
Começou a corrida à presidência do Banco Central Europeu. Depois de meses de especulação sobre uma saída antecipada, Christine Lagarde despediu-se esta quinta-feira da instituição que liderou desde novembro de 2019, informando que vai abandonar o banco central no dia 7 de fevereiro de 2027, oito meses antes do final do seu mandato.
Em dia de decisão sobre as taxas de juro, o foco já está no futuro, com o processo para encontrar um sucessor a começar desde já. O neerlandês KlaasKnot e o espanhol Pablo Hernández de Cos surgem apontados como os principais candidatos a suceder a Lagarde, mas poderão surgir outros nomes na corrida ao BCE.
“Deixo esta instituição com a sensação de ter realizado um bom trabalho e de deixar um BCE preparado para o futuro“, foi com esta declaração feita nas redes sociais que Christine Lagarde se despediu, poucas horas antes de comparecer esta quinta-feira na habitual conferência de imprensa após ser comunicada a decisão sobre as taxas de juro.
A oficialização da saída não é propriamente uma surpresa, mas deixa o segundo cargo por preencher no conselho de governadores do BCE, depois de também Isabel Schnabelter anunciar que vai deixar a instituição para assumir funções de destaque no Fundo Monetário Internacional (FMI). Já o economista-chefe Philip Lane deverá abandonar a sua posição em maio de 2027, numa verdadeira dança de cadeiras na autoridade da política monetária do euro. Apesar de apenas agora o Conselho Europeu começar a preparar a sucessão, há vários nomes que têm sido apontados para o cargo.
As três nomeações poderão ser acordadas num pacote negociado entre os Estados-membros, sendo que o cargo mais disputado é o de líder da entidade. Os dois principais candidatos a suceder a Lagarde são Pablo Hernández de Cos, que lidera o Banco de Pagamentos Internacionais, e o antigo presidente do banco central neerlandês Klaas Knot. Já o presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, poderá surgir como um terceiro nome na corrida, não sendo de excluir um candidato surpresa.
“Klaas Knot e Pablo Hernández de Cos são considerados os principais candidatos. Knot, um ‘falcão’, reforçaria provavelmente as expectativas de um maior aperto monetário, o que poderia ser positivo para o euro. Hernández de Cos, o mais ‘pomba’ dos dois, daria provavelmente maior ênfase ao crescimento e à estabilidade do mercado obrigacionista, o que é mais importante do que nunca, dada a pressão sobre a dívida francesa”, explica Matthew Ryan, Head of Market Strategy, da Ebury, numa nota onde comenta a saída de Lagarde.
Knot, um ‘falcão’, reforçaria provavelmente as expectativas de um maior aperto monetário, o que poderia ser positivo para o euro. Hernández de Cos, o mais ‘pomba’ dos dois, daria provavelmente maior ênfase ao crescimento e à estabilidade do mercado obrigacionista, o que é mais importante do que nunca, dada a pressão sobre a dívida francesa.
Dito isto, Ryan destaca que não acredita “que a transição altere a trajetória das taxas a curto prazo. O presidente define a agenda, mas, em última análise, é apenas uma voz no Conselho do BCE e raramente se sobrepõe ao consenso”. “Ainda assim, uma sucessão prolongada poderia introduzir volatilidade nos mercados num momento já frágil, pelo que quanto mais cedo for nomeado um sucessor, melhor”, argumenta.
“Os nomes apontados como possíveis sucessores são ambos banqueiros centrais muito competentes e com provas dadas, pelo que, para os mercados, a mudança não terá grande importância”, afirma Piet Haines Christiansen, economista do Danske Bank, citado pela Reuters.
Simon Dangoor, responsável pelo investimento macro em obrigações na Goldman Sachs realça que “o BCE é agora uma instituição bastante consolidada, e o mercado está familiarizado com a forma como opera”. “O comportamento institucional deverá sobreviver à saída de Lagarde e manter-se bastante semelhante, independentemente de quem assumir o cargo“, sustenta também à Reuters.
Klaas Knot, o neerlandês quer voar alto no BCE

O antigo presidente do banco central neerlandês Klaas Knot é o candidato dos Países Baixos à liderança do BCE. O economista liderou o banco central neerlandês durante dois mandatos, entre 2011 e 2025. Classificado como um falcão — termo dado a quem defende uma política monetária mais restritiva — , Knot conta com uma vasta experiência enquanto membro do conselho de governadores do BCE.
Nos seus 14 anos enquanto membro do conselho enfrentou dois momentos distintos na entidade. Com o italiano Mario Draghi na presidência mostrou a sua oposição às medidas de estímulo monetário anunciadas pelo então líder do BCE em plena crise da dívida. Já a convivência com Christine Lagarde, que substituiu Draghi em 2019, ficou marcada por uma harmonia perfeita.
Knot chegou ao BCE em plena crise da dívida soberana, que afundou a economia da região e ameaçou a sobrevivência do euro. Perante os riscos que persistiam na Zona Euro e que coincidiram com os pedidos de ajuda internacional de Portugal, Grécia e Irlanda, Draghi exerceu um papel de destaque na defesa do euro, com a expressão “whatever it takes” a marcar um ponto de viragem na crise, materializando-se na “bazuca” de medidas anunciadas. A reação nos mercados foi positiva, mas Knot expressou desde o início as suas reservas em relação às políticas de Draghi.
As críticas do neerlandês, primeiro feitas em privado, vieram a público no final de 2019, quando o italiano aprovou um novo pacote de estímulos, apesar da oposição de um terço dos membros do conselho.
Num momento em que a inflação no bloco enfrenta uma forte pressão devido à escalada dos preços dos combustíveis, Knot deverá privilegiar uma política de taxas de juro mais agressiva, para conter a inflação, o que poderá pesar no bolso das famílias, que já sentem a subida das taxas Euribor.
Numa corrida em que enfrenta o espanhol de Cos, o neerlandês poderá ter um apoio de peso para chegar a Frankfurt. França, que já teve dois presidentes (Jean-Claude Trichet e Christine Lagarde), poderá apoiar o neerlandês Klaas Knot, num acordo que permitiria ao Eliseu escolher o próximo economista-chefe do banco central, segundo avançou a Reuters recentemente.
Pablo Hernández de Cos: Pomba, ou falcão moderado?

