❌

Normal view

Num mundo “quase perfeito”…

29 October 2026 at 21:12

 

Créditos: MDC Media Group/Ai

Ora viva, bom dia e uma excelente sexta-feira para si. Mais um mês volvido e novembro porta dentro. Estes “sapatos” em 2026 correram ainda mais rápido do que os de 2025.

Com o passar do tempo e o tema que nos traz hoje a este artigo, uma vez mais, vem com a necessidade da comunidade ajudar, com pouco que seja, a realizar um sonho há muito necessário. A abertura da casa Magellan ou Magalhães como preferir. Em novembro de 2027, precisamente daqui a um ano, será feita a abertura oficial desta grande obra que, sinceramente, não entendo o porquê de não haver mais doações e vontade comunitária de a realizar. Não é tempo de invejas, nem de cinismos, é sim tempo de ser solidário e abrir a mente.

Sabe o que pode fazer o facto de ser “Filantropo”, uma palavra cara para ser generoso?

Passo a explicar… filantropia promove o bem-estar social ao direcionar recursos, tempo e apoio para resolver problemas e melhorar a qualidade de vida da população.

Principais impactos no bem-estar

· Acesso à saúde e educação: Ajuda a manter hospitais, clínicas, bolsas de estudo e projetos educacionais para pessoas em situação de vulnerabilidade.

· Redução de desigualdades: Suporta redes de assistência social que combatem a fome, a pobreza e a exclusão.

· Inovação em causas sociais: Permite testar novas abordagens em áreas como saúde mental e tecnologias que o setor público nem sempre consegue financiar de imediato.

· Fortalecimento comunitário: Cria uma rede de solidariedade que une doadores e comunidades, gerando também senso de propósito e bem-estar emocional para quem ajuda.

Num mundo “quase perfeito” e numa comunidade de bem querer, entre os 300 mil lusodescendentes se cada um doasse que fossem $20 cada, perfazia um total de $6 milhões. Num mundo perfeito sem inveja e sem maldade. Deixo-vos a pensar. É o que é e vai valer sempre o que vale.

Muito obrigado e até já!

Cristina DaCosta/MS

It’s In The Air

29 October 2026 at 21:06
DR

It seems obvious that the week’s political news is the ‘push back’ against extremism many have been waiting for. In Brazil, Flávio began his post-defeat declaration by using Dt’s go-to tactic of crying foul and refusing to concede, a move that didn’t fly with just about anyone else. But there was a back-up plan, although police had demanded that he surrender his passport, in connection with a money-laundering investigation, he managed to slip away quietly and is now in Florida. Flew to his new daddy. Of special note, the students of Serbia managed to bring down their extremist leader, Aleksandar Vucic. All this, without a leader of their own! It certainly brings a bit of relief to so many of us who have been hoping for some peace and understanding, and an end to the ‘with us, or against us’ narrative of the last few years. Let’s not kid ourselves, though, every party has its slithery side, and they’re all cozy with the same CEOs, but as long as money persists in dominating our psyche, then let’s some sort of have social democracy, where at least things look like they’re done with all of us in mind.

Next, it’s south of the border. He’ll do anything to influence the tide in his favour, but it’s only getting worse. The amount of money coming from billionaires and conservative organizations is disturbing. They are desperate to maintain the gravy train of the past few years on track. A train that is being fueled by squeezing whatever they can from the likes of us, whether we see it or not. And power, had Brazil fallen to Bolsonaro, DT would wield control over most, if not all, of South America. Drill baby, drill. Cut baby, cut, with proceeds going to billionaire coffers, just like they’ve done in Africa. Lula took the vote, and DT loses the opportunity to create another American state in South America, like his alluding with Venezuela. He’s a dangerous child. The brain he was born with does not even remotely meet the minimum of requirements for the position he holds. Am I being harsh? Listen to his words to the press or read his social media posts. It’s for these situations that more than one person is required to authorize the use of nuclear weapons. That being said, who knows what else he’s got up his sleeve. He won’t be successful with any of his smoke and mirrors routine, yet he continues to declare that elections have been rigged, except, obviously, where

the winner was a conservative. I’m left wondering how these latest two wins for ‘democracy’ have rattled DT. He must be wondering how he’s going to cope with all this. When asked about how he would fare, should the Democrats take the house and Senate, most of his response had to do with his “strong veto powers”, although he claims he hopes it wouldn’t get to that.

