O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, almoçou nesta sexta-feira (16) com dirigentes do Grupo Globo, no Rio de Janeiro, poucas horas antes de participar de uma sabatina no Jornal Nacional. O encontro ocorreu na sede da emissora, no Bairro Jardim Botânico, e reuniu o presidente do grupo, João Roberto Marinho, e o vice-presidente de Relações Institucionais, Paulo Tonet.
Flávio esteve acompanhado do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador-geral de sua campanha, e de um assessor de imprensa. A reunião foi confirmada pela Globo, que classificou a visita como institucional e informou que não houve participação de integrantes da equipe de Jornalismo.
Em nota, a emissora afirmou que encontros desse tipo fazem parte da rotina dos executivos e que candidatos a cargos eletivos costumam solicitar visitas institucionais. Segundo a Globo, o almoço foi realizado a pedido de Flávio Bolsonaro.
Lula não teve encontro com executivos
A reunião gerou questionamentos porque ocorreu no mesmo dia da entrevista de Flávio ao Jornal Nacional. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), adversário do senador no segundo turno, participou da sabatina na quinta-feira (15), mas não almoçou com a direção da emissora.
Integrantes da campanha petista manifestaram desconforto com a diferença de tratamento. O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, Sidônio Palmeira, questionou a conveniência de receber um dos candidatos para um encontro reservado no dia da entrevista eleitoral.
A Globo argumentou que Lula não solicitou uma visita institucional semelhante. A emissora sustentou que esse tipo de reunião depende de pedidos feitos pelos próprios candidatos.
Segundo encontro antes da eleição
O almoço desta sexta-feira foi o segundo encontro de Flávio com a cúpula da Globo. A reunião anterior ocorreu antes do início oficial da campanha, durante uma rodada de visitas do senador a grandes veículos de comunicação.
O compromisso antecedeu a sabatina conduzida pela jornalista Renata Lo Prete, prevista para depois do Jornal Nacional. A entrevista integra a programação da emissora para o segundo turno da eleição presidencial, disputado entre Flávio Bolsonaro e Lula.
A Globo também prevê um debate entre os dois candidatos em 23 de outubro, dois dias antes da votação. A participação de Flávio ainda depende da confirmação formal da campanha.
A primeira pesquisa CNT/MDA sobre o segundo turno da eleição presidencial de 2026 aponta uma disputa acirrada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Divulgado nesta sexta-feira (16), o levantamento mostra Flávio com 50,5% das intenções de voto válidas, enquanto Lula aparece com 49,5%. Os dois estão tecnicamente empatados.
No cálculo dos votos válidos, são desconsideradas as respostas de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo, além dos que ainda estão indecisos. Esse é o critério utilizado pela Justiça Eleitoral para definir o resultado das eleições.
No cenário estimulado, quando os entrevistados recebem os nomes dos candidatos, Flávio registra 46,8% das intenções de voto, ante 45,9% de Lula. Outros 4,9% afirmam que votarão em branco ou nulo, enquanto 2,4% não souberam responder.
A pesquisa espontânea, na qual os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, também mostra vantagem numérica do senador. Flávio tem 45,6%, contra 44,1% do presidente.
O levantamento também mediu a disposição dos eleitores em votar nos dois candidatos. Flávio Bolsonaro soma 43,9% de eleitores que afirmam votar nele com certeza e outros 7,3% que admitem essa possibilidade. No total, seu potencial de voto chega a 51,2%. Já 46,6% dizem que não votariam no senador.
Segundo a pesquisa, 93% dos entrevistados estão convictos de sua escolha, enquanto 7% ainda admitem a possibilidade de mudar o voto.
Avaliação do governo
O levantamento também avaliou a gestão federal. A avaliação positiva do governo Lula, que reúne as respostas ótimo e bom, chegou a 38%. Na pesquisa anterior, divulgada em 3 de outubro, o índice era de 35%.
A avaliação negativa, que reúne ruim e péssimo, passou de 41% para 40%. Já a parcela que considera a administração regular caiu de 23% para 21,8%.
Em relação à aprovação pessoal do presidente, 47,7% dos entrevistados aprovam sua atuação, enquanto 49,3% desaprovam. Outros 3% não souberam ou não responderam.
A pesquisa CNT/MDA ouviu 2.014 eleitores em todo o país entre os dias 13 e 15 de outubro, por meio de entrevistas presenciais. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
O levantamento foi contratado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-00652/2026.
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Imagine de uma noite para a outra você ficar sem o seu WhatsApp, Instagram e sem seu número de telefone? Foi o que aconteceu com a arquiteta e urbanista Carolina Martins, 43 anos, moradora de Brasília. Ela coordena uma comunidade no WhatsApp de mobilização para “virar voto” em prol da candidatura de Lula. A comunidade tem um grupo de bate-papo e ambos foram suspensos pela Meta (dona do WhatsApp, Instagram e Facebook) sob a alegação de “atividade relacionada a organizações terroristas”.
A suspensão ocorreu no último dia 8 de outubro e o grupo ficou paralisado por pelo menos três dias. Martins adoeceu. Teve uma crise de fibromialgia e ficou acamada boa parte do tempo. Até agora ela conta que está sem seu número, que foi bloqueado, e só está conseguindo voltar aos aplicativos e à gestão do grupo pois adquiriu outro chip de telefone.
“Eu tenho fibromialgia, então assim, fiquei tão estressada, sem andar. Para além das outras coisas, dos atentados à soberania, nossa liberdade de reunião e de expressão, teve toda essa parte da minha saúde emocional”, contou a arquiteta à Agência Pùblica.
Comunidade e grupo de bate-papo pró-Lula foram suspensos por atividade relacionada a organizações terroristas
Martins já está com o Instagram ativo novamente e com a comunidade, que tem agora 895 participantes. Antes do bloqueio, a comunidade tinha atingido o limite de mil membros. Por intermédio de uma amiga ela conseguiu contato com a Meta e apurou que o bloqueio teria se dado por uma suposta “falha de tradução” de um monitoramento da comunidade que apontou “disruptive behaviour” (comportamento perturbador), o que teria sido interpretado como terrorismo.
Meta bloqueia vídeo crítico a Flávio por “nudez infantil”
Já o professor e artesão Karl Hadzic Júnior, 47 anos, morador de São Paulo, republicou em sua timeline o vídeo viral “como mãe de menina, meu voto jamais será dessa família”, postado originalmente pela professora paraense Vanessa Silva, no dia 7 de outubro, e que teve quase 45 mil compartilhamentos e 115 mil curtidas. O vídeo foi bloqueado pela Meta também no dia 8 de outubro, sob a acusação de ter ferido padrões de comunidade sobre nudez infantil.
O vídeo começa com uma foto de Silva abraçada com a filha, sem expor nenhuma região sensível da garota. A publicação utiliza um vídeo de Flávio Bolsonaro que ficou conhecido em 2023 no qual ele aparece sem camisa, supostamente imitando o irmão Jair Renan, dizendo: “sou filho do presidente, quer me dar?”.
Vídeo que viralizou no Instagram e foi marcado pela Meta como conteúdo sensível
O vídeo de Silva segue no ar, mas foi sinalizado com um filtro do Instagram que aparece antes da reprodução, informando sobre “conteúdo sensível”. A professora contou à Pública que várias pessoas que publicaram o vídeo nos stories disseram a ela que a publicação foi suspensa ou até mesmo tiveram as contas bloqueadas.
A Pública procurou a Meta para ouvir a companhia sobre casos relatados nessa reportagem, mas não houve resposta.
Professor compartilhou vídeo crítico a Flávio Bolsonaro, mas foi bloqueado pela Meta por nudez infantil
MPF pede esclarecimentos à Meta após levantamento indicar parcialidade nos bloqueios
Tanto o caso de Marins, quanto de Júnior foram compilados pela organização social brasileira Ctrl+Z, voltada ao enfrentamento dos abusos e do modelo de operação das grandes empresas de tecnologia, que reuniu mais de mil denúncias de usuários de produtos da Meta e do X que relatam casos de bloqueio ou suspensão de contas e postagens relacionados às eleições.
A Públicamostrou como esse levantamento indica que a Meta tem barrado mais conteúdos pró-Lula e progressistas que pró-Flávio. Reportagem da Folha mostrou que funcionários da Meta admitiram em mensagens internas que a “conta de Lula estava ‘limitada’ em comparação à de Flávio, e que isso seria negativo pela “alta chance” de haver ação jurídica”.
O levantamento da Ctrl+Z ganhou apoio das organizações de direitos humanos Conectas, Artigo 19 e Sleeping Giants Brasil e transformou-se em uma representação à Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal (MPF) que abriu uma investigação no último dia 13 e pediu, no dia seguinte, uma série de esclarecimentos à Meta.
A reportagem da Pública teve acesso ao ofício do MPF, à representação e a um anexo contendo 74 relatos de casos envolvendo suspensões e bloqueios de posts e perfis de usuários do Instagram e do WhatsApp. Dos 74 relatos, recolhidos entre 25 de setembro e 9 de outubro, 33 (44,5%) aconteceram no dia 8 de outubro.
O levantamento foi iniciado pela CTRL+Z em 25 de setembro, dois dias após a Meta ter suspendido o perfil no Instagram do projeto Revelando Brasil, que postou no YouTube o vídeo viral sobre as ligações entre a igreja Batista da Lagoinha e o escândalo do Banco Master. Devido à repercussão do caso, a Meta liberou o perfil novamente.
Meta é investigada por violação da liberdade de expressão
A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) apura na investigação a regularidade e a legalidade das práticas de moderação de conteúdo adotadas pelo X e pela Meta, e verifica se a companhia está violando a liberdade de expressão dos usuários.
Segundo as organizações, os atingidos formam um conjunto heterogêneo de perfis orgânicos, sem vínculo direto com candidaturas, partidos, federações ou coligações. A denúncia narra que a maioria dos afetados são cidadãos comuns, mas há dezenas de influenciadores, comunicadores, pesquisadores e movimentos estudantis e sociais.
“Ao que tudo indica, há falhas graves na moderação e aplicação irregular da lei, com conteúdos políticos classificados erroneamente como exploração sexual infantil ou terrorismo”, afirmam os autores da denúncia ao MPF.
O procedimento da PFDC apura como se dá a moderação automatizada de conteúdo e restrições desproporcionais ou injustificadas aplicadas a perfis, publicações e funcionalidades de cidadãos, jornalistas, veículos independentes de imprensa, entidades estudantis e movimentos sociais nas plataformas controladas pela Meta.
A PFDC remeteu cópia integral do procedimento ao coordenador-Geral de fiscalização da ANPD, Fabrício Madruga, pois as organizações autoras da denúncia relatam a aplicação de sanções recorrentes por sistemas automatizados/algorítmicos sem notificação adequada, a ausência de motivação individualizada e a falta de canais efetivos de revisão aos donos dos perfis, o que fere deveres de transparência das plataformas digitais e a forma como tratam os dados dos clientes.
À Meta e ao X, o MPF indaga se as medidas de moderação noticiadas foram promovidas, indicando a conta ou publicação atingida, as plataformas em que foram aplicadas, a data e o horário de sua adoção e sua duração; a natureza exata da medida adotada e seus fundamentos fáticos e jurídicos; se a medida permanece em vigor ou foi revertida, indicando, neste último caso, a data da reversão e as suas razões; os procedimentos adotados para garantir a notificação prévia, a motivação individualizada e o canal de recurso ao usuário e se há mecanismos internos de auditoria e correção de erros de moderação em massa.
O MPF deu cinco dias para a Meta e para o X responderem ao ofício e quer uma explicação para cada medida de moderação tomada contra cada perfil listado na representação feita pelas ONGs. Esse prazo vence no início da última semana antes da votação do segundo turno.
Ainda em relação a cada uma dessas medidas, devem ser esclarecidos seus fundamentos jurídicos ou contratuais. Deve ser informado, para cada caso, se a medida de moderação foi adotada espontaneamente pela empresa, se foi a Meta quem identificou a irregularidade ou se houve denúncia, notificação ou reclamação apresentada por terceiros ou se a Meta cumpria ordem judicial.
A reportagem questionou a Meta sobre as denúncias e o procedimento do MPF, que ainda não respondeu.
Ministério Público Federal deu prazo para Meta e X responderem sobre critérios de moderação de contas durante o período eleitoral
Bloqueios em série de perfis progressistas
Em conjunto, os casos compilados pela CTRL+Z descrevem restrições à liberdade de expressão no ambiente digital em diferentes níveis: perda do perfil inteiro, retirada de uma publicação, bloqueio apenas para quem acessa do Brasil, restrição de mensagens e dificuldade de publicar ou republicar conteúdo. Em alguns relatos, houve recuperação posterior; em outros, o acesso continuava indisponível na data da manifestação. Vários denunciantes relataram não ter recebido explicação individualizada ou não ter conseguido recorrer.
Uma categoria importante de contas que sofreram restrições são aquelas vinculadas a coletivos ou organizações. Por exemplo, a União Paranaense dos Estudantes — UPE Paraná (@upeparana) relatou a derrubada de seu antigo perfil quando este se aproximava de 600 mil visualizações.
