adiposo microfragmentado, uma pequena quantidade de gordura é retirada por meio de um procedimento de lipoaspiração e passa por processamento mecânico, que preserva componentes da matriz do tecido.
Já o BMAC é obtido a partir da aspiração de medula óssea, geralmente na região da bacia. Após o processamento, o material contém diferentes populações celulares e componentes biologicamente ativos.
Essas técnicas vêm sendo estudadas na medicina esportiva e na cirurgia de preservação articular, inclusive para avaliar possíveis efeitos sobre a dor e a função do joelho. Entretanto, ainda existem limitações relacionadas à seleção dos pacientes, à padronização dos procedimentos e à avaliação dos resultados em longo prazo.
“Esses procedimentos têm despertado interesse na medicina esportiva e na cirurgia de preservação articular. Entretanto, ainda existem limitações científicas importantes, especialmente quanto à seleção ideal dos pacientes, à padronização dos protocolos e aos resultados em longo prazo”, destaca Monteiro.
Embora as pesquisas investiguem os possíveis benefícios dessas terapias, ainda não há comprovação consistente de que elas promovam a regeneração da cartilagem em pacientes com osteoartrite estabelecida.
Tratamento convencional continua sendo fundamental
Apesar do avanço das pesquisas com terapias biológicas, o tratamento da artrose do joelho continua baseado em medidas como fortalecimento muscular, atividade física orientada, controle do peso e reabilitação funcional.
Dependendo da gravidade da doença e das necessidades do paciente, também podem ser indicados medicamentos, infiltrações e procedimentos cirúrgicos. Entre as opções estão as osteotomias, utilizadas em situações específicas para corrigir o alinhamento dos membros, e a artroplastia, indicada em determinados casos avançados.
Para Monteiro, as terapias biológicas devem ser consideradas dentro de um plano de tratamento individualizado, e não como soluções isoladas para a doença.
“Um dos principais erros é imaginar que uma aplicação biológica resolverá isoladamente todos os problemas do joelho. A artrose envolve fatores mecânicos, inflamatórios e metabólicos. Portanto, precisamos tratar o paciente como um todo, corrigir os fatores modificáveis e utilizar cada recurso terapêutico dentro da sua indicação”, explica.
O especialista também ressalta a importância de comunicar os resultados das terapias de forma responsável, sem criar expectativas de cura ou de recuperação completa da cartilagem.
“A evolução da medicina tem ampliado nossas possibilidades de tratamento, principalmente quando buscamos preservar a articulação e manter a qualidade de vida. O mais importante é oferecer ao paciente tratamentos individualizados, baseados nas melhores evidências disponíveis, sem promessas de cura ou de regeneração completa da cartilagem”, conclui.
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