November 3rd will be an important one for all of us. Hopefully, it will mark a turning point, where we can finally turn our attention to resolving our global stresses with intelligence and maybe the truth. Also while we’ve been in this quagmire, AI has begun to gallop, and governments are letting it happen, without any regulation whatsoever. As for the Epstein files, I don’t know if we’ll ever see justice. There are sharks of all colours swimming in that pool.

Fiquem bem!

Raul Freitas/MS

Aproximar os portugueses de Portugal

29 October 2026 at 20:56
DR

Volto pela segunda semana consecutiva ao assunto TAP por o achar de extrema importância.

A Diáspora portuguesa não é apenas, ou melhor, não deve ser uma extensão demográfica de Portugal no mundo; é um dos maiores ativos geopolíticos, económicos e culturais do nosso país. Para os milhões de pessoas que residem fora do território nacional, a ligação a Portugal mede-se por muitos fatores, mas sustenta-se, na prática, por vias de comunicação fiáveis. É neste cenário que a TAP Air Portugal transcende a sua função comercial e assume um papel de soberania e coesão nacional. A manutenção de rotas aéreas diretas e regulares entre Portugal e as principais regiões de acolhimento das nossas comunidades terá de ser um desígnio nacional. Estas rotas não servem apenas para o turismo ou para o transporte de passageiros que vão visitar as suas famílias, mas garantem a continuidade dos negócios, o investimento dos emigrantes na terra natal, o regresso ao país e a preservação da identidade cultural das novas gerações. Sem este elo, regiões com forte densidade de portugueses arriscam-se ao isolamento face ao país de origem, dependendo dos interesses financeiros de companhias estrangeiras.

Para compreender o momento atual da transportadora aérea e a salvaguarda deste património de conectividade, é incontornável olhar para o passado recente. A decisão do anterior Governo do PS de intervir e salvar a TAP num momento de profunda crise global foi um ato de coragem política e de visão estratégica. Ao injetar capital e reestruturar a empresa, o Estado não estava apenas a salvar uma companhia de aviação; estava a proteger o cordão umbilical que une Portugal às suas comunidades espalhadas pelo mundo. Hoje, os frutos dessa decisão estratégica são evidentes. A valorização resultante desse processo de salvamento permite associar a TAP a um dos grupos de aviação mais prestigiados do mundo. Esta integração no mercado global não descaracteriza a empresa, mas sim fortalece-a, conferindo-lhe uma capacidade competitiva que, isoladamente, seria difícil de alcançar. Mais importante ainda: este processo preservou a posição estratégica do Estado português na companhia. Ao manter uma palavra decisiva na estrutura, o Estado garantiu uma capacidade negocial crucial. É este poder de influência que hoje permite, e deve, exigir aos novos parceiros a preservação intransigente das rotas que servem a Diáspora.

A soberania de um país também se mede pela capacidade de garantir que os seus cidadãos, independentemente de onde escolheram viver e trabalhar, continuam a ter uma porta aberta e direta para regressar a casa. A TAP é, e deve continuar a ser, as asas das nossas Comunidades. O seu futuro, agora associado a grandes palcos internacionais, não pode esquecer as suas origens nem a sua missão fundamental: aproximar os portugueses de Portugal.

Vítor Silva/MS

A Generation Takes to the Streets…

29 October 2026 at 20:52
DR

Around the world, young people are taking to the streets, challenging governments and demanding answers about the future they believe is slipping away from them. From France to Milan, Italy, demonstrations have become a powerful expression of frustration over education, the cost of living, economic inequality and political leadership. But what is really driving these protests? Are students fighting for better schools and a more secure future, or are they becoming part of a larger movement against the governments of the day?

The answer is that both forces are at work, but the protests do not all have the same cause. In France, the student demonstrations that began in September 2026 grew out of concerns about the country’s public education system. Students complained about teacher shortages, overcrowded classrooms, deteriorating school buildings, long school days and uncertainty about their opportunities to enter higher education. What started with disputes over staffing and resources at a school on Creteil, neat Paris, spread to schools across the country. Social media helped students share their frustrations and encouraged others to join.