O coordenador do Diretório Acadêmico Alfredo Balena, da UFMG, informou que a conta da entidade foi apagada um dia depois de uma postagem de apoio a um dos candidatos à Presidência da República e a candidaturas em Minas Gerais. Houve restrição também ao perfil do DCE da UFMG, cuja suspensão ocorreu durante uma mobilização estudantil.
O perfil do Movimento Sem Terra no Pará teria sido desativado desde a noite de 2 de outubro, mesmo após o setor de comunicação ter realizado os procedimentos de autenticação solicitados pela plataforma.
A representação também relata o bloqueio de perfis de jornalistas como Eduardo Moreira, dono do ICL, de postagens da Mídia Ninja, Folha de S. Paulo e Amado Mundo.
O presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), promulgou nesta sexta-feira (16) a proposta de emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de trabalho 6×1, em sessão solene com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Candidato à reeleição, Lula tem no fim da escala 6×1 — seis dias de trabalho para um de descanso — uma bandeira eleitoral para melhorar sua popularidade entre os trabalhadores. A aprovação da PEC decorre também da reaproximação de Lula e Alcolumbre.
O presidente do Senado bancou a votação, a despeito da pressão da oposição e do empresariado, trabalhou pelo calendário especial que garantiu a votação em dois turnos na última quarta-feira (14) e comemorou a aprovação em plenário.
A redução da jornada semanal máxima de 44 horas para 40 horas foi aprovada na Câmara e no Senado por ampla maioria de votos, com apoio do governo, do Centrão e da oposição.
A Emenda Constitucional 141 torna obrigatória a concessão de dois dias de folga semanais aos trabalhadores formais. O dia adicional de descanso passa a valer daqui a 60 dias, quando também terá início a primeira redução da jornada semanal, para 42 horas. A segunda e última etapa, com a redução para 40 horas, será aplicada 12 meses depois.
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), outro fiador da aprovação da PEC, também participou da sessão solene.
Pec da aposentadoria de agentes de saúde também é promulgada
O presidente do Senado também promulgou a PEC que cria uma aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e efetiva vínculos temporários. A proposta agora é a Emenda Constitucional 140.
O governo se opôs à proposta e tentou retirar do texto a previsão de paridade e integralidade, que garantem aos aposentados o mesmo salário dos profissionais da ativa e reajuste anual igual ao dos que continuam trabalhando, mas a negociação não avançou.
A equipe econômica calcula que a emenda gere um custo de R$ 30 bilhões em dez anos, enquanto relatores afirmam que a estimativa é exagerada. Após a aprovação no Senado, em julho, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, sinalizou que o governo pode recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal) caso o Congresso não aponte a fonte de receitas para compensar os gastos extras.
Apesar de considerar a flexibilização da aposentadoria dos agentes uma espécie de pauta-bomba, a base do governo moderou as críticas ao texto. Os agentes comunitários de saúde são vistos como uma categoria organizada e com certo poder de influência nas bases.
O peso do grupo foi visto durante a votação da PEC na Câmara dos Deputados, quando centenas de agentes ocuparam as galerias do plenário. Nesta sexta-feira, um pequeno grupo estava nas galerias do Senado. Após a assinatura, os presentes gritavam agradecimentos direcionados ao presidente Lula.
Os agentes comunitários de saúde atuam na vigilância epidemiológica, como no combate à dengue e à leishmaniose, na busca ativa por pessoas contaminadas para o controle de doenças contagiosas e no acompanhamento da vacinação infantil e dos programas de saúde da família.
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Na manhã seguinte à histórica conquista dos trabalhadores brasileiros — o fim da jornada 6×1 —, a manchete do UOL me pega de susto: “Oposição tenta revidar fim da 6×1 com redução da maioridade penal”. Na Folha, o destaque foi o mesmo.
Ver as propostas de duas mudanças constitucionais de grande impacto social colocadas lado a lado apenas como bandeiras de candidatos que se contrapõem, soou, para mim, como nova demonstração da distância entre a imprensa noticiosa e a sociedade brasileira.
Sim, a aprovação do fim da jornada de 44 horas semanais é também uma vitória de Lula, que encampou a bandeira de uma campanha que nasceu no final de 2023, quando um vídeo no TikTok feito por um balconista de farmácia sobre a vida dos que trabalham duro com um dia de descanso viralizou na internet.
Mas, como reconheceu o presidente, essa é uma campanha “que veio da rua”, “uma conquista histórica do povo trabalhador”. E que para emplacar terá que contar com a vigilância implacável da sociedade e das instituições, incluindo, claro, a própria imprensa.
Desde que o desabafo do ex-balconista Rick Azevedo, eleito vereador pelo PSOL no Rio de Janeiro no ano seguinte – 2024 —, invadiu as redes, a luta pelo fim da 6×1 ganhou as ruas como legítima aspiração popular. E as manifestações só cresceram depois que a reivindicação se tornou uma PEC, em fevereiro de 2025, por iniciativa da deputada federal Erika Hilton (PSOL) e do deputado Reginaldo Lopes (PT).
Os três políticos — Rick, Erika e Lopes — venceram as últimas eleições para deputado federal e são aliados do presidente Lula, ou seja, é esperado do candidato do PT assumir a proposta, que também ganhou força com a adesão dos sindicatos. Aproveitar o momento eleitoral para emplacar mudanças é uma antiga e eficiente estratégia dos movimentos sociais, agora trazendo o apoio decisivo de Lula e obrigando os partidos de direita e extrema direita — desde o início contrários ao projeto — a aprová-la.
Não faz sentido equiparar essa “conquista histórica do povo trabalhador”, “que veio da rua”, como reconheceu o presidente Lula, a ações “populistas”, como fez o Globo, ao encaixá-la entre outras medidas do governo lançadas durante a campanha, que realmente podem ser consideradas “eleitoreiras”, ainda que, no mérito, tenham valor para a população.
O jornalismo tem que se guiar pelo interesse público e isso inclui reconhecer as vitórias da sociedade e denunciar os riscos que determinadas propostas implicam para a democracia e os direitos constitucionais dos cidadãos, como a redução da maioridade penal, assunto grave demais para ser tratado apenas como um “revide” eleitoral.
Até porque, enquanto a primeira proposta nasceu da mobilização popular, a segunda é fruto de um sentimento de insegurança, ressentimento e também de desinformação da população, explorado por políticos e pela própria imprensa de modo a se tornar majoritário na opinião pública, o que, de fato, dificulta o debate.
Mas, como jornalistas, temos que encarar a missão de mostrar o que significa na prática encarcerar adolescentes em cadeias superlotadas onde a revolta e a necessidade de sobrevivência favorecem o recrutamento de jovens pelas facções. Também temos que explicar como essa proposta, além de cruel, é inócua para a segurança pública, onde a esmagadora maioria dos adolescentes é antes vítima do que autora da violência.
Onde está a discussão de interesse público, para além da campanha eleitoral, apontando o risco que isso representa para a Constituição brasileira e para a sociedade, que a imprensa conhece tão bem?
Não sou eu que estou dizendo que reduzir a maioridade penal não reduz crimes — são os especialistas em segurança pública, diversas vezes entrevistados pelos jornais. Não é equilibrado publicar críticas substantivas de estudiosos como opinião e retratar um debate tão complexo como se fosse contraposição de dois lados representados como caricaturas: os “linha-dura” e o “povo dos direitos humanos”. Como o debate vai evoluir partindo de ponto equivocado?
Aliás, a imprensa deveria estar mais preocupada com ética do que nunca, quando sua credibilidade foi colocada em xeque pelas últimas revelações sobre Daniel Vorcaro, que atingem alguns veículos em cheio – e sabe-se lá quantas mais virão.
Além de sites de empresários amigos, como o Platô BR, o banqueiro fraudador montou uma rede de veículos que dependiam de publicidade do Master, como IstoÉ, Brazil Journal, Carta Capital e DCM. Antes disso já havia indícios de compra de influência através de patrocínio do banqueiro no site O Bastidor.
Mas também tem peixe grande na rede de Vorcaro – que parece ter penetrado a imprensa como fez com o Congresso e o STF. O grupo Globo teve que demitir um diretor com 29 anos de casa, flagrado em mensagens com Vorcaro, comprometendo-se a pressionar jornalistas que incomodam os interesses do banqueiro; o portal Metrópoles, de propriedade do empresário Luiz Estevão, chegou a se rebaixar a ponto de liberar a edição de textos ao banqueiro fraudador. Isso sem falar das suspeitas que envolvem a revista Veja, com a publicação às vésperas do primeiro turno do áudio de Vorcaro contra Lula, que, segundo hipótese da PF, teria sido gravado na prisão, a pedido de Flávio Bolsonaro.
Sem credibilidade nem sintonia com a sua função social, esse setor da imprensa, que se declara acima do bem e do mal, ameaça afundar o próprio jornalismo. Talvez seja a hora de os defensores da democracia e dos direitos constitucionais apoiarem com firmeza a imprensa independente — como a Pública, a Ponte, a Alma Preta, o Intercept e tantos outros — que não depende de anúncios nem de favores de poderosos, mas apenas da valorização do jornalismo pela sociedade.
Parabéns aos trabalhadores brasileiros e a todos que se mobilizaram pela conquista da jornada 5×2. Estaremos juntos na cobrança ao cumprimento dessa tão esperada mudança na prática, seja quem for que vencer a eleição.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu a responsabilidade pela dificuldade de compreensão da sociedade sobre os resultados de seu governo. A declaração ocorreu durante sabatina promovida pela TV Globo nesta quinta-feira (15/10). Questionado pela jornalista Renata Lo Prete sobre a rejeição à sua gestão, Lula afirmou: “Se quando as coisas dão certo, sou eu que ganho, quando elas não dão certo, sou eu que perco”. O petista também lamentou a dificuldade de comunicar melhor as ações do governo.
Lula defendeu sua articulação com o Congresso Nacional. Ele afirmou que aprovou 99% das propostas de sua gestão e contou com o apoio de diferentes partidos. Segundo o presidente, uma base ampla é essencial para garantir a governabilidade.
Apesar do cenário eleitoral, Lula demonstrou confiança na vitória no segundo turno, marcado para 25 de outubro. O presidente participou da sabatina e respondeu a perguntas de jornalistas.
