
O dia de Bruna Pereira pode começar com aulas de português e terminar a tocar fagote num concerto. A aluna não se surpreende por isso que o Conservatório de Música do Porto seja a primeira escola pública nos rankings deste ano.
“Nós aqui temos um ritmo de trabalho que nas outras escolas as pessoas não têm. O facto de termos de conciliar as disciplinas normais com a música faz-nos ter uma resiliência de trabalho e uma organização que as outras pessoas não têm”, explicou a aluna de 11.º ano.
O Conservatório de Música do Porto, a escola pública que teve melhores médias nos exames do secundário em 2025, tem 1.025 alunos de 14 nacionalidades, do 1.º ao 12.º ano.
Envolve o regime supletivo, para aqueles que frequentam outra escola do ensino geral e depois frequentam ali a parte artística, os que articulam uma escola do ensino geral com o Conservatório e os alunos do ensino integrado que frequentam integralmente aquela escola, contou à Lusa o diretor.
Marco Pereira também não ficou surpreendido com a classificação no ranking, que disse resultar do esforço dos responsáveis do Conservatório de Música do Porto para serem “cada vez mais organizados, disponíveis e atentos àquilo que são as necessidades da sociedade”. Mas também de os alunos “desde muito pequenos adquirirem rotinas de trabalho muito positivas”.
Dessas rotinas, assinalou que os alunos aprendem a “escutar-se desde cedo” e, com isso, “saber avaliar-se” e “saber lidar, às vezes, com as limitações que precisam de ser ultrapassadas” o que lhes confere “qualidades e capacidades que acabam por se repercutir no seu percurso”.
A professora de Português Helena Vouga complementou o raciocínio do diretor argumentando, quando questionada se os alunos do conservatório são diferentes, que o seu “cérebro é ativado em outras partes” quando “começam a estudar música muito jovens”. “Isso pode potenciar que sejam melhores alunos”, afirmou.
Parte essencial desse processo passa, também, explicou a professora, pela redução dos trabalhos para casa, permitindo-lhes, assim, “dedicar muito tempo ao instrumento”. Trata-se de “uma gestão diferente, mais criteriosa” para alunos que, no 12.º ano, vão muitas vezes fazer provas nas faculdades de música no estrangeiro”.
Sobre o perfil do aluno do conservatório, Helena Vouga disse serem “pessoas empáticas, criativas”: “São músicos, mas no fundo são adolescentes, como outros quaisquer, só que têm uma grande carga de responsabilidade”.
Admitiu “ser complicado pensar, por exemplo, que eles estão de manhã na aula de Português e, à noite, estão a dar um concerto, ou a ser solistas, ou tocar na orquestra, na Casa da Música”.
"São especificidades que temos de ter em consideração. E eu, às vezes, nem sei como é que eles conseguem. É complicado. E portanto tem de haver muita compreensão também da parte do professor.”
Bruna Pereira confirma a descrição da docente: “Os professores encaram-nos de maneira diferente e percebem que nós temos outras responsabilidades (…) sendo o ensino direcionado para as nossas vocações e para o nosso percurso”.
Filha de um clarinetista, Bruna cumpriu todo o percurso escolar no Conservatório de Música do Porto e, embora tenha começado por tocar violoncelo aos 3 anos, confessa que se apaixonou pelo fagote.
Também aluna de fagote, Carolina Epalanga está no 12.º e, tal como Bruna, fez todo o percurso no Conservatório pelo gosto que “sempre teve pela música”. Contou-lhe a mãe que quando era pequena fazia harmonias ao ouvir a chuva cair. Com irmãos a estudar noutra escola, Carolina testemunha que quando tinha a idade deles tinha “mais responsabilidade do que eles têm agora”.
Fruto da exigência com que os alunos do Conservatório de Música do Porto são confrontados diariamente, a aluna afirmou-se segura de que, quando concluir a formação, irá “estar muito mais preparada” para se “desenrascar, ter mais responsabilidades, conseguir conciliar dois trabalhos ao mesmo tempo, por exemplo”.
Questionada sobre como é que concilia, por exemplo, ter aulas de manhã e um concerto à noite, Carolina explicou que os alunos estão “habituados desde pequenos a ter esses concertos”. “Temos sempre de ter calma, perceber que o dia vai ser longo e consolidar e guardar a energia para o concerto”, disse.
E também ajuda saber que tocar num concerto “é muito divertido”: “Estar a tocar e mostrar o que nós aprendemos ao público”.