The movement has since expanded beyond the classroom. Teachers, parents, unions and other members of the public have joined demonstrations, connecting the education dispute to wider concerns about public services, living costs and inequality. For many students, the issue is not simply whether their school has enough teachers. It is whether the government is investing adequately in their future and giving young people a fair chance to succeed. The demonstrations have also become a political challenge for President Emmanuel Macron’s government. The governments response, including its handling of blockades and confrontations with police, has become another source of anger.

Some demonstrations have remained peaceful, while others have involved vandalism, fires and violent clashes. Those incidents have complicated the movement and raised questions about public safety, police conduct and the distinction between legitimate protest and criminal behaviour. The important point is that the French protests did not begin simply as an attempt to remove the government. They began with specific complaints about education, but those complaints have opened the door to a much broader debate about the country’s direction.

In Milan, the picture is different, although some of the underlying frustration overlaps. Demonstrations in Italy have brought together students, labour groups, anti-war activists and other protesters opposing policies associated with Prime Minister Giorgia Meloni’s government. Their concerns include rising living costs, low wages, government priorities and military spending. Protest in Milan escalated into clashes, vandalism and looting during demonstrations in October. Further rallies were called in several Italian cities, prompting the authorities to increase security and investigate incidents connected with the unrest. For many participants, the argument is about more than one government decision. It concerns the kind of society Italy is becoming, the opportunities available to younger generations and whether political leaders understand the financial pressures ordinary people face. However, it is important not to treat everyone in a demonstration as having the same motivation. A student protesting education policy, a worker demanding higher wages and an anti-war activist may march together without agreeing on every issue.

Why are students becoming such a powerful force?

Young people have several reasons to feel that they need to make themselves heard. The cost of housing, education and everyday necessities can make independence increasingly difficult. Students may worry that even after completing their education, they will struggle to find secure employment or afford a home. Young people want to believe that hard work and education will lead to a better life. When classrooms are overcrowded, public services deteriorate or access to further education feels unfair, that promises becomes harder to trust. There is also a growing generational divide. Some young people believe political leaders are more responsive to established interests than to the needs of those who will live with the consequences of today’s decisions for decades to come. Students can circulate videos, expose local problems and organize demonstrations far more quickly than earlier generations could. A dispute at one school can become a national issue within days. Finally, many young people feel that traditional political channels are not delivering results quickly enough. When petitions, public consultations or conversations with officials appear ineffective, taking to the streets can seem like the only way to attract attention. That does not mean all young people share the same political beliefs. Some want more government spending, some oppose regulations, and others simply want institutions to work better. Their common ground may be frustration rather than a unified political ideology.

Is this about rebelling against the government? This is perhaps the most important question. In many protests, opposition to government policy is certainly part of the story. Demonstrations want political leaders to change course, reconsider spending decisions or accept responsibility for problems that have gone unresolved. But opposing a government policy is not necessarily the same as wanting to overthrow the government. When people believe their concerns are repeatedly ignored, they may stop seeing a problem as an isolated policy failure and start questioning the government’s overall priorities. At that point, a protest about schools or household expenses can become a broader expression of dissatisfaction with the political system.

France illustrates how quickly that transformation can happen. Italy illustrates how concerns about living standards and governments decisions can bring different movements inti the same streets. Political parties may also try to benefit from public anger, either by supporting demonstrators or accusing their opponents of encouraging disorder. That can make protests more politically charged, even when the original grievances came from everyday experiences. The key is to look what protesters are demanding rather than assume that every demonstration is simply an anti-government rebellion.

The biggest question is whether governments will respond with meaningful changes or rely primarily on policing and public-order measures. In France’s unrest remains a significant political challenge. In Italy. Meloni government has responded to unrest in Milan with additional security deployments, while demonstrations continue to raise questions about wages, living costs and government priorities. Governments face a difficult balancing act. They must protect public safety and prevent violence, but they must also recognize that peaceful protest is a legitimate way for citizens to demand change.

The demonstrations in France and Italy reveal a question that extends well beyond Europe: what happens when a generation begins to believe that the system is not working for it? These protests are not all about bringing down governments. They are about education, economic security, equality and the desire to have meaningful voice in decisions that shape the future.