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A dez dias do segundo turno da eleição presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) tem 51% das intenções de votos válidos, ante 49% de Lula (PT), configurando assim um empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais do levantamento. Há uma semana, a diferença entre eles era de quatro pontos no quesito, com o senador marcando 52% e o incumbente, 48%. A Justiça Eleitoral usa o voto válido, que exclui brancos e nulos, para a contagem final no dia da eleição. No caso de levantamentos de intenção, são retirados da conta também os indecisos. Nos votos totais, que incluem esses três quesitos, Flávio tem 47% e Lula, 45%. Na pesquisa anterior do Datafolha, o primogênito de Jair Bolsonaro tinha 49%, ante os mesmos 45% do presidente. A oscilação negativa do senador se refletiu nos brancos e nulos, que foram de 5% para 6%, e nos indecisos, que variaram de 1% para 2%. A movimentação de rua em favor de Lula registrada na última semana não se refletiu em intenção de voto no cômputo geral, restando saber se funcionará para levar ausentes no primeiro turno para o voto no dia 25. A abstenção na primeira rodada foi de 33,4 milhões de eleitores, e o petista perdeu por 2,2 milhões para o senador. O instituto ouviu 2.520 eleitores de terça (13) a quarta (14) em 153 municípios, em um trabalho encomendado pela Folha. A pesquisa está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-00466/2026. Do ponto de vista de grandes estratos socioeconômicos, Flávio tem liderança importante no Sudeste, que concentra 42% da amostra do Datafolha e é foco de ambas as campanhas. Na região, ele bate Lula por 51% a 41% dos votos totais, índice semelhante ao da semana passada. Ele também tem vantagem mais expressiva na classe média que ganha de 2 a 5 salários mínimos, que compõe 37% da amostra, marcando 55% ante 40% do presidente. Lidera com mais folga entre os 14% de sulistas, com 57% a 35%, e entre os 30% de evangélicos (62% a 29%), embora no grupo religioso tenha oscilado sete pontos para baixo, dentro da margem específica de quatro pontos percentuais do segmento. Já o presidente compensa com a força usual entre os 47% mais pobres (53% a 38%), entre os 48% de católicos (52% a 42%), 27% de menos instruídos (56% a 36%) e 27% de nordestinos (61% a 32%). O petista tem vantagem de 49% a 40% entre as mulheres (51% dos ouvidos), enquanto Flávio o bate por 52% a 40% entre os homens (49% dos entrevistados). Com ampla presença de jovens, as manifestações pró-Lula podem estar ligadas à inversão de posição entre os rivais no segmento de 16 a 24 anos: o petista bate o senador por 50% a 43%, o mesmo placar pelo qual perdia. Só que esse grupo tem uma margem de 6 pontos, o que impede conclusões definitivas, e representa 12% da amostra. Apesar do empate técnico nas intenções de voto, 54% dos entrevistados dizem achar que Flávio ganhará a eleição, contra 37% que apostam em Lula e 10% que dizem não saber. No quesito rejeição, a polarização segue viva: 46% afirmam não votar no petista de forma alguma, ante 44% que declaram o mesmo sobre o candidato do PL. A pesquisa também aponta estabilidade na avaliação do governo Lula: 41% a consideram ruim ou péssima, 35%, ótima ou boa e 23%, regular. Na rodada anterior, os números eram de 40%, 35% e 24%, respectivamente. LULA MUDOU RUMO DA CAMPANHA O tira-teima da eleição até aqui mais parelha desde a redemocratização de 1989 ocorrerá daqui a dez dias. Se a primeira pesquisa desta etapa feita pelo Datafolha havia captado o momento inicial favorável a Flávio, a segunda fez a mensuração da nova tática do PT para tentar manter Lula no Planalto. O partido passou a apostar em uma mobilização de rua inaudita na esquerda mesmo na campanha que o levou ao terceiro mandato, quando derrotou o pai de Flávio no segundo turno de 2022. Multidões foram registradas em cidades como São Paulo e Rio, um movimento que agora tentará ser emulado pelo senador. A disputa também se acirrou na seara digital, temperada pelo conflito no Judiciário que tem marcado a campanha. A criação do canal de WhatsApp “Exército de Lula” pelo deputado André Janones (Rede-MG) virou objeto de uma guerra de decisões, em que saiu chamuscado o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, acusado de pró-Flávio. Por fim, Lula zerou cobranças federais sobre combustíveis neste mês e lançou um pacote para microempreendedores individuais, entre outras medidas. Acima de tudo, aposta no efeito da aprovação da PEC do fim da escala 6×1, ocorrida nesta quarta (14) quando o Datafolha já havia encerrado dois dias de levantamento, logo o eventual impacto só será aferido de fato na semana que vem. FLÁVIO VENDE IMAGEM DE ELEITO No horário eleitoral gratuito, que voltou ao ar na sexta-feira (9), Flávio tem se apoiado na vitória por 47,03% a 45,16% dos válidos contra Lula no primeiro turno, reafirmando que encarna o sentimento de mudança, e prometendo governabilidade com o Congresso de ampla maioria de direita eleito em 4 de outubro. O senador tem se comportado como virtual eleito, costurando apoios, mas causou apreensão em setores mais moderados ao sugerir mudanças na Constituição visando a “redemocratizar” o país, além de promover reformas no Judiciário. O impeachment de magistrados, Alexandre de Moraes à frente, é uma de suas bandeiras, e a composição mais bolsonarista do Senado sugere força ao movimento. O senador foi obrigado a mudar de posição e declarar voto favorável à popular pauta do fim da escala 6×1, pelo que vinha sendo pressionado pelo campo petista Lula havia tomado a bandeira para si desde o primeiro turno. Ainda assim, prometeu rever o tema se for eleito, e tenta emplacar ainda o debate sobre a redução da maioridade penal. Ambos os rivais irão se enfrentar pela primeira vez ao vivo no debate previsto para o domingo (18) na Band. Desde a redemocratização, nenhum candidato que ficou em segundo no primeiro turno virou o jogo na segunda rodada, mas tanto Bolsonaro contra Lula em 2018 quanto Aécio Neves (PSDB) contra Dilma Rousseff (PT) em 2014 chegaram perto, perdendo por margens mínimas.
A possibilidade de reduzir de 18 para 16 anos a maioridade penal em casos de crimes hediondos abriu uma divergência na base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Senado. A medida é discutida como alternativa à proposta defendida por aliados de Flávio Bolsonaro (PL), que pretendem ampliar a redução da idade penal e incluir a possibilidade de responsabilização a partir dos 14 anos em determinadas situações.
A discussão ocorre durante a tramitação da PEC da Segurança Pública, que chegou à pauta do Senado em meio à disputa eleitoral do segundo turno. Enquanto o governo tenta fortalecer sua atuação no tema, senadores petistas resistem à mudança por considerá-la contrária à posição histórica do partido sobre a maioridade penal.
Integrantes da bancada do PT se reuniram na quarta-feira (14) para discutir a possibilidade, mas não chegaram a um consenso. A divergência pode interferir no calendário de votação da proposta, prevista para ser analisada pelo plenário nesta quinta-feira (15).
Emenda prevê mudança restrita
A alternativa em discussão prevê reduzir a maioridade penal apenas para pessoas de 16 e 17 anos que cometerem crimes classificados formalmente como hediondos. A iniciativa é articulada pelo líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), que busca apoio para apresentar uma emenda ao texto.
A proposta também recebeu apoio do senador Eduardo Braga (MDB-AM) e tem a simpatia de Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). O senador Rogério Carvalho (PT-SE), relator da PEC, tenta mediar as divergências entre os parlamentares.
Há duas possibilidades em debate. Uma delas é incorporar a redução restrita ao relatório da PEC da Segurança Pública. A outra é apresentar a mudança em uma emenda separada, contrapondo-a diretamente à proposta dos aliados de Flávio Bolsonaro.
Na justificativa, Camilo Santana argumenta que a alteração aproximaria a legislação brasileira da adotada em outros países e dificultaria o recrutamento de adolescentes por organizações criminosas para atividades de maior risco.
O texto sustenta ainda que crimes graves praticados por adolescentes devem ter consequências proporcionais. A proposta, porém, enfrenta resistência de parlamentares que rejeitam alterações na legislação para ampliar a punição penal de pessoas mais jovens.
Disputa eleitoral pressiona o debate
A movimentação da base governista ocorre após aliados de Flávio Bolsonaro apresentarem uma emenda para reduzir a maioridade penal de forma mais ampla. A iniciativa foi articulada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha do candidato do PL.
A estratégia coloca o governo diante de uma disputa política sobre segurança pública. Aliados de Flávio buscam pressionar os governistas a se posicionarem contra a redução da maioridade penal, enquanto integrantes da base de Lula tentam construir uma alternativa que limite a mudança aos crimes considerados mais graves.
Lula passou a dar maior destaque à segurança pública na reta final da campanha. O presidente e seus aliados também defendem a criação de um Ministério da Segurança Pública, prevista no plano de governo para um eventual novo mandato. A implementação da medida é vinculada pelo governo à aprovação da PEC.
O debate acontece após o Senado aprovar a proposta de redução da jornada semanal de trabalho e do fim da escala 6×1, uma pauta defendida pela esquerda. A segurança pública passou a ocupar espaço central na disputa entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.
A PEC da Segurança Pública teve seu texto aprovado pela CCJ após uma tramitação que avançou em setembro e foi concluída nesta quarta-feira (14). A discussão sobre a maioridade penal, entretanto, acrescentou uma nova divergência à proposta e pode dificultar a construção de um acordo para a votação em plenário. (Com informações de JOÃO GABRIEL, THAÍSA OLIVEIRA E CAROLINA LINHARES/Folhapress)
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega à reta final da campanha eleitoral com vitórias no Congresso em uma série de pautas de apelo popular. Entre elas estão o fim da escala de trabalho 6×1, mudanças nas regras para microempreendedores individuais (MEIs), perdão de dívidas e a proposta de emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública.
As medidas avançaram em diferentes etapas legislativas nesta semana. Na quarta-feira (14), o Senado aprovou, em dois turnos, a proposta que reduz a jornada semanal máxima de 44 para 40 horas e prevê dois dias de descanso remunerado. Na Câmara, os deputados aprovaram mudanças no enquadramento do MEI, incluindo a elevação do limite de faturamento e a remissão de débitos inscritos na Dívida Ativa da União. Já a PEC da Segurança Pública concluiu a votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e seguiu para o plenário.
O conjunto de medidas amplia a presença de pautas econômicas e sociais na agenda política a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial, disputado por Lula e Flávio Bolsonaro (PL).
Fim da escala 6×1 é aprovado pelo Senado
A proposta que extingue a escala tradicional de seis dias de trabalho para um de descanso foi aprovada pelo Senado por 75 votos favoráveis e um contrário em cada turno. Como o texto é o mesmo aprovado anteriormente pela Câmara, a matéria pode seguir para promulgação pelo Congresso Nacional.
A PEC prevê a redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial, e a adoção de cinco dias de trabalho e dois de descanso remunerado como regra.
A mudança, porém, não entra em vigor imediatamente. O texto estabelece um período de transição para que empresas e empregadores se adaptem aos novos limites de jornada.
A aprovação representa um avanço para uma das principais pautas trabalhistas em debate no país e ocorre em um momento de disputa política em torno de medidas voltadas aos trabalhadores.
Câmara aprova perdão de dívidas e aumento do teto do MEI
Outra medida avançou na Câmara dos Deputados. Os parlamentares aprovaram, por 461 votos a quatro, um projeto que prevê mudanças nas regras para os microempreendedores individuais.
A proposta eleva o limite de faturamento anual do MEI dos atuais R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027 e R$ 140 mil em 2028. O texto também permite a contratação de até dois empregados, desde que sejam respeitadas as condições previstas na proposta.
O projeto inclui a remissão integral de determinadas dívidas de MEIs inscritas na Dívida Ativa da União até 13 de outubro de 2026. A medida poderá beneficiar cerca de 3,6 milhões de microempreendedores com débitos estimados em R$ 12,6 bilhões.
O benefício prevê condições para sua manutenção, entre elas a regularidade dos recolhimentos posteriores à entrada em vigor da futura lei. O texto também estabelece exigências para beneficiários que tenham ações judiciais relacionadas às dívidas.
Apesar da aprovação expressiva na Câmara, a proposta ainda precisa ser analisada pelo Senado. Portanto, o perdão das dívidas e as mudanças no limite de faturamento não estão integralmente em vigor.
Governo anuncia medidas para aliviar dívidas dos pequenos negócios
Além do projeto aprovado na Câmara, o governo federal anunciou iniciativas para facilitar a renegociação de débitos bancários de microempreendedores.
A proposta inclui a compra de carteiras de dívidas de MEIs pelo governo, com exigência de descontos mínimos de 90% por parte das instituições financeiras participantes. A estimativa oficial identifica aproximadamente R$ 6 bilhões em débitos bancários que poderão entrar nessa operação.
O pacote também prevê medidas para ampliar o acesso dos pequenos empreendedores a recursos para investimento e reduzir exigências burocráticas.
As iniciativas têm alcances e estágios diferentes. Enquanto algumas já avançaram no Congresso, outras dependem de regulamentação, estruturação operacional ou aprovação legislativa para produzir todos os efeitos previstos.
PEC da Segurança Pública avança no Senado
Na área da segurança, a PEC 18/2025 concluiu a tramitação na Comissão de Constituição e Justiça do Senado na quarta-feira (14) e seguiu para análise do plenário.
A proposta busca ampliar a integração entre os órgãos de segurança pública e estabelecer novas diretrizes constitucionais para a atuação da União, dos estados e das forças policiais.
O texto ainda precisa ser votado pelos senadores. Por isso, o avanço na comissão representa uma etapa importante da tramitação, mas não equivale à aprovação definitiva da emenda constitucional.
A segurança pública é um dos temas centrais do debate eleitoral, e a movimentação no Congresso coloca a proposta entre as matérias em discussão na reta final da campanha.
Disputa política em torno das medidas
O avanço das propostas ocorre em um cenário de forte disputa entre governo e oposição. A aprovação de medidas com impacto sobre trabalhadores e pequenos empreendedores dá visibilidade a pautas que afetam diretamente a renda, a jornada de trabalho e a atividade econômica.
Ao mesmo tempo, a proximidade da eleição intensifica o debate sobre o momento em que as propostas foram votadas e sobre seus possíveis efeitos políticos.
No caso da escala 6×1, a aprovação pelo Senado já representa uma decisão legislativa concreta. Para os MEIs, a mudança no teto de faturamento e a remissão de dívidas ainda dependem da conclusão da tramitação do projeto. Na segurança pública, a PEC precisa passar pelo plenário do Senado.
A diferença entre as etapas é central para avaliar o alcance das medidas. O conjunto representa avanços para a agenda defendida pelo governo Lula, mas nem todas as iniciativas anunciadas ou aprovadas parcialmente já se converteram em direitos ou benefícios disponíveis à população.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comemorou, nesta quarta-feira (14/10), a aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que extingue a escala de trabalho 6×1. Em manifestação nas redes sociais, classificou a decisão do Senado como uma vitória histórica dos trabalhadores brasileiros e destacou os benefícios da ampliação do descanso semanal.
Lula afirmou que a mudança ultrapassa a questão da jornada profissional e representa mais qualidade de vida. Segundo o presidente, a conquista permitirá maior convivência familiar, atenção aos filhos, cuidados pessoais e oportunidades de lazer. Ele também atribuiu o avanço à mobilização popular em defesa de melhores condições de trabalho.
A PEC recebeu 75 votos favoráveis e apenas um contrário em cada um dos dois turnos de votação. Hamilton Mourão (Republicanos-RS) foi o único senador a rejeitar a proposta. O resultado representou um importante ganho político para Lula, que incorporou o fim da escala 6×1 à campanha pela reeleição, a 11 dias do segundo turno presidencial.