Pablo Hernández de Cos, o antigo governador do Banco de Espanha e atual diretor-geral do Banco de Compensações Internacionais, é o candidato de Espanha ao BCE. Considerado uma “pomba” — que defende uma política monetária menos restritiva — moderada, de Cos liderou o banco central espanhol entre 2018 e 2024, um período em que a inflação se situou em valores extremamente baixos, seguido pela pandemia e por um ciclo histórico de subida das taxas de juro para conter a subida de preços galopante.
De Cos foi também economista-chefe do Banco de Espanha, tendo dado o passo pouco habitual de passar de um cargo técnico para uma função de decisão de política monetária, o que reflete o sucesso que alcançou ao reforçar a importância da investigação no banco central.
Descrito como um economista pragmático, apesar de ser caracterizado como “pomba”, entre 2022 e 2024, de Cos voou mais alto e vestiu o fato de “falcão”, defendendo subidas de juros.
No início deste ano, quando alguns dos principais banqueiros centrais do mundo manifestaram publicamente apoio a Jerome Powell, então presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, perante pressões políticas, terá sido De Cos um dos principais coordenadores desse processo.
Joachim Nagel, o falcão que rejeita críticas políticas ao BCE

O alemão Joachim Nagel, presidente do Bundesbank, deverá ser a escolha da Alemanha para entrar na corrida à sucessão de Lagarde. Com grande conhecimento dos mercados financeiros, liderança e gestão de crises, Nagel alterou profundamente a relação da Alemanha com o BCE. Enquanto o seu antecessor, Jens Weidmann, esteve durante anos em conflito aberto com o BCE de Mario Draghi, Nagel moderou o discurso e voltou a integrar-se no consenso da instituição, embora continue a ser um falcão moderado em matéria de política monetária.
Apesar de definir claramente as suas linhas vermelhas, o alemão está disposto a fazer compromissos noutras matérias. Também apoiou a criação do Sistema Europeu de Seguro de Depósitos, um projeto a que Berlim se opôs durante muito tempo, receando que os contribuintes alemães tivessem de suportar os custos da irresponsabilidade financeira de outros países.
Defensor da independência do BCE, Nagel tem rejeitado as críticas políticas à instituição e, recentemente, argumentou que algumas das propostas do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) seriam contraproducentes e poderiam afastar investidores. Membro do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), Nagel desempenhou anteriormente cargos de topo no Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) e no grupo bancário público alemão KfW.
Apesar de já ter manifestado o seu interesse à porta fechado para o cargo, a proposta de Nagel poderá enfrentar um travão, uma vez que seria inédito dois cidadãos alemães liderarem simultaneamente duas das mais importantes instituições da União Europeia: o BCE e a Comissão Europeia.
Haverá um candidato surpresa?
Há ainda a possibilidade de surgir, à última hora, um candidato-surpresa, à semelhança do que aconteceu em 2019, quando Macron apresentou inesperadamente Lagarde como principal candidata ao cargo de presidente do BCE. O antigo governador do Banco de França François Villeroy de Galhau poderá surgir como um candidato inesperado à presidência do BCE.
O BCE já subiu, este ano, duas vezes as taxas de juro para conter a escalada da inflação. Numa decisão amplamente esperada, o banco central subiu, na reunião de setembro, a taxa de Facilidade Permanente de Depósito para 2,50% e as taxas de refinanciamento e de cedência de liquidez para 2,65% e 2,90%, respetivamente. Já esta quinta-feira, a expectativa dos economistas é que a entidade deixe tudo como está, adiando para dezembro uma nova subida de juros.
“Este timing para o BCE está longe de ser o ideal. A saída de Lagarde ocorre numa altura em que a guerra no Irão mantém a inflação bem acima do pretendido, num nível que parece destinado a permanecer assim durante algum tempo”, destaca o responsável do Ebury, reforçando que “os mercados obrigacionistas europeus estão também sob pressão, com o spread franco-alemão no nível mais elevado desde 2011”.
As últimas semanas têm sido marcadas pela escalada das taxas de juro da dívida soberana, com as yields francesas a baterem máximos de várias décadas devido aos receios dos investidores em torno das contas públicas do país, deixando o BCE em prontidão.
Por outro lado, a guerra no Irão e o impacto nos preços da energia continuam a pressionar os preços na região, forçando o banco central a continuar a mexer nos juros para conter a subida da inflação.
Atualmente, os mercados estão a descontar mais três mexidas nas taxas até ao final do próximo ano, antecipando que o BCE aumente o juro dos depósitos para 3,25%, um nível que poderá restringir o crescimento económico na região.