Ultimately, the measures of these movements will not be how many streets are blocked or how many arrests are made. It will be whether governments listen, whether meaningful solutions follow and whether young people regain confidence that their future is worth investing in. When students take to the streets in such numbers, political leaders should recognize that they are hearing more than a protest. They are hearing a generation asking whether anyone in power is listening.

Vincent BlacK/MS

Pedro Nuno Santos, o alegado salvador da TAP e a memória seletiva da política afinal, onde mora a verdade?

29 October 2026 at 20:34
DR

Meus caros leitores, hoje é muito fácil consultar informação. No passado, os documentos eram em papel e, por vezes, mudavam de gaveta. Agora, com a informação digitalizada, mais cedo ou mais tarde, muita coisa vem ao de cima, tal como o azeite.

Não ficaria de consciência tranquila se não desse a minha opinião sobre um artigo que li, escrito por um grande amigo, que elogiava Pedro Nuno Santos como o salvador da TAP. Respeito opiniões diferentes, pois essa é uma das riquezas da democracia. Mas resolvi pesquisar, porque a minha memória me dizia que nem tudo estava certo naquela análise.

Não pretendo ofender ninguém, muito menos o meu amigo. Quero apenas recordar factos e deixar uma pergunta, será que estamos a esquecer demasiado depressa as responsabilidades de quem nos governou?

Na política portuguesa, parece existir uma regra curiosa, quando as decisões correm mal, a culpa é de todos ou das circunstâncias, quando correm bem, o mérito pertence a um só. É por isso que Pedro Nuno Santos merece ser analisado sem ataques pessoais, mas também sem branqueamentos políticos.

A TAP, salvar a companhia não significa absolver quem a governou.

A história da TAP não começou com Pedro Nuno Santos. Em 2015, o Governo de Pedro Passos Coelho concluiu a privatização de 61% do capital, parcialmente revertida em 2016, já com António Costa. Em 2020, durante a pandemia, o Governo socialista avançou para a renacionalização, sob a tutela de Pedro Nuno Santos.

Já agora, a pandemia justificava uma intervenção pública? É uma questão discutível. Mas, em dezembro de 2021, foi anunciado um plano de reestruturação com cerca de 3,2 mil milhões de euros de auxílio público autorizado. Foram milhões de euros dos contribuintes.

É legítimo defender a importância estratégica da TAP para Portugal. O que também é legítimo é perguntar se o dinheiro foi bem aplicado e exigir responsabilidades pelas decisões tomadas.

O caso Alexandra Reis veio reforçar essas dúvidas. A Inspeção-Geral de Finanças considerou nulo o acordo de saída que envolvia uma compensação de 500 mil euros, com exceção das componentes relativas ao contrato de trabalho e à respetiva compensação. Pedro Nuno Santos acabou por se demitir em dezembro de 2022, na sequência da polémica.

A TAP pode ter sobrevivido a uma crise extraordinária. Mas isso não transforma automaticamente o responsável político num herói acima de qualquer crítica. Afinal, onde ficamos?

A habitação, uma crise que não nasceu ontem, meus amigos façam uma pesquisa sobre este assunto e vão ver a verdade.

A falta de casas resulta de vários fatores, entre eles a construção insuficiente ao longo dos anos, a escassez de oferta, a concentração da procura nas grandes cidades, o investimento imobiliário e as dificuldades de licenciamento. Os preços também não acompanharam os rendimentos de muitas famílias.

Os governos de António Costa tiveram anos para aumentar a oferta pública, facilitar a construção e criar condições para um mercado de arrendamento mais funcional. Em 2023, avançaram com o programa Mais Habitação, mas as medidas adotadas não resolveram o problema estrutural da falta de casas.

Não seria sério atribuir toda a responsabilidade a Pedro Nuno Santos ou a uma única lei. Mas também não é aceitável esquecer os anos de governação socialista quando avaliamos os resultados. A oposição de hoje não pode apagar as responsabilidades de ontem.

SNS e imigração, os problemas não desaparecem por decreto, e volto a pedir que façam uma pesquisa, vão perceber como se chegou a este caos que se vive.