A alteração constitucional estabelece a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição dos salários. O texto também garante dois dias de repouso remunerado por semana, um deles preferencialmente aos domingos. A implementação ocorrerá de forma gradual, após a promulgação da emenda.
O cronograma prevê a redução inicial para 42 horas semanais, dois meses após a promulgação. Passado mais um ano, o limite cairá para 40 horas. Durante a transição, os trabalhadores terão direito a duas folgas remuneradas por semana, conforme as disposições da proposta.
A mudança não alcançará profissionais com formação superior e remuneração mensal superior a 2,5 vezes o teto do INSS, equivalente a R$ 21.188. A restrição integra as condições estabelecidas no texto aprovado pelo Congresso.
O presidente agradeceu aos trabalhadores que participaram das manifestações e aos senadores favoráveis à PEC. Também manifestou confiança na preservação da conquista e afirmou que a mudança nasceu de uma reivindicação histórica da população, e não apenas de uma decisão institucional.
O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) gravou conteúdo com jovens nesta quarta-feira (14/10). A gravação faz parte da movimentação da campanha nesta etapa da disputa eleitoral.
Na gravação, Lula aparece com óculos inusitados. O acessório chamou a atenção nas redes sociais e integra a estratégia de aproximação com o público jovem.
O presidente também fez o gesto de hang loose, mesmo sem um dedo mindinho. A cena repercutiu entre internautas e apoiadores.
Em busca de uma virada no segundo turno, a campanha do petista aposta em conteúdo para redes sociais. A gravação foi publicada pelo perfil @brasilcomlula.
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que não participará do debate contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), marcado pela TV Bandeirantes para o próximo domingo (18/10). O senador também deixou em aberto sua presença no confronto que a TV Globo realizará em 23 de outubro, dois dias antes do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. A decisão sobre o último encontro caberá à equipe técnica de sua campanha.
Ao conversar com jornalistas nesta terça-feira (13/10), Flávio descartou sua participação no programa da Band, apesar das sinalizações anteriores de que compareceria aos debates da reta final da disputa. O candidato afirmou que seus assessores ainda estudam a possibilidade de um confronto direto com Lula na televisão. “Não está previsto esse debate domingo”, declarou Flávio Bolsonaro ao responder sobre sua presença no encontro organizado pela Bandeirantes. O senador acrescentou que a definição sobre a participação no último debate dependerá de uma avaliação de seus assessores. “Estamos analisando, quem vai dar a palavra final vai ser a minha equipe técnica de um último debate.”
Após Flávio Bolsonaro confirmar que não irá ao debate da Band no próximo domingo (18/10), a emissora decidiu manter o encontro com a presença apenas do presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT. Sob reserva, integrantes da cúpula da Band disseram que o canal não pretende abrir mão do debate, apesar da ausência confirmada do candidato do PL. Com isso, Lula participará sozinho, enquanto a Band manterá no cenário o púlpito destinado a Flávio Bolsonaro, que ficará vazio durante a transmissão.
O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou participação no debate presidencial promovido pela Band. A Band confirma que o debate está mantido e, de acordo com as regras estabelecidas pela emissora para o encontro, a ausência de qualquer um dos candidatos confirmados resultará na manutenção de um púlpito vazio no estúdio durante toda a transmissão. Em vídeo publicado nas redes sociais da Band, o petista desafiou Flávio a comparecer no debate.
A TV Globo programou o último debate presidencial para 23 de outubro, após o Jornal Nacional, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. A emissora pretende reunir os dois candidatos para discutir suas propostas antes da votação de 25 de outubro. O filho de Jair Bolsonaro ainda não confirmou sua presença. A campanha do PL avaliará a participação no encontro, que representa a última oportunidade prevista no calendário de debates para um confronto entre os dois presidenciáveis.
O posicionamento do senador contrasta com suas manifestações anteriores sobre a necessidade de debater com Lula. Durante o primeiro turno, Flávio Bolsonaro chegou a chamar o presidente de “fujão” e afirmou que desejava enfrentá-lo diretamente. A ausência dos dois candidatos marcou a primeira etapa da campanha eleitoral. Nem Lula nem Flávio Bolsonaro participaram dos debates realizados antes da votação de 4 de outubro. Na ocasião, o candidato do PL chegou a confirmar presença no encontro organizado pela TV Globo, mas desistiu depois de decisões judiciais alterarem as condições previstas para o programa. Uma das determinações assegurou a participação de Renan Santos (Missão). Outra impediu a emissora de manter vazio o púlpito destinado a Lula, caso o presidente não comparecesse. O debate da Globo acabou cancelado justamente após Flávio desistir de participar, alegando interferência da Justiça Eleitoral no encontro.
O encontro entre os presidenciáveis será no dia 18 de outubro (domingo) às 20h, com transmissão ao vivo na Band TV, BandNews TV, nas rádios BandNews FM e Bandeirantes, no canal do YouTube de Band Jornalismo, no Band.com.br e no Bandplay. Além dos canais do grupo, o confronto contará com transmissão da parceria de um pool de veículos formado por TVs Gazeta, Cultura, Jovem Pan e o jornal O Estado de S. Paulo, o Estadão. A cobertura também trará análises em tempo real diretamente da Sala Digital, em parceria com o Google.
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Falando por meio de um megafone, o presidente Lula (PT) anunciou, na quinta-feira (8), o primeiro ato público protagonizado por ele no segundo turno das eleições: uma passeata na manhã do dia seguinte, em Ceilândia, no Distrito Federal. O anúncio, publicado nas redes sociais, é encerrado com o brado de “bora, Lula!”, expressão vocal entre militantes e até então pouco ouvida na voz do petista. Embora com apenas 30 segundos, o vídeo marcou o início de uma nova estratégia montada ao longo de uma semana repleta de embates na campanha à reeleição. Um comitê de crise precisou ser montado após o resultado inesperado no primeiro turno do pleito, em que a oposição elegeu a maioria no Senado Federal e o candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro (PL), saiu na frente, com uma diferença de 1,87 ponto percentual, equivalente a 2,2 milhões de votos válidos a mais do que o petista.
Um dia depois da contabilização dos votos, a campanha petista já discutia a narrativa a ser adotada na comunicação e nas ruas até 25 de outubro, quando os brasileiros voltarão às urnas. Mesmo com a discordância (ainda muito presente) entre a ala tradicional do PT e integrantes mais novos da base governista, houve consenso sobre um aspecto considerado um erro durante o processo eleitoral: não dar a devida importância a formatos “virais” nas redes sociais por conta da enrijecida receita de campanha que preconiza um primeiro turno aprofundado em propostas e o segundo, direcionado ao desgaste do adversário.
Para aliados ouvidos sob reserva pela Agência Pública, Lula teria admitido que a campanha não estava bem organizada. O presidente-candidato chegou a dizer ao presidente nacional do PT, Edinho Silva, que a observava como a corrida eleitoral menos organizada em que participou desde 1989, quando disputou pela primeira vez a presidência da República.
Para resolver os entraves e promover mudanças na linha de frente da campanha, o governador reeleito na Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), assumiu a coordenação de política (com ênfase na atração de prefeitos) e houve reforço na equipe de comunicação estratégica. O governador Rafael Fonteles (PT), reeleito no Piauí, foi escolhido para coordenar a comunicação. Além deles, o senador eleito, Rui Costa (PT-BA), assumiu a agenda; e o senador Camilo Santana (PT-CE) é o novo coordenador político, cargo anteriormente ocupado por Edinho Silva.
Também foram convocados para Brasília, em caráter de urgência, nomes progressistas engajados no Instagram, no YouTube, no TikTok e no WhatsApp. Entre eles, a deputada eleita Ana Elisa (PT), a segunda mais votada em Minas Gerais, que atribui 90% dos seus votos à presença ativa nas plataformas digitais. Além dela, outros jovens deputados federais eleitos engrossaram a campanha digital já em curso no segundo turno, como Jones Manoel (PSOL-PE), Guilherme Cortez (PSOL-SP), Renato Freitas (PT-PR) e Luna Zaratini (PT-SP).
De artistas fazendo o “L” ao “Exército de Lula” com Janones
O mutirão nas plataformas já sofreu ataques. Neste domingo (11), o ministro Kássio Nunes Marques atendeu ao pedido de Flávio Bolsonaro e mandou o WhatsApp suspender o canal “Exército de Lula”, administrado pelo deputado André Janones (Rede-MG) e que contabilizava mais de 3,4 milhões de seguidores. Marques justificou a suspensão por haver, segundo ele, a transmissão de conteúdo a milhões de pessoas “sob comando único para replicar conteúdos que a Corte já reconheceu como inverídicos”. Cerca de 4 horas depois, o corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, revogou a decisão e determinou o retorno provisório do canal. Cueva declarou, com preocupação, ter visto a interferência do presidente do TSE em um processo do qual não participa. De acordo com o corregedor, não foram apresentadas provas que justificassem a suspensão. A palavra final agora será do plenário do Tribunal.
Também nas redes sociais, de Anitta, Ivete Sangalo e Luan Santana, de Pabllo Vittar a Ludmilla, passando por cineastas, escritores e sambistas, mais de 200 nomes, desde o primeiro turno, têm feito vídeos e declarado apoio a Lula, um movimento que foi intensificado e cresceu nesta última semana. Somados, os nomes levantados pela reportagem totalizam mais de 400 milhões de seguidores nas redes sociais. Segundo a coluna Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, Flávio Bolsonaro liderou o engajamento nas redes em setembro, mas Lula virou depois do 1º turno e chegou a 9,9 milhões de interações na última quarta (7), o maior resultado diário dos dois candidatos desde 14 de setembro, segundo o Projeto Brief.
6×1 como trunfo e “CPF contra CPF”
Uma das reuniões do comitê de crise pós-primeiro turno aconteceu no diretório nacional do PT, em Brasília, na quarta-feira (7), e reuniu dirigentes do partido, além de deputados federais e senadores da sigla. Os parlamentares discutiram uma série de propostas consideradas por eles indispensáveis à comunicação da campanha. A Pública teve acesso ao documento apresentado em conjunto pela bancada petista no Congresso Nacional. Na proposta intitulada “O Brasil com Flávio”, os governistas sugeriram, sobretudo, foco na pauta econômica e nas consequências do regime de trabalho por hora trabalhada — projeto de Flávio Bolsonaro apresentado como alternativa à redução da jornada de trabalho para cinco dias por semana. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6×1 é uma das armas eleitorais do atual governo e deve ser pautada ainda nesta semana no Senado, conforme anunciou o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), ao lado do governador eleito por Minas Gerais, Cleitinho (Republicanos-MG).
Os membros da reunião, no entanto, demonstraram pouco consenso. Um nome influente no meio petista disse, sob reserva, que “agora é CPF contra CPF”, referindo-se ao fato de que Lula passaria a atacar mais a figura do opositor e a tratar menos da própria imagem — como já era esperado. Alguns parlamentares se posicionaram de forma mais genérica e defenderam uma abordagem mais incisiva quanto aos riscos de perda de direitos sociais com a possível vitória do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado.
Diante da quantidade de ideias apresentadas e do curto prazo até o segundo turno, o encontro foi tratado mais como um gesto necessário para amenizar o clima de tensão entre os correligionários do que como um momento indispensável para definir os rumos da empreitada. Um clima de desconforto também pairou entre governistas devido, entre outras situações, às declarações da senadora Kátia Abreu (PT-TO) sobre a presença da primeira-dama, Janja Lula da Silva, nas propagandas de Lula. Em 7 de outubro, a parlamentar sugeriu que Janja não deveria mais aparecer nos materiais. No dia seguinte, ela acentuou a crítica e reforçou, em entrevista ao jornal O Globo, que a esposa de Lula estava ocupando um espaço maior do que o do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
“Eu, a militância do PT e todos os colegas concordamos com ela [Kátia Abreu], mas não queremos problemas com ela [Janja]”, declarou à reportagem, em condição de anonimato, um parlamentar integrante do círculo de deliberações políticas da campanha. As críticas também envolvem o discurso “vencer o ódio” e “o amor vai vencer” — ideias sugeridas e utilizadas por Janja na disputa ao Planalto em 2022, mas consideradas defasadas pelo entorno de Lula no atual contexto político.
Outros parlamentares afirmaram que as falhas na corrida eleitoral se devem também à dispersão de apoiadores que estavam focados nas disputas dos respectivos estados, mas que agora há uma unificação sólida em prol da reeleição. “No segundo turno, as posições ficam mais claras. Eu acho que tem uma militância que foi às ruas e que agora acaba tendo outro processo de comunicação”, comentou a deputada Erika Kokay (PT-DF), que saiu derrotada para o Senado no Distrito Federal.
Foram realizadas aproximadamente 20 publicações no formato de vídeo selfie abordando direitos trabalhistas, a PEC sobre o fim da escala 6 por 1 e atos políticos nas ruas
O primeiro vídeo selfie no Instagram
A definição oficial do novo discurso de Lula ocorreu somente na tarde de quinta-feira (8), em uma nova deliberação em Brasília; desta vez, com a presença de influenciadores progressistas. Na ocasião, decidiu-se por uma desconstrução da imagem de Flávio Bolsonaro de maneira mais concisa, sem rodeios e em formatos mais direcionados ao engajamento do que no debate em si.
No mesmo dia da deliberação, Lula também publicou o primeiro vídeo selfie no Instagram, em um formato mais amador, ainda não utilizado por ele, convocando seus eleitores a irem às ruas em busca de votos. “Bora, gente, vamos conversar com as pessoas.”
Lula não gosta de usar celular nem redes sociais. Só conversa com aliados presencialmente ou por ligação, nunca por mensagens. E essa é uma característica nítida entre os aliados. Numa reunião no período de transição de governo, em novembro de 2022, por exemplo, ele se irritou com o ex-secretário-geral da Presidência, Márcio Macêdo, por o apoiador ter olhado uma notificação de mensagem enquanto conversavam.
Além disso, o presidente não teria gostado da ideia de ser 100% direcionado por um novo formato comunicativo e determinou aos membros da equipe a busca por um “equilíbrio” entre a forma como está habituado a dialogar com o eleitorado e as novas dinâmicas de produção de conteúdo para redes sociais.
As novas produções já se tornaram rotineiras. Foram realizadas aproximadamente 20 publicações no formato de vídeo selfie abordando direitos trabalhistas, a PEC sobre o fim da escala 6 por 1 e atos políticos nas ruas. Num outro vídeo selfie, o presidente aparece sorridente ao lado da deputada eleita Ana Elisa e reforça a necessidade de “falar mais na rede digital”. Em entrevista ao SBT News, Elisa lembrou a resistência do petista à internet, mas o vê com entusiasmo para se posicionar com assiduidade nas plataformas. “Ele é muito disposto. A minha eleição acho que foi um reflexo para ele também de que a rede social é uma porta e que vai dar certo. Não estou falando hora nenhuma para ficar o dia inteiro gravando vídeo, não é isso. É só conversar com as pessoas uma ou duas vezes ao dia. A gente percebe que a direita já está incomodada com isso”, ressaltou.
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante ato de campanha em Ceilândia na última sexta-feira (9)
Ceilândia: o primeiro ato “vira voto” do 2º turno
Às 8h da manhã de sexta-feira (9), militantes e apoiadores da candidatura de Lula já se aglomeravam na concentração do primeiro ato do presidente no segundo turno. O local escolhido, Ceilândia (DF), é onde também cresceu a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF), esposa de Jair Bolsonaro e símbolo da ala feminina conservadora no Brasil. A mobilização retratou muito do que viria pela frente: estímulo a manifestações populares e aceno mais direto a evangélicos e eleitores de direita e centro-direita.
Lula chegou ao ato às 10h39 da manhã, acompanhado de Janja e de Leandro Grass (PT), candidato ao governo do Distrito Federal. Antes da chegada do presidente, discursaram num trio elétrico políticos influentes na região, como Max Maciel (PSOL), deputado distrital mais votado da história do DF, e Fábio Félix (PSOL), o líder em votos no Distrito Federal para a Câmara dos Deputados. Durante o ato, Lula brincou que está virando o “rei da selfie”.
Um dos maiores destaques do evento foi a presença do pastor evangélico, ex-bolsonarista e político declaradamente de direita, deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ). Ele está incumbido da missão de coordenar a campanha com neopentecostais no Sudeste do país. O parlamentar pediu a palavra várias vezes e afirmou aos apoiadores que Flávio Bolsonaro “sequestrou” a direita e as igrejas evangélicas.
“Eu não tenho dúvida nenhuma de que nós vamos conquistar votos de evangélicos e de indecisos que tendem a vir para o nosso lado, principalmente aqueles que perceberam o que o bolsonarismo fez dentro da igreja. É um trabalho de conscientização, não é fácil”, frisou o parlamentar em entrevista à Pública.
Na passeata, emoção, gritos, aplausos e pessoas inconformadas com a ascensão do bolsonarismo. “Eu estou revoltada, não com os partidos, mas com o povo. Tenho dois filhos formados, um em matemática e outro em biomedicina, por causa do que Lula fez”, comentou a aposentada Maria das Mercedes, de 75 anos, em referência ao Programa Universidade para Todos (Prouni), implantado em janeiro de 2005. Católica desde a infância, ela foi ao ato vestindo uma blusa com o versículo bíblico “pois nada é impossível para Deus”.
Simultaneamente ao ato em Brasília, parlamentares influenciadores se mobilizaram em outras regiões. Guilherme Cortez (Psol-SP), por exemplo, estava no Amapá ao lado do senador do estado, Randolfe Rodrigues (PT), em uma mobilização na Universidade Federal do Amapá (Unifap). Os eventos descentralizados pelo Brasil também têm o objetivo de atingir os 21,08% dos brasileiros que deixaram de votar no primeiro turno — cerca de 33 milhões de eleitores.
Ato ”Lula em São Paulo, O Brasil Pronto Pra Mais” na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (11)
Do Rio Grande do Norte à Avenida Paulista, em São Paulo
Após o ato em Ceilândia, Lula foi para o Rio Grande do Norte e, neste domingo (11), participou de um ato na Avenida Paulista, em São Paulo, também convocado por meio de uma vídeo selfie. O ato ocupou sete quarteirões da Avenida Paulista. Entre os presentes, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e as deputadas federais Érika Hilton (Psol-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP), além de famosos como o cantor Jão, o ator Humberto Carrão e o comediante Thiago Ventura. Também participaram do ato milhares de pessoas, incluindo movimentos sociais, estudantes, torcidas organizadas e até fandoms, comunidades de admiradores de artistas pop, como Lady Gaga, BTS, Beyoncé e Taylor Swift. Estimativa não confirmada dos organizadores do evento fala em 1 milhão de pessoas.
Durante o percurso, o presidente citou a importância de convencer quem se absteve, no primeiro turno, a votar no segundo. “Nós temos que conversar com as pessoas que acham que não têm mais direito de votar. Porque, se essa pessoa não quer votar por ela, tem filho, tem filha, tem neto, tem bisnetos e tem a pátria dela para cuidar”.
Em cima de um carro de som posicionado em frente ao Museu de Arte de São Paulo (MASP), Lula criticou a administração anterior, do ex-presidente Jair Bolsonaro, principalmente na gestão da pandemia de covid-19.
“Vocês sabem o que a família bolsonarista fez neste país. Vocês sabem o que é um presidente rir de pessoas que estavam morrendo asfixiadas por falta de oxigênio. Vocês viram quantas pessoas foram enterradas em saco preto, sem poder se despedir da sua família, porque tivemos um presidente irresponsável que duvidou da ciência, que não acreditou na medicina, que receitou remédio que não prestava para nada”.
O candidato defendeu realizações de sua gestão na educação e prometeu uma revolução nas áreas da tecnologia e da segurança no país.
“Quando nós chegamos na presidência, em 2003, o Brasil tinha apenas 4,8 milhões de pessoas com diploma universitário no mercado de trabalho. Hoje, o Brasil já tem 26 milhões, e nós queremos 50 milhões, 100 milhões”, disse.
Vários fatores ajudam a explicar a perda de votos de Lula e o crescimento de Flávio Bolsonaro nas urnas. A repórter Amanda Audi ouviu especialistas em política e explica os principais: a ausência de debates entre os dois candidatos, a apropriação do discurso antissistema pela extrema direita, o impacto dos escândalos, as dificuldades do governo Lula diante de um Congresso hostil, a força da direita nas redes e o voto útil já no primeiro turno.
Assista o vídeo e entenda por que Flávio Bolsonaro ganhou espaço entre os eleitores.
Las elecciones generales de Brasil del 4 de octubre representaron una severa advertencia para la izquierda. Flávio Bolsonaro, el candidato presidencial del Partido Liberal (PL), superó al presidente Luiz Inácio Lula da Silva, con aproximadamente un 47% frente a un 45%. Ninguno de los dos obtuvo la mayoría, lo que los llevará a una segunda vuelta el 25 de octubre. Más preocupante que este estrecho margen presidencial fue el avance del bolsonarismo en el Congreso. Las elecciones han fortalecido un movimiento político cuyas ambiciones van más allá de derrotar a Lula para llegar a remodelar las instituciones que obstaculizan su ejercicio del poder.
El encarcelamiento (arresto domiciliario) y la exclusión electoral de Jair Bolsonaro no han disuelto su movimiento. Su hijo Flávio lleva su estandarte presidencial, mientras que otros miembros de la familia han obtenido escaños en el Congreso. Michelle Bolsonaro, esposa de Jair, y Carlos Bolsonaro, su hijo, ingresan al Senado; Jair Renan, otro de sus hijos, y Renato, hermano de Jair, ingresan a la Cámara de Diputados. Nepobolsonarismo es un nombre apropiado para la expansión de esta familia a través del Estado. Sin embargo, la familia es solo la expresión más visible de un proyecto más amplio, arraigado en poderosos intereses económicos y en una política reaccionaria profundamente organizada.
Una contienda presidencial con implicaciones continentales
Lula sigue siendo el principal obstáculo para el regreso de este proyecto a la presidencia. Su derrota afectaría a los trabajadores y campesinos de todo Brasil, pero también a las posibilidades de cooperación regional y de una política exterior latinoamericana independiente. El tamaño de Brasil, su capacidad industrial, sus minerales en bruto (como los minerales críticos), sus recursos agrícolas y su alcance diplomático otorgan a su orientación política una importancia continental. Un gobierno que subordine estos activos a las prioridades de Washington debilitaría el espacio disponible para los países vecinos que buscan sus propios caminos de desarrollo.
La distribución geográfica de la primera vuelta pone de manifiesto tanto la fortaleza de Lula como sus dificultades. Mantuvo una posición dominante en el Noreste, mientras que Flávio lideró en las otras cuatro regiones. El enorme electorado de São Paulo proporcionó una ventaja particularmente importante a la derecha. Estas divisiones no pueden explicarse mediante una oposición entre una población ilustrada y otra ignorante. Requieren un análisis de las diferentes condiciones laborales, la organización de la vida política y la capacidad de los movimientos rivales para interpretar las frustraciones de la gente.
Lula llega a la segunda vuelta con un historial social sustancial. El desempleo cayó al 5,3% en el trimestre que finalizó en agosto, la tasa más baja para ese período en la serie estadística que comienza en 2012. Estas mejoras son de enorme importancia para las familias para quienes un salario regular supone un alivio frente a la incertidumbre cotidiana. Sin embargo, un indicador nacional mejorado no zanja la discusión política. El empleo puede coexistir con desplazamientos agotadores, viviendas costosas, servicios públicos inadecuados y la inseguridad que genera la deuda. La brecha entre la mejora estadística y la experiencia vivida sigue siendo un terreno en el que opera la derecha.
El bolsonarismo, o la extrema derecha brasileña de un tipo especial, traduce estas frustraciones en resentimiento contra la izquierda, todas las instituciones públicas y los sectores vulnerables de la sociedad. Su promesa de orden ofrece un lenguaje inmediato para el miedo, al tiempo que oculta los mecanismos económicos que generan inseguridad.
La izquierda no puede responder a esto simplemente promocionando los logros del gobierno. Debe vincular esos logros a un programa creíble para cambiar la vida cotidiana y explicar qué intereses impiden nuevos avances. Un trabajador que lucha contra las deudas necesita algo más que la seguridad de que la economía va bien. Este ha sido el problema de Lula, cuyo programa para el futuro no parece prometer más de lo que se ha logrado hasta ahora.
El Senado: una lucha por el poder institucional
Las elecciones al Senado son particularmente trascendentales porque se disputaron 54 de sus 81 escaños. Los senadores tienen mandatos de ocho años, por lo que los resultados marcarán la política nacional mucho más allá de la próxima administración presidencial. El PL obtuvo 19 escaños y contará con 28 en el nuevo Senado, lo que lo convierte en el partido más grande. El PT tendrá nueve. Los bolsonaristas han establecido, por lo tanto, una posición formidable, aunque el propio PL sigue sin alcanzar la mayoría y deberá negociar con otros partidos.
Michelle Bolsonaro y Bia Kicis obtuvieron los dos escaños del Distrito Federal, mientras que Carlos Bolsonaro y Carol de Toni ganaron los dos escaños de Santa Catarina. Estas victorias demuestran la capacidad del movimiento para organizar campañas coordinadas y concentrar el apoyo en torno a sus candidatos. Hubo éxitos importantes para la izquierda: Rui Costa y Jaques Wagner ganaron en Bahía, Humberto Costa conservó su representación en Pernambuco y Marília Campos ganó en Minas Gerais. Estos resultados preservan puntos de resistencia dentro de una cámara cada vez más hostil. La importancia del Senado va más allá de la legislación ordinaria. Los bolsonaristas han convertido su enfrentamiento con la Corte Suprema Federal en un objetivo político central, lo que incluye demandas para destituir a sus magistrados. Su representación reforzada aumenta su capacidad para llevar adelante ese enfrentamiento e influir en la elección del presidente del Senado. Las predicciones de una mayoría automática a favor del juicio político deben tomarse con cautela: la afiliación partidaria, las declaraciones de campaña y los votos en un procedimiento específico son cosas distintas. No obstante, el peligro de utilizar el poder legislativo para intimidar al poder judicial ha aumentado claramente.