No Serviço Nacional de Saúde, a falta de profissionais, as dificuldades de organização e os tempos de espera são problemas acumulados que exigem respostas concretas. Em 2023, cerca de 1,7 milhões de utentes não tinham médico de família, segundo os dados então divulgados pelo Conselho das Finanças Públicas.

Na imigração, a extinção do SEF foi aprovada em 2021, quem era o governo e o ministro???, com votos favoráveis do PS e do Bloco de Esquerda. A transição para a AIMA, em 2023, revelou graves dificuldades administrativas e operacionais.

Isto não significa que toda a imigração seja descontrolada. Significa, sim, que o Estado tem de ter capacidade para gerir processos, fronteiras e serviços públicos. Será que também já nos esquecemos de quem tomou estas decisões?

Meus amigos, a política não pode funcionar como um altar. Pedro Nuno Santos pode ter qualidades, pode ter defendido opções estratégicas legítimas e pode reivindicar méritos. O que não podemos aceitar é que seja apresentado como salvador sem recordar os custos, os erros e as decisões tomadas sob a sua responsabilidade.

O mesmo princípio se aplica a José Sócrates, António Costa ou qualquer outro dirigente. Não devemos condenar ninguém apenas por pertencer a um partido, mas também não podemos absolver governos por simpatia ideológica.

Portugal não precisa de santos políticos. Precisa de governantes que expliquem as suas decisões, assumam os seus erros e respondam pelos resultados.

Foi por isso que perdi algum do meu tempo a pesquisar. Não para atacar um amigo, nem para impor a minha ideologia, mas para recordar aos leitores que a memória política é fundamental. Podemos ter opiniões diferentes, mas não devemos confundir lealdade partidária com verdade.

Bom fim de semana!

Augusto Bandeira/MS

O BODE EXPIATÓRIO

29 October 2026 at 20:30
DR

O bode carregará todos os pecados do povo para uma terra onde ninguém vive; o homem deixá-lo-á livre lá no deserto.

Levítico 16:20-22

A expressão “bode expiatório” tem origem em rituais religiosos descritos na Bíblia, Antigo Testamento, que provém de um antigo ritual judaico (Dia do Perdão), em que um bode era sacrificado e outro recebia os pecados de todo o povo e, por isso, o soltavam no deserto. O bode expiatório tem funcionado como uma metáfora para a culpa coletiva, sempre que um grupo inocente é escolhido para arcar com a responsabilidade de um fracasso ou crise por que passa toda uma comunidade.

Gil Vicente, já no século XVI, no seu Auto da Barca do Inferno (1517) nos apresenta um conjunto de figuras representativas da sociedade da época – o fidalgo, o frade, o sapateiro, o corregedor, o judeu – apontando os vícios de cada um deles para fazer sátira social. O judeu representava o forte antissemitismo que se vivia, refletindo, assim, sobre um conjunto de preconceitos religiosos e culturais bastante presentes na sociedade portuguesa. Quando entra em cena, o judeu carrega um bode, um símbolo pejorativo para o povo judaico que defende as suas práticas. Nem o Anjo, que comanda a Barca do Paraíso, nem o Diabo, que comanda a Barca do Inferno, aceitam o judeu nas suas embarcações. O Diabo argumenta que não tem espaço para o bode, acabando por o levar a reboque atrelado à barca, simbolizando, desta forma, a marginalização que este grupo sofria em Portugal. Ou seja, Gil Vicente tira partido desta personagem não só para ridicularizar a hipocrisia da sociedade cristã, como para criticar os estereótipos associados aos judeus, como a teimosia e o amor ao dinheiro.

Esta expressão, datada de há mais de 2500 anos, foi-se consolidando ao longo dos séculos na nossa linguagem e, por isso, acabei de dar o exemplo de Gil Vicente. Os bodes expiatórios, porém, têm variado ao longo dos anos e de diferentes épocas. Nos dias que correm, por exemplo, em Portugal temos um novo bode expiatório – o imigrante. Agora os imigrantes são os responsáveis por todos os males de natureza social que existem na nossa sociedade. Quando se discutem os problemas da educação – os resultados do PISA, a falta de professores, a falta de pessoal auxiliar de ação educativa, a falta de creches, as más condições de certas escolas – ouvimos amiúde a voz de muitos representantes políticos invocar constantemente a política das portas escancaradas que permitiu a entrada de demasiados imigrantes. Discutem-se questões ligadas à saúde – fecho de maternidades, horas de espera nas urgências, cancelamento de cirurgias – e lá vem novamente a alegação do aumento dos utilizadores do SNS por via do aumento da população imigrante. Temos assistido a manifestações e acampadas em Lisboa, Porto e outras cidades do país relacionadas com o problema da habitação e, pasme-se, novamente quem tem responsabilidades governativas agita o fantasma da imigração como causa do problema.

Sem entrar em considerações sobre as manifestações, gostaria de lembrar que, segundo dados oficiais, Portugal é o país da União Europeia onde os preços da habitação mais subiram entre 2020 e 2025 e os residentes destinam uma maior fatia do salário para cobrir os custos da casa. Sabemos que o problema da habitação não é apenas um problema português, mas transversal a toda a Europa. Contudo, e porque é em Portugal que vivo, considero que, em vez de se arranjarem bodes expiatórios – que no passado só acrescentaram mais violência ao discurso político -, impere o bom senso e se procurem soluções para minimizar a crise que não tenham de passar por cargas policiais de má memória. Invoco, a propósito, uma voz feminina, a de Natália Correia, quando afirmou “Quando a crise não é geradora de grandes audácias, mais indicado é dar-lhe o nome de agonia.”

Hoje, os tempos exigem audácia!

Aida Batistas/MS

Museu da Família Teixeira: um legado de memória da emigração madeirense e da diáspora luso-venezuelana

29 October 2026 at 20:22
DR

O arquipélago da Madeira, território insular que, ao longo dos séculos, se afirmou como um singular cais de chegadas e partidas no oceano Atlântico, ocupa um lugar incontornável na história da emigração portuguesa. Marcada pela partida de sucessivas gerações em busca de melhores condições de vida, a sociedade madeirense construiu, dentro e fora do território nacional, uma expressiva herança migratória, profundamente ligada à identidade portuguesa e à diáspora espalhada pelo mundo.

Entre os principais destinos da emigração madeirense na segunda metade do século XX destacou-se, inequivocamente, a Venezuela. Este país sul-americano, que nas últimas décadas tem enfrentado uma profunda crise estrutural, de natureza económica, política e social, acolheu milhares de portugueses, muitos dos quais oriundos da Madeira, que ali encontraram oportunidades para reconstruir as suas vidas, constituir famílias e desenvolver atividades empresariais. Atualmente, a comunidade portuguesa e os seus descendentes representam uma presença significativa na sociedade venezuelana, com particular expressão em Caracas e em setores como o comércio, a hotelaria, a construção civil e a restauração.

O percurso desta comunidade, marcado pelo trabalho, pelo empreendedorismo, pela capacidade de adaptação e pela preservação dos laços com Portugal, constitui um capítulo relevante da história contemporânea da emigração portuguesa. Um legado que importa conhecer, estudar e transmitir às gerações futuras, reconhecendo o contributo das comunidades portuguesas para as sociedades de acolhimento e para a afirmação de Portugal além-fronteiras.

É neste contexto que assume particular significado o Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, na freguesia do Faial, concelho de Santana, na ilha da Madeira. Concebido pelo empresário Aneclet Teixeira de Freitas, este espaço museológico nasceu de uma profunda ligação às suas origens e do desejo de homenagear os seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais daquela localidade madeirense.

Na década de 1950, à semelhança de tantos outros conterrâneos, Albino Teixeira e Conceição Caires partiram para a Venezuela, em busca de melhores condições de vida e de novas oportunidades para a família. A sua história espelha a experiência de inúmeras famílias portuguesas que, confrontadas com dificuldades económicas e limitadas perspetivas de futuro na terra natal, encontraram na emigração um caminho para construir uma vida diferente.

Na década de 1960, com apenas sete anos de idade, Aneclet Teixeira foi ao encontro dos pais em Caracas. Foi na capital venezuelana que cresceu e iniciou um percurso pessoal e profissional que viria a alcançar uma dimensão assinalável. No início da década de 1980, especializou-se em gastronomia judaico-ortodoxa, área em que, aliando conhecimento, espírito empreendedor e uma notável capacidade de trabalho, viria a afirmar-se.