Esto forma parte de una lucha por las condiciones bajo las cuales la extrema derecha puede gobernar. Los procesos judiciales contra Jair Bolsonaro no han eliminado a las fuerzas sociales que lo respaldan. Esas fuerzas buscan ahora una mayor influencia sobre las instituciones capaces de frenarlas. Para la izquierda, la defensa del espacio democrático debe, por lo tanto, ir de la mano de la lucha por ampliar los derechos sociales. Las organizaciones de trabajadores no pueden permitirse perder las libertades a través de las cuales se organizan, educan y se enfrentan al capital.
Diputados federales: la derecha avanza, la izquierda encuentra oportunidades
Este año se renovaron los 513 escaños de la Cámara de Diputados. El PL obtuvo 121, consolidando su posición como el partido más grande tanto en esta cámara como en el Senado. La federación del Partido de los Trabajadores, el Partido Comunista de Brasil y el Partido Verde ganó 88 escaños, de los cuales el propio PT obtuvo 70. El crecimiento de la federación es significativo, pero deja a los aliados de Lula lejos de alcanzar la mayoría. Los partidos de la derecha cuentan con 303 escaños, mientras que la izquierda parlamentaria en sentido amplio tiene 124.
El resultado fortalece a una extrema derecha de carácter particular dentro de una legislatura ya dominada por intereses conservadores. También debilita a algunos intermediarios tradicionales del poder parlamentario, como el centrão, la coalición de partidos que intercambia apoyo legislativo por influencia en los nombramientos y los recursos públicos, aunque sigue siendo indispensable para la formación de mayorías. Las negociaciones que se lleven a cabo dentro del centrão ahora se desarrollarán junto a un PL más grande y más asertivo. Si Lula gana en la segunda vuelta, se enfrentará a una resistencia sustancial en el Congreso; pero si gana Flávio, ese mismo Congreso podría facilitar un programa reaccionario.
Sin embargo, la elección también llevó a la Cámara a importantes representantes de una izquierda combativa. Jones Manoel, el historiador comunista elegido por el PSOL en Pernambuco, obtuvo 249.077 votos y quedó en primer lugar en Recife. Elias Jabbour, el geógrafo comunista, fue elegido por el PCdoB en Río de Janeiro. Sus victorias sugieren que existe un público receptivo a la educación política y a los argumentos socialistas, incluso en medio del avance de la derecha. Ofrecen recursos para reconstruir la confianza entre las personas que se han impacientado ante las ambiciones cada vez más limitadas de la política parlamentaria.
Jones Manoel ya se ha ofrecido a colaborar en la campaña de la segunda vuelta de Lula, incluida su comunicación digital, al tiempo que propone prestar mayor atención a demandas como el transporte público gratuito. Este es un ejemplo útil de claridad política: la crítica a las limitaciones del gobierno puede coexistir con una movilización activa contra una extrema derecha de un tipo especial. Dicha unidad no requiere que los trabajadores renuncien a sus demandas. Se fortalece cuando esas demandas aportan energía y dirección a la campaña.
La tarea antes del 25 de octubre
La segunda vuelta no se puede ganar únicamente mediante negociaciones entre los líderes de los partidos. Requiere una actividad organizada en los lugares de trabajo, los barrios, las universidades y las comunidades rurales, con un programa que la gente pueda reconocer en sus propias vidas. El transporte, los salarios, la vivienda, la deuda, la salud pública y el tiempo dedicado al trabajo deben convertirse en la esencia de una campaña democrática. La defensa de la soberanía se vuelve tangible cuando se vincula con la capacidad de utilizar la riqueza de Brasil para satisfacer las necesidades de su pueblo.
La marea furiosa ha avanzado, pero no ha arrastrado a los millones de personas que aún buscan otro Brasil. Los nuevos diputados comunistas, las organizaciones de masas que han sobrevivido (especialmente los trabajadores sin tierra del MST) y la enorme base electoral de Lula constituyen los cimientos de la resistencia. La tarea inmediata es derrotar a Flávio Bolsonaro. La tarea a más largo plazo es construir un poder popular lo suficientemente fuerte como para impedir que la oligarquía decida, elección tras elección, qué tan poco cambio se le permitirá a la mayoría.
Na sexta-feira, dia 25 de setembro, às vésperas do primeiro turno das eleições, o presidente Lula assinou a Medida Provisória (MP) 1394, que proíbe a atuação das bets no país. A MP é uma vitória, ainda que venha tarde.
É apenas o começo de uma batalha jurídica e regulatória que irá se desenrolar no próximo mandato eleitoral, com papel central tanto do presidente eleito quanto dos demais parlamentares. Afinal, deputados e senadores compõem as comissões mistas que analisam as medidas provisórias, e, para virar lei, uma MP também precisa ser aprovada pela Câmara e pelo Senado.
Que o vício em apostas – a ludopatia – tem um impacto grande na saúde da população, já está estabelecido, tanto em termos psicológicos quanto financeiros. Não são poucos os casos de pessoas que perdem bens materiais, se endividam e quebram relações familiares por causa das apostas.
O marido de uma amiga não tem celular desde o ano passado: foi a condição para que seguissem o relacionamento, depois de ele perder tudo o que tinham guardado e até vender o carro para seguir jogando.
Rafael Borges Amaral, de 26 anos, perdeu a vida na batalha contra a ludopatia. A carta escrita por sua mãe, Vânia de Souza Borges, não foi ouvida pela CPI das Bets, mas alcançou o Brasil e ajudou a levantar a bandeira de muitas outras famílias pela proibição das apostas online.
A saúde das pessoas é muito mais importante do que qualquer impacto econômico. Antes de pensar no PIB ou na arrecadação tributária, é a vida que precisa ser colocada em primeiro plano.
Então, mesmo se proibir as bets fosse ruim para a economia, seria a decisão acertada.
Mas este não é o caso. Para a economia do país, acabar com esses jogos é bastante benéfico.
Isso porque a renda que é absorvida pelas bets não retorna em mesmo volume para a economia do país. Ela é tirada de circulação, em grande parte apropriada pelas casas de aposta, muitas das quais nem no Brasil estão.
Então, além da renda que sai do bolso das famílias e prejudica suas contas diárias, a economia do país como um todo é afetada.
Isso porque, quando alguém vai ao mercado e gasta dinheiro comprando um produto ou contratando um serviço, esse valor retorna em maior escala para a economia. É o que chamamos de efeito multiplicador.
Por exemplo, se eu compro R$ 100 no mercadinho, estes R$ 100 viram a renda do comerciante. Ele, por sua vez, vai gastá-la, o que gera renda para outra pessoa, que também vai gastar, e assim por diante. No final, R$100 viram muito mais em atividade econômica. A roda da economia gira.
Mas, se eu perco estes mesmos R$ 100 num cassino online, este dinheiro não comprou nada, não gerou demanda nenhuma. E a maior parte dele não vai retornar em prêmios, vai ser retida na casa de apostas.
Um estudo conduzido pelo professor Guilherme Klein para o Centro de Estudos de Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made/USP) dimensionou o impacto das bets nesse movimento.
A conta é a seguinte. O Centro Celso Furtado estimou que, em 2025, houve uma transferência bruta de R$ 62,5 bilhões para as plataformas de apostas. Ou seja, somando tudo o que foi apostado e redistribuído em prêmios, as bets ficaram com mais de 60 bilhões para si.
Com esse número, o professor estimou alguns cenários diferentes, com hipóteses mais ou menos otimistas sobre o papel econômico do setor de apostas, e chegou numa perda total para a economia brasileira de algo entre R$ 90,9 bi e R$ 141 bilhões de reais – ou de 0,7 a 1,1% do PIB do nosso país.
De um terço a metade do crescimento da economia brasileira em 2025. Até cinco vezes mais do que o impacto estimado para o tarifaço americano.
Mesmo quando consideramos o ganho de arrecadação que a regulamentação das apostas trouxe, regular sai mais caro para o país do que proibir. No Estudo do Made, o efeito final é de uma redução entre R$ 14,6 bilhões e R$ 35,6 bilhões na arrecadação de impostos.
Isso sem nem considerar a elevação dos gastos em saúde pública para tratamento do vício em apostas. Conforme o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), as bets geram um custo anual para o SUS de R$ 30,6 bilhões.
No fim, a soma do jogo é clara. Com a proibição, ganham as pessoas, sua saúde mental e financeira, e a economia do país. Só perdem, mesmo, as casas de apostas – e os influenciadores que elas remuneram.
Após o primeiro turno das eleições, o Senado Federal volta a discutir o fim da escala 6×1 a partir desta terça-feira, 6 de outubro. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 reduz a jornada de trabalho para 40 horas semanais, com a possibilidade de dois dias de repouso remunerado. O Plenário realiza sessões para debater a PEC também na quarta-feira e na quinta-feira, 8 de outubro, a partir das 14h.
A análise entra na agenda do Plenário após negociações na última semana entre o presidente Lula e a cúpula do Senado para destravar o andamento da PEC. Em nota à imprensa, postada na Agência Senado, Davi Alcolumbre (UNIÃO-AP) afirma que a decisão surge a partir da “ampla relevância para a sociedade brasileira”.
Também nesta terça-feira, 6, cumprindo a Medida Provisória nº 1.394/2026, assinada por Lula, as empresas de apostas e as fintechs deverão terminar suas atividades e informar às instituições financeiras sobre os saldos dos clientes que não sacaram seu dinheiro até essa segunda-feira, prazo final para brasileiros sacarem o dinheiro dos aplicativos. Entre os dias 9 e 14 de outubro, as empresas deverão restituir dinheiro aos apostadores.
Corrida Eleitoral
Com a definição de um segundo turno entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para a presidência da República, os outros candidatos começam a discutir seu apoio para o segundo turno, dia 25 de outubro. O candidato Augusto Cury (Avante) disse que não pretende continuar na política e declarou que não vai apoiar ninguém para o segundo turno.
O mesmo ocorreu com Renan Santos (Missão), que não declarou seu apoio, mas, em live na segunda-feira, 5 de outubro, afirmou que seus eleitores podem escolher em quem votar. Ronaldo Caiado (PSD) comunicou que não irá declarar seu apoio sem antes se reunir com o presidente do partido, Gilberto Kassab. Sem posicionamento direto de apoio ao candidato Flávio Bolsonaro, Romeu Zema (Novo) declarou que vai estar contra o PT.
Com um período mais curto para o segundo turno, Lula, que teve 45,16% dos votos, em seu discurso pós-apuração declarou que irá começar com uma nova campanha. Para o presidente, o segundo turno irá mostrar “a verdadeira democracia do Brasil”. Nesta segunda-feira, 5, o presidente se reuniu com apoiadores para discutir novas estratégias de campanha.
Em contrapartida, Flávio Bolsonaro comemorou o resultado nas urnas. Nesta segunda-feira, o senador se encontrou com o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) e com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ambos reeleitos, para discutir sobre as estratégias de campanha para o segundo turno.
Estão na agenda da semana de 6 a 10 de outubro:
TSE:
Salvo-conduto (06/10): último dia em que o documento de salvo-conduto, emitido pela Juíza Eleitoral, protege a integridade de eleitores que sofreram ameaças ou agressões para influenciar seu voto.
Eleitor pode ser preso (06/10): Fim do período em que eleitores não poderiam ser presos.
Justificativa do mesário (07/10): último dia para os mesários justificarem abandono do trabalho durante a votação.
Cadastramento (08/10): início do cadastramento das Mesas Receptoras de Justificativa e alocação temporária de seções para o segundo turno.
Propaganda eleitoral (09/10): Início da propaganda eleitoral nas rádios e na televisão.
Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) (09/10): Último dia para a transferência, pelas agremiações, de recursos do FEFC destinados às candidatas e aos candidatos a cargos majoritários que concorram ao segundo turno.
Candidatos não podem ser presos (10/10): A partir desta data, candidatos que vão disputar segundo turno não podem ser presos, exceto em prisão em flagrante.
STF:
Exclusão de créditos (RE 835818, 07/10, 14h): Recurso Extraordinário avalia se há possibilidade de exclusão os créditos presumidos de Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS, do cálculo do PIS e da Cofins.
Subordinação dos policiais penais (ADI 7781, 07/10, 14h): Ação direta discute constitucionalidade da lei de São Paulo em subordinar a polícia penal à Secretaria de Segurança da Administração Penitenciária.
Cargos em Comissão (ADI 7512, 07/10, 14h): Ação Direta de Inconstitucionalidade questiona a validade da lei amazonense, Lei Estadual 3.147/2007, que estabelece 10% dos cargos em comissão para servidores de carreira.
Expurgos inflacionários (RE 1141156, 07/10, 14h): volta a julgamento recurso extraordinário que discute a validade da inclusão dos expurgos inflacionários na correção monetária de depósitos judiciais.
Adicional de Insalubridade (ADPF 1181, 07/10, 14h): Governo Estadual do Espírito Santo entra com ação contra decisão da Justiça do Trabalho em obrigar o governo a pagar adicional de insalubridade de 20% para merendeiras e auxiliares de serviços gerais terceirizados da rede pública de ensino.