O seu percurso profissional, sustentado pelo rigor, pela dedicação e pelo sentido de oportunidade, conduziu à construção de um relevante universo empresarial, de que fazem parte as conhecidas lojas da cadeia Rey David, em Caracas. A sua atividade estendeu-se também a outros investimentos na América Latina e à Madeira, onde tem apostado, designadamente, nos setores hoteleiro e imobiliário.

Contudo, para além do êxito empresarial, é na ligação às suas raízes familiares e à terra de origem que se encontra uma das dimensões mais significativas do percurso de Aneclet Teixeira. Apesar da distância, das vicissitudes da vida e das responsabilidades inerentes à atividade empresarial, nunca deixou de valorizar a memória dos pais e a comunidade de onde partiu a sua família.

Essa ligação materializou-se na criação do Museu da Família Teixeira, um projeto de homenagem familiar que adquiriu uma dimensão patrimonial e cultural mais ampla. Ao reunir memórias, objetos, correspondência e fotografias, o museu dá visibilidade à experiência de uma família emigrante e, simultaneamente, evoca as trajetórias de tantos madeirenses que partiram para a Venezuela ao longo do século XX.

Aberto ao público e de entrada gratuita, o espaço integra um conjunto de elementos que contribuem para a sua singularidade, entre os quais um jardim com vinte palmeiras provenientes do Egito, uma capela, um coreto e uma adega. Mais do que um espaço de evocação familiar, constitui um lugar de encontro entre a história individual e a memória coletiva, onde as vivências de uma família se cruzam com a história mais vasta da emigração madeirense e da diáspora luso-venezuelana.

O Museu da Família Teixeira assume um papel relevante na valorização da memória histórica da Madeira e no reconhecimento do contributo da comunidade luso-venezuelana. Ao preservar o legado de Albino Teixeira e Conceição Caires, Aneclet Teixeira homenageia não apenas os seus pais, mas também todos aqueles que, partindo da “Pérola do Atlântico”, atravessaram o oceano em busca de novas oportunidades, levando consigo a língua, os costumes, os valores e a esperança de construir um futuro melhor.

Esta dimensão simbólica ganha particular relevância numa época em que a preservação da memória das comunidades portuguesas no estrangeiro constitui um desafio cultural e intergeracional. Conhecer as histórias daqueles que partiram é também reconhecer o papel da diáspora na construção da história contemporânea da Madeira e de Portugal, compreendendo que a identidade madeirense e nacional se prolonga muito para além das fronteiras geográficas.

Daniel Bastos/MS

O Algarve não pode continuar a viver apenas do turismo | Por Bruno Castelão Santos

29 October 2026 at 18:10

Quando pensamos no Algarve, pensamos quase automaticamente em praias, hotéis, restaurantes e turismo. Não podemos ignorar a importância deste setor para a economia regional, mas devemos questionar se é sustentável continuar a depender tão fortemente dele, bem como do comércio e dos serviços.

Na minha perspetiva, o Algarve precisa de ambicionar mais. Precisa de se afirmar também como uma região de produção, inovação, conhecimento e indústria.

De que serve gerar riqueza se tantos trabalhadores continuam a enfrentar salários baixos, contratos temporários e dificuldades em construir um projeto de vida na região onde trabalham?

Uma economia que precisa de alternativas

O turismo cria emprego e dinamiza a economia, mas a sazonalidade condiciona muitas oportunidades profissionais. Os baixos salários em parte da hotelaria e da restauração, associados à instabilidade laboral, tornam ainda mais urgente a diversificação económica.

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), divulgados pelo Turismo de Portugal, a remuneração bruta média mensal por posto de trabalho nas atividades de alojamento e restauração foi de 1.145 euros em 2025, face a 1.686 euros na economia nacional. Estes valores são nacionais, não exclusivamente algarvios, mas evidenciam uma diferença salarial que merece reflexão.

Não se trata de desvalorizar quem trabalha no turismo, muito pelo contrário. Trata-se de defender que os algarvios devem ter acesso a mais oportunidades profissionais, melhores condições de trabalho e carreiras que não dependam exclusivamente dos meses de maior procura turística.