Agenda da semana daPúblicaé um serviço apresentado aos leitores, concebido com base nas informações dos portais da Câmara, Senado e STF.
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O domingo do primeiro turno terminou com uma surpresa, ao menos para quem acompanhava a maioria das pesquisas eleitorais e também para os próprios candidatos. “Confesso que estava convencido de que iria ganhar no primeiro turno”, disse Lula ontem. O atual presidente marcou 3,3 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu 5 milhões de votos a mais que seu pai, Jair.
O resultado pode ser explicado por vários fatores: como a Agência Públicamostrou, escândalos políticos podem ter favorecido o desejo “antissistema” que – apesar de ser uma grande contradição –, é usado politicamente por Flávio e bolsonaristas. O caso do Master, inclusive, não foi capaz de impedir que muitos políticos diretamente citados nas investigações e vazamentos ligados ao banco conseguissem se reeleger. Isso inclui o próprio Flávio, investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas em relação ao financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai. Flávio pediu dinheiro diretamente para Daniel Vorcaro, trocou dezenas de mensagens com o ex-banqueiro e marcou encontros com ele.
Além dos escândalos políticos, outras variáveis ajudam a entender a diminuição de votos de Lula e o crescimento de Flávio, e elas ficam evidentes no próprio mapa do Brasil. Levantamento de dados feito pelo cientista político Marco Antonio Faganello, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP), mostra que Lula perdeu mais votos em municípios que não são capitais, e essa perda é ainda mais gritante em cidades menores onde a participação do agro na economia é grande. “Onde o agro está em mais de 50% no PIB (Produto Interno Bruto), no conjunto, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022”, aponta.
A análise de Faganello mostra que municípios pequenos do interior, com alto PIB per capita, proporção de moradores que se declaram brancos e jovens mais alta e com grande atividade agropecuária estão onde Lula mais perdeu votos proporcionalmente a 2022. É esse o tipo de perfil de vários municípios de Goiás, estado onde a diminuição dos votos para Lula foi a mais significativa na proporção com 2022.
O pesquisador também aponta que o Nordeste, apesar de ser um reduto tradicional de Lula e não ter registrado uma queda significativa nos votos para o atual presidente, foi onde Flávio mais avançou. “A direita cresceu nos nove estados do Nordeste. Flávio superou o resultado de Bolsonaro em 98% dos 1.794 municípios da região. No Nordeste, Lula perdeu poucos votos, mas a direita cresceu em todos os estados: de 27% para 30,9% dos votos válidos”, detalha.
Na entrevista, Faganello também avalia como a abstenção, apesar de ter sido recorde, não parece ter impactado a perda de votos de Lula no Brasil como um todo, com exceção de Salvador, onde a ausência de eleitores impactou a votação do petista. Além disso, para o pesquisador, a proporção de evangélicos entre a população pode não explicar essa mudança. Contudo, Faganello ressalta que ainda há dados que o Tribunal Superior Eleitoral deve divulgar que podem detalhar esses aspectos.
Confira os principais trechos da entrevista aqui.
Marco Antonio Faganello é cientista político e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da Fundação Getúlio Vargas (FGV/CEPESP)
Na sua análise, você conclui que Lula teve menos votos em 2026 em relação ao primeiro turno de 2022 em 98% dos municípios do Brasil. Mas isso aconteceu diferente nas cidades pequenas e nas capitais e também a partir de outros fatores, como atividade agropecuária. Você pode explicar melhor essa diferença?
Estamos falando em votação proporcional, isto é, no quanto os votos que foram para o Lula em 2022 aumentaram ou diminuíram em 2026, proporcionalmente. Os dados mostram que essa queda foi maior sobretudo nos pequenos municípios e nos municípios ligados ao agro, além de ter um recorte por região do país. São esses os três principais fatores: tamanho, agro e região.
Sobre o tamanho dos municípios, quanto menor, mais Lula perdeu votos em relação a 2022. Nos municípios com até 5 mil habitantes, ele perde cerca de 7% [comparando 2026 a 2022]. Nos com mais de 500 mil habitantes, ele perde só 1%.
É importante ressaltar que isso é uma faceta, porque se você olha pra outro lado, em números absolutos, esse contingente de municípios pequenos não contribui tanto para a diminuição dos votos do Lula.
Se você aumentar esse grupo para municípios com até 50 mil habitantes, você chega a 50% da perda de votos que Lula teve entre 2022 e 2026. Já por outro lado, o Flávio ganhou votos nesses mesmos municípios em que o Lula perdeu. Ou seja, o voto que o Lula perdeu foi pro Flávio. Os demais candidatos desidrataram demais, não chegaram a influenciar essa conta.
Explique mais sobre esse recorte da presença do agro nos municípios. Você comparou a porcentagem da participação da atividade agropecuária no PIB municipal? Você pode citar alguns exemplos?
Isso, eu peguei a porcentagem da atividade agropecuária no PIB municipal. Para se ter uma ideia, em municípios onde essa porcentagem está em menos de 5% do PIB, Lula perdeu 2% no conjunto de votos. Mas onde o agro está em mais de 50% no PIB, no conjunto, Lula perdeu 8% dos votos em relação a 2022. Esses municípios pegam só 2% da população brasileira.
É interessante que, cruzando porte [da cidade] e agro, você vê que, nos municípios bem pequenos, de até 5 mil habitantes e que têm mais de 50% de PIB no agro, Lula perdeu 9% dos votos. Já entre os pequenos que têm menos de 5% do PIB no agro, Lula perdeu bem menos votos, menos de 4%. E essa perda de votos do Lula foi para o Flávio, não virou abstenção.
Isso levanta a hipótese de uma afinidade ideológica forte em municípios muito pequenos e com alta participação do agro. Uma pergunta ainda a se fazer é porque isso não pesou tanto em 2022 quanto em 2026.
E como a diferença entre as regiões do país e dos estados entra nessa conta?
No Sul e no Centro-Oeste foram onde aconteceram as maiores perdas de votos para Lula. Mas existe uma queda generalizada no país: parece que o que foi conquistado em 2022 se perdeu.
Foram 3 milhões de votos a menos que no primeiro turno de 2022. Não é uma flutuação gigantesca, mas nas últimas eleições é isso que tem acontecido, uma proporção de votos menor, que fica no meio, que fica flutuando. E quem decide a eleição são justamente essas pequenas flutuações.
E sobre a abstenção? Você aponta que ela não teve efeito na perda de votos para Lula. Por que?
A abstenção aparece como algo generalizado no país. Onde você teve mais abstenção, Lula não perdeu mais votos. A abstenção não parece ter relação nem com agro, nem com região do país. Ela bateu recorde em números absolutos, mas não foi uma variável que ajude a explicar a perda de votos de Lula.
Na sua análise, você aponta que o fator da religião evangélica não pesou nessa diminuição de votos do Lula. Por quê? E outros fatores, como entraram?
A porcentagem de evangélicos na população dos municípios não aponta uma mudança significativa de 2026 para 2022, Lula nem perdeu nem ganhou votos nas cidades a partir desse recorte – ele já não tinha [esses votos].
Já quanto mais jovem a população do município, mais o Lula perdeu votos. Quanto mais branca, também, e renda per capita do município também influencia. Quanto maior a renda, mais o Lula perdeu.
E teve uma diferença muito gritante entre capital e interior: Lula quase não perdeu nada na maioria das capitais, mas bastante em cidades que não são capitais.
Então dá pra dizer que entre os municípios onde o Lula mais perdeu votos existe um perfil comum? Municípios com grande participação do agro na economia, com população mais branca, mais jovem e com PIB per capita maior?
Sim.
E o contrário, onde o Flávio ganhou votos em relação a Jair?
O PL [votos para Flávio] ganhou 5 milhões em relação a 2022, em todo o país. E desse total de ganhos que o Flávio teve em 2026, 32% vieram do Nordeste. Foi onde ele mais avançou.
A direita cresceu nos nove estados do Nordeste. Flávio superou o resultado de Bolsonaro em 98% dos 1.794 municípios da região. No Nordeste, Lula perdeu poucos votos, mas a direita cresceu em todos os estados: de 27% para 30,9% dos votos válidos (mais 1,6 milhão de votos). O maior ganho, em pontos percentuais, foi no Ceará e no Maranhão.
Você também aponta que o Lula cresceu em 102 municípios – há algum padrão nestas cidades?
Lula ganha mais percentualmente em municípios de regiões variadas, Sobral, no Ceará; Macapá, no Amapá; Belém, no Pará; Niterói, no Rio de Janeiro; Aracaju, em Sergipe; Recife, em Pernambuco; Santos, em São Paulo; Rio Branco, no Acre; Fortaleza, no Ceará; e até na cidade do Rio de Janeiro. No geral são cidades grandes e médias.
Já Lula perdeu mais em várias cidades de Goiás, ali perto de Rio Verde. Depois em municípios do Tocantins e do Rio Grande do Sul.
Olha que curioso: Lula perde mais [votos proporcionalmente] na Bahia, com 3,6%, que em São Paulo, 3% [entre 2026 e 2022].
Na Bahia, Salvador concentrou 38% da perda de votos de Lula no estado, mas só 6% do ganho da direita: em Salvador, Lula perdeu votos sobretudo porque menos gente votou. No interior, a direita cresceu com mais eleitores indo às urnas.
Esta reportagem é parte de uma investigação especial da Agência Pública financiada pelos nossos Aliados, sem nenhum dinheiro de bet. Apoie mais reportagens como essa clicando aqui.
O tempo é uma das ferramentas mais poderosas de perspectiva. Em apenas um segundo, as plataformas de apostas online ganharam mais dinheiro do que 33 milhões de brasileiros fizeram em um mês no ano passado. Literalmente. Por cada segundo de 2025, as famílias brasileiras perderam para as bets R$ 1.982, mais do que o salário mínimo atual, de R$ 1.621 – uma realidade, por exemplo, de três a cada cinco trabalhadores no Maranhão.
Os dados são do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz), que, em agosto deste ano, estimou o esvaziamento do orçamento das famílias em R$ 62,5 bilhões em 2025 – um mercado cuja hora de “trabalho” ficou acima dos R$ 7 milhões. Na política, é justamente o tempo que muitas vezes dita urgência, relativização ou esquecimento.
Por quase uma hora, uma mulher se mantinha encolhida em um sofá na sala do apartamento da família em Uberlândia (MG). Era 25 de setembro. Em silêncio absoluto, cortado apenas por um respiro ansiosamente pesado. O som da TV preenchia o ambiente embalando a mulher, seu marido e sua filha mais velha. Evitavam falar, talvez até se mexer. As próprias vidas em suspenso.
O relógio marcava exatamente 19h07 quando um misto de riso, lágrimas e alívio tomou conta de seu semblante. Na tela, o presidente da República assinava a Medida Provisória (MP) 1.394/25, que proibia não apenas a propaganda, mas o funcionamento das plataformas de apostas em todo o território nacional.
Ao longo dos sete minutos seguintes, viu Luiz Inácio Lula da Silva, com quem havia se encontrado dias antes em Brasília, endossar o discurso que ela ajudou a popularizar, ao comparar a jogatina ao crack, e classificar a ludopatia por jogos online como um risco ainda mais invasivo. “O país trouxe o jogo para dentro de casa. O cassino está na sala, o cassino está na cozinha”, disse antes de citá-la “eu conversei com a ‘mãe que perdeu o filho de 26 anos’”. E ela sorriu, sem se incomodar com a alcunha.
“Foi uma sensação de dever cumprido”, resumiu a professora Vânia Borges do Amaral, de 54 anos, emocionada, ao ver sentido em compartilhar o luto de seu filho, Rafael Borges do Amaral, que tirou a própria vida após perder todas as economias acumuladas para as bets. É o mais recente marco na linha do tempo interrompida pela última aposta que o rapaz fez, à 1h48 de 23 de março de 2024 – um novo capítulo de sua história, agora provido de sentido.
Professora Vânia segura a foto de seu filho Rafael
A MP das bets determinou o fim da oferta dos jogos online, tanto em ambientes físicos quanto virtuais, abrangendo concessões federais e estaduais. Loterias tradicionais não foram atingidas pela mudança. Na prática, os sites e aplicativos das empresas devem ser retirados do ar nesta terça-feira (6) e as publicidades, mesmo em outdoors e outros meios físicos devem ser removidos. As multas pelo descumprimento da regra podem chegar a R$ 2 bilhões.
Não há previsão de indenização para as empresas detentoras das 85 outorgas para explorar a atividade legalmente desde 2023 no país. Cada outorga custou cerca de R$ 30 milhões, o que significa um investimento de R$ 2,55 bilhões por parte das companhias para ofertar plataformas reguladas no Brasil – valor quase 25 vezes inferior ao montante gasto pelas famílias em bets apenas em 2025. Estudo da Universidade de São Paulo (USP) estima que as plataformas retiraram R$ 141 bilhões do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, enquanto renderam R$ 9,9 bilhões em tributos em contrapartida.
“Eu não imaginava que chegaria a esse ponto, porque quando eu comecei essa luta, eu fui recebida com muito descaso. Primeiro pela Polícia Civil, depois pelo Ministério Público. Eu dei entrada, mas tudo foi demorando tanto… e eu sempre buscando uma resposta que nunca vinha. Eu vi ser instaurada a CPI das Bets e acabar naquela farra. Me gerou muita frustração, muita tristeza. Eu tive a impressão de estar abandonada”, pontuou Vânia sobre testemunhar a proibição, com a qual vinha sonhando há meses. “Eu me senti ouvida”, resumiu.
A história de Vânia e Rafael foi apresentada originalmente pela Agência Pública, que identificou uma carta que ela enviou ao Senado durante a CPI das Bets, em que narra a tragédia familiar. Os impactos da reportagem noticiados até fora do Brasil fizeram parte do especial Jogo Perigoso: O Brasil das Bets, publicado entre maio e julho de 2026 e incluíram dois projetos de lei protocolados na Câmara dos Deputados e o convite da presidência da República para que ela fosse ouvida sobre sua experiência familiar com as apostas online.
A MP 1.394 deve ser apreciada no Congresso Nacional dentro de 120 dias. Enquanto isso, o cronograma previsto na publicação se impõe para as empresas – e para um a cada três brasileiros que faziam apostas regulares nas plataformas. Às 23h59 desta segunda-feira (5), se encerra o prazo para que apostadores retirem os saldos mantidos em suas contas em todos os sites de bets, que saem do ar à meia-noite. Ainda não há certeza se o fim das apostas online será definitivo ou temporário. O futuro, mais uma vez, o tempo há de dizer.
Em setembro, Vânia pediu diretamente ao presidente Lula, em Brasília, a proibição total das apostas online no país
Clandestinidade e Justiça: os desafios além da canetada
Mais de mil plataformas ilegais foram detectadas desde o dia 21 de setembro pela plataforma bet legal, a partir do momento em que a possibilidade de proibição das bets formais ganhou força na imprensa – mais de 700 desde a assinatura da MP 1.394. Mas o campo da ilegalidade, que até então movimentava metade da fatia financeira desse mercado no Brasil, não é o único grande entrave para uma realidade sem apostas online no país.
No Supremo Tribunal Federal (STF) uma grande frente de defesa da atividade de apostas online se formou rapidamente após a proibição das bets pelo governo federal. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (CNJL) e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representam a maioria das empresas que detinham 85 concessões legais para operar no Brasil, entraram com pedido de suspensão da medida ainda no dia 28 de setembro. Dois dias depois, a Associação de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) fez o mesmo, alegando entre os argumentos “perdas de receita”.
As associações receberam um reforço massivo. Ao menos 20 clubes de futebol entraram unidos para tentar influenciar a decisão do STF. Flamengo e Botafogo pediram para integrar o processo como amicus curiae, uma espécie de consultoria para auxiliar as decisões da Corte com informações e perspectivas a serem consideradas, o que, no caso do Flamengo, já foi aceito.
São Paulo, Guarani, Ponte Preta, Portuguesa e Vitória, por sua vez, pedem um prazo de transição de pelo menos um ano para que a suspensão tenha validade em território nacional, citando a possibilidade de inviabilidade da continuação do Campeonato Brasileiro – cujo nome oficial após acordo de naming rights atualmente é “Brasileirão Betano”, em menção a uma das maiores plataformas de apostas online até então em atividade, o que foi deixado de fora da peça judicial.
Por fim, em outro processo, América, Athletic Club, Atletico Goianiense, Botafogo, Ceará, Chapeconse, Criciúma, CRB, Cruzeiro, Fluminense, Goiás, Juventude, Mirassol, Grêmio e Vila Nova pedem para que a suspensão da MP requerida pelas associações seja deferida e também solicitam que sejam ouvidos no processo. Os clubes brasileiros já haviam emitido publicação conjunta antes da publicação da MP decretando o possível “fim do futebol” em caso de proibição das apostas online.
Segundo levantamento da Bites publicado por O Globo, a publicação conjunta dos clubes provocou uma rejeição de cerca de 90% do público, incluindo de seus torcedores. De acordo com a CNN, os patrocínios dos clubes da Série A variam de R$ 12 milhões a R$ 268,5 milhões. À luz da polêmica, o Senado Federal abriu consulta popular em seu site e até o início desta segunda-feira, 85% dos votantes concordavam com a MP (481 mil votos contra 80,6 mil).
Ao menos 20 clubes ingressaram com processos no STF pedindo a suspensão da MP que proíbe as bets ou prazo de adequação do setor
A judicialização do caso das bets está sob relatoria do ministro do STF Luiz Fux, que já tratava do Marco Regulatório das Apostas de Quota Fixa. Por isso, as ações diretas de inconstitucionalidade movidas pelas partes interessadas na volta das bets coube ao magistrado. Caberá a ele não apenas julgar a MP, mas também se havia urgência suficiente para que uma medida provisória fosse editada, já que há prazos e cenários previstos em lei para o uso desse tipo de recurso. No sábado (3), o magistrado deu um prazo de 72 horas para que o governo federal justifique a necessidade da MP.
Ficou a cargo do ministro do STF Luiz Fux decidir sobre as ações de inconstitucionalidade propostas pelas empresas de apostas online e times de futebol
O ministro Luiz Fux já tem um histórico de posicionamentos quanto às questões dos jogos. Foi ele, por exemplo, que, em dezembro de 2025, mandou suspender parte da norma do Ministério da Fazenda que proibia que beneficiários do Bolsa Família apostassem nas plataformas das bets – o que apenas posteriormente foi confirmado para todos os benefícios sociais. Por outro lado, em agosto deste ano, também foi o ministro que votou para manter os demais jogos de azar como contravenção penal, como a legislação prevê com base em texto legal de 1941 – na ocasião, inclusive, correlacionando as perdas nesses jogos a episódios recorrentes de violência doméstica.
Em uma frente contrária à tentativa de intervenção judicial, que só deve entrar na pauta do Congresso Nacional após o período eleitoral, deve entrar em pauta o Projeto de Lei 5.477/26, proposta pelo governo federal logo após a publicação da medida provisória. O PL criminaliza as atividades de apostas online prevendo multa e de 2 a 4 anos de reclusão para divulgação, oferta de meios de pagamento, captação de usuários e até o desenvolvimento de aplicativos para as bets, além de 4 a 6 anos de reclusão para quem de fato explore as apostas de quota fixa no país.
As penas ainda podem ser agravadas em caso de uso por crianças e adolescentes ou quando o usuário conseguir burlar mecanismos de verificação de idade ou localização. O projeto será avaliado na Câmara e tem que passar pelo Senado antes de ser sancionado.
Rafael faleceu em 2024 aos 26 anos e inspirou projeto de lei na Câmara dos Deputados
“Naquela mesa tá faltando ele”
“Você tá ganhando quanto para fazer tudo isso?”, perguntou uma colega à professora Vânia Borges do Amaral, na semana da publicação da medida provisória que suspendeu as bets. A pergunta foi recebida como uma pancada. “Eu defendo uma causa”, conseguiu responder, sem se alongar.
“Uma colega bolsonarista, né?”, diz Vânia em entrevista à Pública. “Acho que ficou ofendida porque Lula subiu nas pesquisas depois disso [anúncio da MP]”, brinca, ainda magoada. Questionada se não se incomodava em estar sendo usada politicamente, já que sua história foi parar até no guia eleitoral do presidente petista, é categórica: “Eu provavelmente faria o mesmo. Mas tenho confiança de que ele vai ser coerente [e continuar lutando pela proibição]”. O petista avançou para o segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro, em busca de um quarto mandato frente à Presidência da República.
Para lidar com as culpabilizações e ataques nas redes sociais que passou a sofrer desde que sua história ficou conhecida no Brasil e fora dele – e foram muitos –, Vânia teve que reaprender a lógica da audição seletiva, agora do outro lado da equação. Ao longo de três décadas de ensino, a professora enfrentou greves nas redes municipal e estadual de ensino, em Uberlândia, e, longe do papel de protagonismo, convivia com ganhos eventuais e uma tradicional surdez de agentes políticos. Não ser “ouvida” não seria exatamente uma novidade. Colher frutos em escala nacional, isso sim, foge de qualquer histórico.
“A gente nota a diferença, né? Mais confiante, mais positiva…”, comenta a filha, a nutricionista Aline Borges Amaral, 33. “Repercutiu muito a história da minha mãe, então a luta dela não está sendo em vão. Fico muito feliz de ver ela indo à luta, procurando, não abaixando a cabeça, porque a gente sabe que não vai ser fácil essa medida se tornar definitiva”, pontua. A segunda filha, Amanda Borges Amaral, 31, completa: “A Vânia que a gente conhece desde criança é extremamente protetora, não foge de nada e direciona, abre caminhos. E depois de tudo que aconteceu, ela foi perdendo a vontade de viver. E ela foi se recuperando, né?”
As duas irmãs de Rafael fazem aniversário no dia 23 de março, o mesmo dia em que ele faleceu. E esse é um lembrete que não passa batido na longa lista de perdas que a família contabiliza desde 2024.
Eu carrego essa dor, e vou carregar para o resto da minha vida. Aqui, nós fazemos as reuniões aos domingos, sempre fomos uma família muito unida, e sempre que a gente se reúne aqui, talvez eu nem fale isso, mas olho na mesa e ‘falta um, tem uma cadeira vazia’. É dia das mães, outra comemoração… O aniversário das minhas duas filhas é uma data que a gente não comemora mais. Então, é algo difícil de descrever. Por isso, acho que essas pessoas, empresários, influenciadores, elas têm que ser punidas
Vânia Borges do Amaral
Mãe do Rafael
Rafael, segundo a família, não deixou dívidas para os parentes. O caçula vendeu uma moto de R$ 8 mil, se desfez de todas as economias e, nos seus últimos meses, saiu de casa para fugir das tentativas da mãe de salvá-lo, o que incluíam alertas e cobranças recorrentes, “chatices” daquelas que todo jovem rejeita por “saber mais que os pais”. Vânia insistiu o quanto pôde, conjugando todas as vozes e tempos de quem é mãe.
Família vem lidando com ataques digitais desde que a história se tornou pública, mas diz que não irá se calar até que setor de apostas online seja proibido
E fez-se verbo
A professora Vânia é formada em direito e advogou por muitos anos, antes de se dedicar a ensinar português. A luta que encampa vai além da proibição do setor. “Eu tenho provas concretas do porquê Rafael fez isso, tenho gravação, áudio, testemunha, cópias de email, tenho tudo que comprova que ele cometeu suicídio por causa das bets, eu não vou deixar isso assim. Quero que quem provocou essa morte seja responsabilizado”, pontua, devagar, com a calma de quem se acostumou a esperar.
Ela lembra que muitos enriqueceram com o lucrativo negócio que a fez perder o filho, de políticos a influenciadores. “Isso tudo foi construído à custa do sangue de muito inocente”, conclui, a professora e advogada, que promete brigar para levar o caso à esfera criminal e buscar reparação cível pelos danos causados à sua família, uma realidade que os números provam que passam longe de isolada.
O Ministério da Saúde reconhece um crescimento dos atendimentos relacionados a jogo patológico da ordem de 140% entre 2018 e 2025 e estimava que a marca seguisse crescendo mais 104% até 2028, caso a proibição não fosse feita. Segundo o Instituto de Estados para Política de Saúde, os custos anuais associados aos jogos são de R$ 38,8 bilhões, dos quais R$ 30,6 bilhões são apenas para gastos com saúde, incluindo suicídios e tratamentos de depressão.
Até agosto de 2026, 5 milhões de brasileiros estavam impedidos de acessar as plataformas de apostas online, 1,2 milhão por iniciativa própria na plataforma de autoexclusão, 800 mil por renegociarem dívidas no programa Desenrola, que tem uma edição 3.0 para lidar com as consequências das bets a partir da proibição, e outros 3 milhões por receberem benefícios sociais.
No horizonte da família de Vânia, há planos de transformar a luta num livro sobre a morte e vida de Rafael. “Falar sobre um caso assim poderia gerar ataques, chacotas pela situação… a gente sabia disso, porque a pessoa com vício é vista como uma pessoa fraca e não como uma pessoa doente, né?”, resume a filha Amanda.
“A gente falou: ‘mãe, o nosso Rafael infelizmente não volta, mas existem outros Rafaéis’. Não dá pra se calar, né? É um dever com a sociedade que a gente abra a boca e que mostre o grande problema que está todo mundo vivendo e ao mesmo tempo todo mundo com vergonha, pelo julgamento”, completou.
Falar sobre o caso abriu as comportas para uma avalanche de mensagens à família com relatos diários de dificuldades semelhantes enfrentadas em lares brasileiros. Mães, parceiras, irmãs, que se inspiram na luta da professora de Uberlândia para tentar encontrar desfechos outros. E, sem querer, Vânia virou verbo: não se calar para proteger até quem nem se conhece. Vaniemos.
Precisa de ajuda ou conhece quem precisa?
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio. O serviço é voluntário e gratuito, disponível 24h pelo número 188 e todos os dias também por chat ou email. O sigilo é garantido.