A estratégia regional Algarve 2030, promovida pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve (CCDR Algarve), reconhece a importância da inovação e da diversificação da base económica. O desafio é transformar essa orientação em resultados concretos para a população.

Recuperar a indústria e valorizar os nossos recursos

O Algarve tem recursos naturais, conhecimento científico e uma história industrial que podem servir de ponto de partida para um novo modelo de desenvolvimento.

A indústria conserveira é um exemplo evidente. Olhão e outras localidades algarvias têm uma forte ligação histórica à transformação do pescado, uma atividade que marcou gerações e contribuiu para a identidade económica da região.

Defendo que devemos estudar formas de reimpulsionar este setor, apostando na modernização tecnológica, na qualidade, na inovação dos produtos e na valorização da produção nacional. Não se trata de regressar ao passado, mas de recuperar competências e criar novas oportunidades de emprego e exportação.

Também o aproveitamento sustentável das algas merece maior atenção. A biotecnologia marinha pode abrir oportunidades nas áreas da cosmética, dos ingredientes alimentares, da agricultura e de outras aplicações industriais. A investigação desenvolvida na Universidade do Algarve pode contribuir para aproximar a ciência das empresas e transformar conhecimento em produtos com valor acrescentado.

Naturalmente, qualquer exploração deverá respeitar os ecossistemas marinhos e assentar em estudos de viabilidade económica e ambiental.

A transformação agroalimentar, a valorização da alfarroba, da amêndoa e dos citrinos, as energias renováveis, a reciclagem industrial e as tecnologias de gestão da água são outras áreas que merecem investimento.

Não precisamos de transformar o Algarve num território industrial indiferenciado. Precisamos de desenvolver uma indústria moderna, sustentável e adaptada às características da região.

Uma responsabilidade política

Esta transformação exige uma estratégia articulada entre o Governo, a CCDR Algarve, a AMAL, os municípios, a Universidade do Algarve e o tecido empresarial.

Os municípios não podem limitar-se à promoção turística. Devem identificar oportunidades de investimento, preparar áreas empresariais adequadas e criar condições para a instalação de empresas inovadoras, respeitando o ordenamento do território e os limites ambientais.

É igualmente importante aproveitar os instrumentos de financiamento do Algarve 2030 para apoiar projetos produtivos, fomentar a investigação e aproximar as empresas das instituições de ensino e formação profissional.

O investimento público deve ser avaliado pelos resultados: empregos qualificados criados, salários praticados, empresas desenvolvidas, exportações e riqueza que permanece na região.

Esta estratégia deve ainda chegar ao interior algarvio, promovendo atividades económicas capazes de fixar população e reduzir as desigualdades territoriais.

Não defendo crescimento a qualquer preço. A escassez de água, as alterações climáticas e a proteção dos ecossistemas exigem uma indústria eficiente na utilização dos recursos e ambientalmente responsável.

Que Algarve queremos construir?

Quero um Algarve onde um jovem possa encontrar oportunidades numa empresa tecnológica, numa unidade agroalimentar ou numa indústria ligada ao mar, sem sentir que precisa de sair da região para construir uma carreira.

Quero uma economia que continue a receber visitantes, mas que também produza, transforme, investigue e exporte. Uma economia capaz de gerar riqueza durante todo o ano e de oferecer aos trabalhadores mais estabilidade, melhores perspetivas profissionais e condições de vida dignas.

O sucesso do Algarve não deve ser medido apenas pelo número de turistas ou pelas receitas da época alta. Deve também ser avaliado pela qualidade do emprego, pelos salários e pelas oportunidades que oferece a quem aqui vive.

A diversificação económica não é um luxo: é uma escolha política sobre o futuro da região.

O Algarve não pode continuar a depender excessivamente do turismo enquanto deixa por explorar oportunidades de produção, inovação e valorização dos seus recursos.

É tempo de passar das intenções à ação e de construir um Algarve que seja também uma região industrial, tecnológica e produtiva.

Porque o Algarve não pode viver apenas dos visitantes que chegam. Tem de garantir futuro a quem é de cá e dar oportunidades a quem por cá fica.

Leia também: O Algarve não pode ser um lugar onde se trabalha, mas não se consegue viver | Por Bruno Castelão Santos

❌